Medida representa uma ruptura significativa entre os aliados e ocorre devido a preocupações de que informações britânicas estejam sendo usadas em ataques militares considerados ilegais
O Reino Unido decidiu suspender o compartilhamento de informações de inteligência com os Estados Unidos sobre embarcações suspeitas de tráfico de drogas no Caribe. A decisão, que começou há mais de um mês, foi tomada porque o governo britânico não quer ser cúmplice de ataques militares que acredita violarem o direito internacional, de acordo com fontes familiarizadas com o assunto .
Mudança de Paradigma: Da Apreensão aos Ataques Letais
Durante anos, a parceria entre os dois países no Caribe funcionava sob um modelo de aplicação da lei:
- O Reino Unido, que controla territórios na região onde mantém recursos de inteligência, ajudava os EUA a localizar navios suspeitos .
- As informações eram repassadas para a Força-Tarefa Interagências Conjunta Sul (JIATF South), no Florida, que coordenava a interceptação pela Guarda Costeira dos EUA .
- O procedimento padrão envolvia parar a embarcação, prender a tripulação e apreender a droga, tratando os suspeitos como criminosos com direito ao devido processo legal .
No entanto, a partir de setembro, a estratégia dos EUA mudou radicalmente. O governo Trump iniciou uma campanha de ataques letais com mísseis contra as embarcações. Até o momento, essas operações resultaram em pelo menos 76 mortes em cerca de 19 ataques, segundo os relatos .
O Coração da Controvérsia: A Legalidade dos Ataques
A justificativa legal apresentada pela administração norte-americana é baseada em um memorando enviado ao Congresso, que argumenta:
- Os suspeitos de tráfico são uma "ameaça iminente" aos americanos.
- Eles são considerados "combatentes inimigos" em um "conflito armado" contra os EUA.
- O ex-presidente Donald Trump designou vários cartéis de droga como "organizações terroristas estrangeiras" .
Entretanto, essas justificativas enfrentam forte oposição e ceticismo:
- Alto Comissário de Direitos Humanos da ONU, Volker Türk: Classificou os ataques como inaceitáveis e os considerou "execuções extrajudiciais", uma avaliação com a qual o Reino Unido concorda .
- Especialistas Jurídicos: Argumentam que a Lei dos Conflitos Armados ainda se aplicaria a traficantes civis, e que a designação como grupo terrorista não autoriza automaticamente o uso de força letal .
- Ceticismo Interno: O próprio comandante do Comando Sul dos EUA (SOUTHCOM), almirante Alvin Holsey, ofereceu sua renúncia após questionar a legalidade dos ataques em uma reunião tensa .
Repercussão Internacional e Isolamento dos EUA
A decisão do Reino Unido não é um ato isolado e reflete um mal-estar mais amplo entre os aliados tradicionais dos EUA:
- Canadá: Também se distanciou publicamente dos ataques militares. Um porta-voz de defesa do país enfatizou que suas operações de interceptação com a Guarda Costeira dos EUA são "separadas e distintas" dos ataques letais .
- Colômbia: O presidente Gustavo Petro anunciou que ordenou a suspensão do compartilhamento de inteligência com as agências de segurança dos EUA até que os ataques no Caribe cessem .
Enquanto isso, o Secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, continua a anunciar publicamente novos ataques, descrevendo os alvos como "narco-terroristas" e afirmando que as ações são necessárias para proteger o território norte-americano .
Com informações de: CNN, Sky News, KFOXTV, R7, Mais Goias, CNN Portugal ■