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Lula ergue barricada da soberania contra designação terrorista
Presidente classifica facções como “terroristas para as comunidades brasileiras”, mas rechaça interferência externa e alerta para riscos econômicos e militares; governo fala em “traidores da pátria” e ameaça ao PIX
Politica
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■   Bernardo Cahue, 30/05/2026

Título: dos EUA e acusa Flávio Bolsonaro de “traição”
Linha fina:

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) iniciou nesta sexta-feira (29) uma dura ofensiva diplomática e discursiva contra a decisão do governo Donald Trump de classificar facções do narcotráfico como organizações terroristas estrangeiras (FTOs) e terroristas globais especialmente designados (SDGTs). Em tom inflamado durante evento em Laranjeiras (SE), o presidente afirmou que o Brasil “não aceita ser tratado como moleque” nem como “republiqueta” e acusou diretamente o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência e filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, de “trair a pátria” ao solicitar a medida em visita a Washington três dias antes do anúncio. “Não aceitamos ser tratados como se fôssemos uma republiqueta. Isso aqui não é um país qualquer”, declarou Lula, ecoando a nota oficial do Planalto que classifica a soberania nacional como “inegociável” e promete não aceitar “medidas arbitrárias vindas do estrangeiro”.

Em um movimento que surpreendeu diplomatas e analistas, Lula, em vez de negar a violência das facções, reconheceu abertamente seu poder de terror: “Esse tal de Comando Vermelho, esse tal de PCC – eles são terroristas para as comunidades brasileiras, para a sociedade brasileira, para o povo da periferia desse país”, afirmou. Na sequência, o presidente fez uma distinção crucial: “Eles não são os terroristas que o Trump quer”. A fala endossa a argumentação da nota oficial, segundo a qual a violência das facções, embora aterrorizante, é movida por objetivos econômicos – tráfico de drogas e armas – e não por “motivos ideológicos, políticos e religiosos” que caracterizam o terrorismo internacional. O governo ressalta que “quem define como o crime é classificado e combatido dentro do Brasil são os brasileiros, com suas instituições, suas leis e suas forças de segurança”.

Riscos econômicos e militares: alerta sobre o PIX e a cobiça externa

A reação do governo não se limitou ao campo simbólico. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, declarou que a designação representa uma ameaça direta ao sistema financeiro brasileiro, em especial ao PIX, ao sistema de pagamentos instantâneos do Banco Central, e pode abrir caminho para sanções contra empresas brasileiras supostamente infiltradas pelo crime organizado. A possibilidade de bloqueio de ativos e restrições a transações com o sistema bancário americano, previstas na legislação antiterrorismo dos EUA, acendeu alerta no mercado financeiro, que teme impactos sobre setores como o agronegócio, a mineração e o comércio bilateral.

Além disso, Lula levantou a suspeita de que o movimento americano esconda um apetite mais profundo: a cobiça pelas riquezas naturais brasileiras. “Tenho preocupação porque nós temos muitos minerais críticos, muitas terras raras, muito minério, muito ouro, muito diamante, a maior floresta tropical do mundo e 12% da água doce doce do planeta. Daqui a pouco vão dizer que a Amazônia é deles. Não é”, afirmou. O temor, compartilhado por membros do Itamaraty, é que a classificação seja usada como pretexto para ações militares unilaterais dos EUA em solo brasileiro, sob a justificativa de combate ao narcoterrorismo – um precedente que Washington já aplicou na Venezuela e no Caribe. Como registra a própria nota do Planalto, o governo alerta que medidas unilaterais “podem atrapalhar o combate, reduzir o compartilhamento de informações entre as polícias e gerar ações que coloquem em risco a vida de inocentes”.

