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“Ataque eleitoral travestido”: a dura acusação de Durigan
Em entrevista exclusiva à GloboNews e ao Blog da Natuza Nery, ministro da Fazenda chama decisão dos EUA de interferência na corrida presidencial, alerta para riscos ao sistema financeiro e ao maior símbolo da soberania monetária brasileira
Politica
Foto: https://images.jota.info/wp-content/uploads/2025/10/durigan-fazenda-meta.jpg
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■   Bernardo Cahue, 30/05/2026

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, fez nesta sexta-feira (29) sua primeira manifestação pública após a decisão do governo dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras. Em entrevista contundente à GloboNews, repercutida também no Blog da Natuza Nery, Durigan foi além do tom diplomático e classificou a medida como um “ataque eleitoral” disfarçado de ato de designação, que, em sua avaliação, trará prejuízos concretos à economia brasileira e ameaça o sistema de pagamentos instantâneos PIX.

“Nós estamos aqui preocupados em proteger a população, seja das organizações criminosas, seja desse ataque eleitoral, travestido de ato de designação, que não cabe e vai prejudicar a economia brasileira, prejudicar as famílias brasileiras”, afirmou Durigan. A declaração explicita a avaliação do Palácio do Planalto de que a decisão do secretário de Estado americano, Marco Rubio, foi articulada para favorecer a pré-candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que vinha defendendo publicamente a medida e se reuniu com o secretário de Estado e o presidente Donald Trump na véspera do anúncio.

O acerto de contas: “eles querem derrubar o PIX”
O principal alvo da preocupação de Durigan foi o sistema de pagamentos instantâneos do Banco Central. Em tom de alerta, o ministro revelou o temor do governo de que a classificação terrorista sirva de pretexto para que Washington passe a enxergar o PIX como uma ferramenta de financiamento do crime organizado, abrindo caminho para sanções contra bancos, fintechs e até mesmo contra a própria infraestrutura do sistema. “Há um receio das instituições financeiras de sofrerem com uma discricionariedade de instrumentos de ataque (por parte dos Estados Unidos). Então, se começar a dizer que determinada infraestrutura como o PIX pode ser utilizada por facções criminosas denominadas grupos terroristas pela designação norte-americana... e as instituições serem alvos disso”, detalhou em entrevista ao GLOBO.

Durigan lembrou que o PIX já é investigado comercialmente pelos EUA desde o governo Trump, sob pressão de grandes bandeiras internacionais de cartão de crédito e empresas de tecnologia financeira que perderam receitas com o sistema gratuito brasileiro. “O PIX é o maior símbolo da soberania financeira do Brasil. E a gente sabe que tem outros interesses, interesses privados, interesses corporativos, que se incomodam com o PIX, porque ele é grátis, sem burocracia”, disse ao Jornal Nacional. “Quem coloca o PIX em dúvida, quem fragiliza, quem põe o PIX em perigo, é esse tipo de questionamento que tem sido amplamente fomentado pela família Bolsonaro”, arrematou.

Os efeitos concretos: investimento externo na mira
A avaliação do ministro é de que o ambiente de negócios brasileiro será diretamente afetado. Em suas declarações, ele listou um conjunto de riscos operacionais e sistêmicos.

  • Risco ao investimento estrangeiro direto: Durigan afirmou que a designação pode representar um risco para investimentos no Brasil que não existia antes, prejudicando a percepção de segurança jurídica do país.
  • Insegurança bancária e operacional: O temor é que instituições financeiras brasileiras passem a ser alvo de sanções discricionárias dos EUA caso haja suspeitas, ainda que não comprovadas, de que contas estão sendo usadas pelas facções agora classificadas como terroristas.
  • Precedentes internacionais: Durigan citou os casos do México e da Colômbia, onde o Departamento de Justiça dos EUA já interveio em instituições financeiras sob alegação de transferências de facções – um precedente que agora assombra o sistema bancário brasileiro.

A estratégia de proteção: lições do “tarifaço”
Apesar da gravidade do cenário, Durigan sinalizou que o governo não pretende adotar uma postura de confronto direto, mas sim de contenção e negociação, inspirada na resposta dada à imposição de tarifas protecionistas pelos EUA em 2025. “Cabe ao governo brasileiro, mais uma vez, como foi feito no tarifaço do ano passado, dar um passo à frente e proteger o nosso sistema financeiro, que pode ser o primeiro afetado, mas também os nossos empresários e as famílias brasileiras”, afirmou.

O governo já adotou medidas concretas. Uma reunião de emergência foi convocada no Palácio do Planalto com os ministros da Fazenda, da Justiça e Segurança Pública, o diretor-geral da Polícia Federal e assessores do Itamaraty para discutir o alcance da designação. Segundo Durigan, tanto a Fazenda quanto o Banco Central iniciaram contatos com o sistema financeiro nacional para evitar uma diminuição nas notas de classificação de risco e para assegurar que não haverá prejuízo ao uso do PIX pela população.

Interpretação e contexto: o governo na berlinda
A decisão americana coloca o governo Lula em um dilema estratégico. Ao mesmo tempo que precisa reagir com firmeza contra o que considera uma ingerência externa – e uma interferência eleitoral escancarada –, não pode ser acusado de leniência com o crime organizado. Durigan tentou equilibrar essa equação ao reconhecer a periculosidade das facções: “Estamos aqui preocupados em proteger a população, seja das organizações criminosas, seja desse ataque eleitoral”. A fala revela que o governo não nega a violência dos grupos, mas recusa a classificação terrorista por considerá-la uma ameaça maior à soberania e à economia do que ao crime em si.

Nos bastidores, auxiliares do presidente avaliam que Flávio Bolsonaro colheu frutos políticos imediatos ao comemorar a decisão, mas alertam que a medida, ao criar instabilidade econômica e jurídica, acaba também por prejudicar o país que o pré-candidato pretende governar. “Se o PIX for acusado de ser um instrumento do crime organizado, pode estar sob ameaça. O que nós vamos fazer é garantir que o PIX siga funcionando no Brasil”, resumiu Durigan ao JN.

Próximos passos: confronto ou acomodação?
A designação passa a valer em 5 de junho de 2026. O governo brasileiro, no entanto, não descarta a possibilidade de tentar reverter a decisão pelos canais diplomáticos, argumentando que a motivação eleitoral e a ausência de base legal para o enquadramento terrorista são vícios insanáveis. Até lá, Durigan afirmou que o governo trabalhará em duas frentes: a do “combate e diálogo” com Washington para explicar os efeitos colaterais da medida, e a da “proteção” interna, com eventual suporte a bancos e empresas que venham a ser prejudicados.

“Como foi feito no tarifaço, agora nós vamos fazer o combate, nós vamos fazer o diálogo e, se for necessário, fazer a proteção do PIX, das instituições financeiras, dos empresários locais”, assegurou ao GLOBO. Resta saber se a estratégia de contenção será suficiente para blindar a economia brasileira da crise diplomática mais grave com os Estados Unidos em décadas – e se o país conseguirá preservar a sua soberania financeira diante do imperialismo do dólar.

Com informações de Blog da Natuza Nery/G1, UOL, Reuters, Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo, O Globo, O Tempo, Jovem Pan, Metrópoles, Brasil 247, Congresso em Foco, Correio Braziliense, Valor Econômico, IstoÉ, CartaCapital, CNN Brasil, BBC Brasil ■

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