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A fábrica de sonhos da política brasileira tem um endereço conhecido. Não fica em Orlando, nem em Brasília. Funciona onde houver um bolsonarista com um celular e acesso a inteligência artificial generativa. O mais recente produto dessa linha de montagem de ilusões é uma fotografia que circula em grupos de apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro com o senador Flávio Bolsonaro e Donald Trump, e outra com os dois e mais o ex-deputado Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo Filho, neto do ditador João Baptista Figueiredo. Nela, vê-se o mesmo Salão Oval da Casa Branca, e Donald Trump com o mesmo sorriso forçado.
Na foto-montagem desta matéria, ao centro, sentado à mesa presidencial, o mesmo Donald Trump. Em pé, da esquerda para a direita, uma constelação anacrônica e improvável: Albert Einstein, Pelé, Diego Maradona, Murilo Benício (no papel de Tufão, da novela “Avenida Brasil”) e Dom Pedro I. A imagem é, evidentemente, gerada por inteligência artificial. Mas o que parece piada de mau gosto esconde um método: o bolsonarismo sempre tratou a realidade como matéria-prima maleável, e a imprensa, como plateia que ora aplaude, ora se queima.
Não se trata de um caso isolado. A foto com Trump que Flávio Bolsonaro publicou dias atrás — desmascarada como mero souvenir de US$ 15 da loja da Casa Branca — é irmã gêmea dessa montagem com Einstein e Pelé. Em ambas, o objetivo é o mesmo: produzir um factoide visual que, mesmo depois de desmentido, já cumpriu seu papel de gerar manchetes, mobilizar a militância e desviar o foco de escândalos reais — como o desvio de R$ 62 milhões do Banco Master e as investigações em Delaware. A diferença é que, na montagem do souvenir, a imprensa ainda foi usada como caixa de ressonância acrítica. Na foto com Einstein e Pelé, até mesmo o mais ingênuo dos editores perceberia o absurdo — o que revela o quanto a família Bolsonaro já testou a credibilidade e a paciência do jornalismo brasileiro.
Mas o hábito de inventar notícias não começou com a IA. Vem de muito antes, dos anos 1990, quando Jair Bolsonaro ainda era um deputado federal de baixo clero, mas já dominava a arte do factoide. Naquela época, circularam no Planalto e nos meios políticos as chamadas “notinhas” de Jair Bolsonaro — bilhetes e relatos supostamente escritos por ele que detalhavam bastidores da Presidência da República, com acusações, fofocas e supostas tramas de corrupção. Essas notinhas chegaram às mãos de jornalistas sérios, entre eles Ricardo Boechat, então colunista do jornal O Globo. Boechat, movido pelo faro investigativo, publicou algumas delas. O problema? Eram falsas. Foram repassadas a ele pelo personagem conhecido como Waldir Ferraz, apelidado de “zero-zero” — um intermediário que se aproveitava da amizade com o jornalista para plantar histórias inventadas por Bolsonaro e seus aliados.
O episódio ficou marcado como um dos primeiros grandes testes de credibilidade protagonizados pela família. Boechat, anos depois, em entrevistas, admitiu ter sido enganado e aprendeu a lição. Mas a imprensa, como instituição, parece não ter internalizado o padrão. Porque, desde então, a família Bolsonaro repetiu esse roteiro dezenas de vezes, sempre com o mesmo efeito: uma narrativa absurda é lançada, parte da imprensa replica sem checagem, e, quando desmentida, o dano já está feito — e o político ainda acusa a mídia de “perseguição”.
Vale um retrospecto dos principais factóides inventados (ou amplificados) pela família Bolsonaro ao longo das últimas três décadas:
O padrão é claro: em todos esses episódios, há uma fabricação deliberada de uma realidade paralela. A diferença tecnológica entre as notinhas manuscritas dos anos 1990 e a imagem de IA de 2026 é imensa, mas a lógica subjacente é a mesma: testar até onde a imprensa está disposta a seguir a narrativa sem fazer as perguntas certas. E, com frequência alarmante, a resposta da imprensa tem sido: “vamos publicar primeiro e verificar depois — se sobrar tempo”.