“Traidores”: governo mira a família Bolsonaro e o lobby em Washington

O elemento mais explosivo da crise foi a decisão do Palácio do Planalto de personalizar o conflito. A nota oficial divulgada nesta sexta chama os integrantes da família Bolsonaro de “traidores” e os acusa de terem ido aos Estados Unidos para “defender intervenção estrangeira no Brasil”. Em discurso, Lula foi ainda mais explícito: “O senhor Rubio não estava lá [na reunião com Trump], possivelmente porque ele tivesse preparado para ajudar o filho de um bolsonarista que é candidato a eleição aqui nesse país, que não tem vergonha na cara de trair a nossa pátria, de ir nos EUA pedir intervenção americana no Brasil”.

A referência é à visita de Flávio Bolsonaro a Washington, onde foi recebido pelo presidente Donald Trump e pelo secretário de Estado Marco Rubio. Dois dias depois do encontro, Rubio anunciou a classificação. O governo avalia que a manobra faz parte de uma estratégia para desgastar o governo Lula em ano eleitoral e turbinar a candidatura de Flávio Bolsonaro, que já incorporou o combate ao crime organizado como carro-chefe de sua campanha.

O governo argumenta que a escalada unilateral dos EUA pode ter consequências profundas nas relações bilaterais. Em abril, o Brasil apresentou ao Departamento de Estado uma proposta de cooperação focada em inteligência financeira, controle de lavagem de dinheiro e repressão ao tráfico de armas – um pacote de medidas que, segundo o Planalto, tornaria desnecessária a rotulagem terrorista. A recusa americana em negociar a decisão foi interpretada como uma derrota diplomática do Itamaraty, que vinha atuando havia mais de um ano para evitar o enquadramento.

Pressão internacional e democrata: alertas ignorados

Internamente, nos EUA, a medida também encontrou resistência. Um grupo de sete deputados democratas enviou em maio uma carta a Marco Rubio advertindo que a classificação poderia ser “contraproducente e prejudicial às relações entre os EUA e o Brasil” e pedindo que a ferramenta antiterrorismo não fosse usada para “influenciar eleições estrangeiras”. A carta, obtida pela CNN Brasil, cita o “longo e problemático histórico de intervenção dos EUA no Brasil”, incluindo o apoio à ditadura militar pós-1964, e conclui que a decisão “precisa ser acompanhada de salvaguardas que impeçam o uso político da lista”. O governo Trump ignorou o apelo.

A reação do governo Lula, no entanto, também carrega riscos internos. A decisão de reconhecer as facções como “terroristas para os brasileiros” ao mesmo tempo em que critica a designação externa expõe o Planalto a acusações da oposição de “defender bandidos”. A Gazeta do Povo, por exemplo, classifica a medida como uma “derrota de Lula”, enquanto Flávio Bolsonaro comemora nas redes sociais: “Grande dia”. Nos bastidores, o governo calibra o tom da reação com o temor de que uma manifestação muito enfática seja lida pela população como leniência com o crime organizado.

O paradoxo da segurança e o futuro da relação bilateral

A decisão americana escancara uma contradição de fundo: ao classificar as facções como terroristas, os EUA adotam uma política que, na prática, reduz a cooperação policial e de inteligência que o próprio governo brasileiro considera fundamental. O Itamaraty, em nota oficial, sintetizou o paradoxo: “Medidas unilaterais e não negociadas enfraquecem o combate a criminosos, reduzem a capacidade de intercâmbio de informações entre as polícias e geram ações que colocam em risco a vida de pessoas inocentes”. O recado final do governo Lula é claro: o Brasil não aceita tutela. “Eu trato um país pequeno com o mesmo respeito que eu trato a China, a Rússia e os EUA. Eu não falo grosso com a Bolívia e fino com os EUA”, declarou o presidente. A pergunta que fica, agora, é se Washington estará disposto a devolver o mesmo respeito.

Com informações de Agência Brasil, Associated Press (AA.com.tr), BBC News Brasil, CNN Brasil, Congresso em Foco, Folha de S.Paulo, G1, Gazeta do Povo, O Estado de S. Paulo, O Globo, Poder360, Reuters, UOL e Valor Econômico ■

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