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A Fiscalía de Milán abriu uma investigação criminal para apurar uma das denúncias mais chocantes a emergir da Guerra da Bósnia: a existência de "safáris humanos" nos quais turistas italianos, supostamente, pagavam grandes somas de dinheiro para atuar como franco-atiradores e disparar contra civis na cidade sitiada de Sarajevo durante a década de 1990.
O esquema, que teria operado entre 1993 e 1995€ 80 mil e € 100 mil (valores atuais) para receberem fuzis e permissão para atirar em alvos humanos na capital bósnia.
De acordo com a denúncia, apresentada pelo jornalista e escritor italiano Ezio Gavazzeni, os "turistas de guerra" eram "pessoas ricas, com reputação, empresários" com uma paixão por armas e, em alguns casos, ligações a círculos de extrema-direita. Eles teriam pago subornos exorbitantes para passar pelos postos de controle, muitas vezes fingindo estar em uma missão humanitária.
O promotor anticorrupção e antiterrorismo Alessandro Gobbis é o responsável pela investigação, que tem como base um dossiê de 17 páginas preparado por Gavazzeni e que inclui um relatório da ex-prefeita de Sarajevo, Benjamina Karic. As acusações são de homicídio doloso agravado por crueldade e motivo torpe.
Talvez o aspecto mais brutal da denúncia seja a existência de uma tabela de preços diferenciada para as vítimas. Vários relatos indicam que os "caçadores" pagavam valores mais altos para alvejar crianças. Os alvos eram, em sua maioria, civis bósnios que, em atos de desespero, saíam de suas casas para buscar alimentos, remédios e outros mantimentos essenciais enquanto a cidade estava completamente bloqueada.
O cerco a Sarajevo, que durou de abril de 1992 a fevereiro de 1996, foi o mais longo da história moderna. Estima-se que mais de 11.500 civis tenham sido mortos durante o período, muitos deles vítimas de franco-atiradores posicionados nas montanhas que circundam a cidade. Uma das principais vias da capital, constantemente monitorada por atiradores, ficou conhecida como "Sniper Alley" (Beco dos Sniper). Cálculos da UNICEF indicam que 65 mil das 80 mil crianças da cidade, ou 40% da população infantil, foi alvejada diretamente por snipers durante o cerco.
As alegações sobre os "safáris humanos" circulavam há décadas, mas ganharam novo fôlego com o documentário de 2022 "Sarajevo Safari", do diretor esloveno Miran Zupanic, que reuniu testemunhos sobre o tema. Foi após assistir ao documentário que o jornalista Ezio Gavazzeni decidiu retomar suas próprias investigações, que culminaram no dossiê entregue às autoridades italianas.
Gavazzeni afirmou que a Justiça da Sérvia trata o caso como uma "lenda urbana", e que uma investigação na Bósnia enfrenta dificuldades devido às profundas divisões e cicatrizes ainda abertas pela guerra. Por isso, ele optou por levar as provas para a Itália. O jornalista estima que "pelo menos uma centena" de pessoas podem ter participado do esquema, a maioria italianos.
A investigação da Procuradoria de Milão já identificou uma lista de testemunhas que serão convocadas para depor, incluindo um ex-oficial da inteligência militar bósnia, que afirmou que seus colegas alertaram o serviço de inteligência militar italiano (SISMI) sobre a presença de pelo menos cinco italianos nas colinas em torno de Sarajevo ainda em 1993. De acordo com esse testemunho, a inteligência italiana teria respondido alguns meses depois afirmando que "puseram um fim nisso e não haverá mais safáris".
Enquanto a investigação italiana avança, tentando levar à Justiça os acusados de transformar o sofrimento humano em um esporte para ricos, o caso "Sarajevo Safari" serve como um lembrete sombrio de uma das páginas mais cruéis da história europeia recente e da profundidade do mal que pode ser alcançada quando a vida humana é despojada de seu valor fundamental.
Com informações de: G1, El País, BBC, Veja, IstoÉ Dinheiro, Daily Sabah. ■