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No início de novembro, o presidente Donald Trump elevou dramaticamente o tom contra o governo da Nigéria. Através de sua rede social, Truth Social, ele ameaçou entrar no país "com tudo" (guns-a-blazing) para "acabar com os terroristas islâmicos" que estariam cometendo atrocidades contra cristãos. Trump classificou a Nigéria como um "país de particular preocupação" e afirmou ter instruído o Departamento de Defesa a se preparar para uma possível ação militar.
Essa retórica foi recebida com forte rejeição pelo governo nigeriano. O Presidente Bola Tinubu contestou a acusação, afirmando que a caracterização do país como religiosamente intolerante "não reflete a realidade nacional" e que a liberdade religiosa é um princípio fundamental da Nigéria. Apesar da rejeição a uma intervenção estrangeira, o governo Tinubu sinalizou abertura para receber assistência militar dos EUA, desde que a soberania e a integridade territorial do país fossem respeitadas.
Nos bastidores, o Pentágono já estaria desenvolvendo opções militares concretas para o teatro nigeriano, de acordo com informações do New York Times citadas pela mídia russa. Os planos reportados envolvem três níveis de engajamento:
Enquanto a atenção se voltava para a África, um desenvolvimento significativo ocorria na América do Sul. No final de outubro, um avião de transporte pesado russo Ilyushin Il-76, um modelo associado às forças armadas russas, pousou na capital venezuelana, Caracas. A aeronave, operada por uma empresa sob sanções dos EUA, fez uma jornada de dois dias passando por países aliados da Rússia na África Ocidental antes de cruzar o Atlântico, em uma rota calculada para evitar o espaço aéreo ocidental.
Esse não foi um voo isolado. O presidente Nicolás Maduro já havia anunciado publicamente que a Venezuela possuía "milhares" de mísseis antiaéreos russos Igla-S em "posições-chave de defesa aérea". Esses sistemas, portáteis e de curto alcance, são capazes de abater helicópteros e aviões que voem em baixa altitude, representando uma ameaça considerável a qualquer operação aérea. A Rússia também teria fornecido sistemas de defesa aérea mais avançados, como o S-300, e mísseis de cruzeiro, significativamente fortalecendo as defesas venezuelanas.
Esses reforços transformaram um possível cenário de intervenção militar na Venezuela de uma operação de custo relativamente baixo para um empreendimento de alto risco e potencialmente alto custo político e humanitário. A mudança no equilíbrio de poder militar na região forçou uma reavaliação estratégica em Washington.
A guinada repentina em direção à Nigéria, portanto, não parece ser uma coincidência, mas sim uma reação pragmática a um impasse militar no quintal dos EUA. Diante de uma Venezuela agora fortemente armada, a ameaça de intervenção perdeu credibilidade e utilidade como ferramenta de pressão. A administração Trump precisava de um novo alvo para sua retórica intervencionista e para demonstrar força perante sua base doméstica.
A Nigéria apresentava-se como um alvo strategicamente mais conveniente por várias razões:
A aparente mudança súbita de Trump em direção à Nigéria é, na realidade, um movimento calculado em um tabuleiro geopolítico global. A chegada de armas russas à Venezuela elevou o custo de uma intervenção direta, tornando o país africano um alvo mais "acessível" para a demonstração de força americana. Por trás do discurso de proteção religiosa, escondem-se objetivos materiais claros: garantir o acesso ao petróleo e minerais estratégicos, conter a influência chinesa e russa e alimentar a retórica política para consumo interno.
Enquanto isso, as populações da Nigéria e da Venezuela permanecem reféns desta disputa entre grandes potências, enfrentando a perspectiva de mais violência e instabilidade, independentemente de onde as "armas" de Trump estejam apontadas.
Com informações de Al Jazeera, CNN, Defensenews, The Guardian, Just Security, Sputnik, VT Foreign Policy ■