É nesse ponto que o episódio da foto com Einstein e Pelé se torna mais que uma sátira. Ele é um espelho do método bolsonarista de comunicação: criar ruído, gerar imagens fortes, saturar o debate público com informações sabidamente falsas e, quando contestado, gritar “perseguição da mídia”. A fábrica de sonhos não precisa que o sonho seja crível; precisa apenas que ele seja compartilhável. E, para isso, a imprensa continua sendo o melhor cabo eleitoral — quando cai no conto, dando manchete; quando resiste, sendo acusada de partidarismo.
O caso das notinhas de Boechat, resgatado agora, serve de alerta histórico. O saudoso jornalista Ricardo Boechat aprendeu na própria pele o perigo de confiar em fontes não verificadas, mesmo quando elas vêm com “documentos”. Waldir Ferraz, o “zero-zero”, era um profissional da desinformação. Hoje, seu lugar foi ocupado pelos perfis anônimos que produzem deepfakes, imagens de IA e áudios adulterados. O que muda é a escala e a velocidade. O que permanece é a vulnerabilidade de uma imprensa que, muitas vezes, prioriza o furo em detrimento do fato.
É preciso, no entanto, fazer uma distinção importante. Nem toda a imprensa brasileira cai em todos os factóides. Veículos como Folha de S.Paulo, UOL, O Globo, Estadão e Piauí, por exemplo, já produziram excelentes checagens e reportagens investigativas que desmontaram essas mentiras — muitas vezes com exclusividade. O problema é que, no ecossistema digital, a manchete falsa viaja mais rápido do que a correção. E quando os grandes veículos publicam uma nota inicial sem a devida desconfiança (como ocorreu na foto-souvenir com Trump), o estrago está feito. A correção sai horas depois, em texto modesto (isso quando sai), enquanto a imagem falsa já foi compartilhada centenas de milhares de vezes.
Diante desse cenário, a foto gerada por IA com Einstein, Pelé, Maradona, Tufão e Dom Pedro I ao lado de Trump funciona como um teste de estresse para o jornalismo. Será que algum veículo sério publicaria essa imagem como real? É improvável. Mas a pergunta não é essa. A pergunta é: diante de um absurdo menor — uma foto turística com Trump editada para parecer encontro oficial —, por que tantos veículos deixaram de fazer o trabalho básico de verificar a agenda presidencial americana, os metadados da imagem, ou o próprio histórico de mentiras da família? A resposta pode estar na síndrome de Stephen Glass, já citada em análise anterior: a tentação de acreditar numa boa história, mesmo que ela seja boa demais para ser verdade.
A fábrica de sonhos bolsonarista continuará produzindo. O próximo produto pode ser uma foto de Trump dançando com Garrincha ou uma “notinha” atribuída a Lula escrita com caneta de ouro. O que define o futuro da credibilidade jornalística não é a criatividade dos fabuladores, mas a disciplina dos editores e repórteres em aplicar o método de verificação antes de compartilhar, pautar, estampar. A imprensa que não aprende com os erros do passado — incluindo todos os episódios com Boechat e Waldir Ferraz — está condenada a repeti-los, alimentando a mesma máquina de factóides que a ridiculariza. E, como mostra a foto surreal do Salão Oval com Einstein e Pelé, o ridículo, quando viraliza, não tem dono — atinge a todos, criadores e propagadores.
Conclui-se, portanto, que a família Bolsonaro consolidou ao longo de décadas um verdadeiro “teste de credibilidade e de paciência” com a imprensa brasileira. A cada novo ciclo, lançam uma isca. Se a mídia morde, ganham o debate e acusam perseguição. Se não morde, reclamam de censura. O dilema só se resolve quando o jornalismo internalizar que não existe obrigação de dar manchete para factóides. A fábrica de sonhos só funciona enquanto houver quem compre os ingressos.
Com informações de O Globo (acervo), Folha de S.Paulo, UOL, Piauí, The Intercept Brasil, CNN Brasil, análise de IA (ChatGPT, Grok), agenda pública da Casa Branca, White House Gift Shop ■