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No momento mais delicado de sua pré-campanha à Presidência da República, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) desembarcou em Washington na segunda-feira (25) à espera de um encontro com o presidente norte-americano, Donald Trump. A reunião, ainda não confirmada oficialmente pela Casa Branca, é tratada pela equipe do senador como uma tentativa de conter a crise desencadeada após a revelação de sua relação com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e a produção do filme “Dark Horse”, cinebiografia de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Nos bastidores, a viagem é vista como um movimento de sobrevivência política. A estratégia, segundo a CNN Brasil, é tentar “recuperar o fôlego na corrida presidencial após a crise desencadeada pela revelação dos contatos com Vorcaro”. De acordo com o jornal britânico Financial Times, publicado na mesma segunda-feira, o longa “Dark Horse” tornou-se uma “comédia de erros” que ameaça a viabilidade eleitoral do senador, que obteve milhões de dólares para o filme de um “suspeito de fraude, apontado como o responsável pelo colapso de um banco de 10 bilhões de dólares”.
O cenário em Washington é de incerteza. O próprio aliado de Flávio, o empresário Paulo Figueiredo, afirmou nas redes sociais que o senador está na capital americana “para uma série de reuniões de alto nível”, mas a confirmação da agenda com Trump segue pendente. A CNN Brasil informou que o convite para a reunião na Casa Branca teria chegado na semana passada por e-mail ao gabinete de Flávio e precisou ser “checado para comprovar sua veracidade”.
Nos meios políticos brasileiros, a avaliação é de que a viagem é uma tentativa de capitalizar a imagem trumpista para tentar anular os efeitos do escândalo Vorcaro. O jornal O Globo aponta que a ida a Washington “foi trabalhada com a ala ideológica do governo Trump pelo ex-deputado Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio, que está nos EUA há mais de um ano”. O encontro, ainda que ocorra, carrega riscos — o presidente americano cancelou sua presença no casamento do próprio filho para se concentrar nas negociações com o Irã, o que poderia levar ao adiamento ou cancelamento da agenda com o senador brasileiro.
No front eleitoral, os números são ainda mais severos para a candidatura do bolsonarismo. As pesquisas Datafolha divulgadas na sexta-feira (22) mostram que o presidente Lula (PT) ampliou a vantagem sobre Flávio Bolsonaro no segundo turno, com 47% contra 43% do senador. No primeiro turno, a diferença saltou de três para nove pontos percentuais: Lula oscilou de 38% para 40%, enquanto Flávio recuou de 35% para 31%. A pesquisa Atlas/Bloomberg, divulgada na terça (19), também registrou recuo do senador, com Lula vencendo por 48,9% a 41,8% das intenções de voto.
O episódio do filme “Dark Horse” concentra o epicentro do desgaste da pré-campanha. Reportagem do site The Intercept Brasil revelou que o senador pediu dinheiro a Vorcaro para financiar o longa sobre seu pai, que tem o ator Jim Caviezel como protagonista. O repasse total acordado entre eles seria de US$ 24 milhões (R$ 134 milhões à época), dos quais R$ 61 milhões teriam sido liberados. A produção, orçada originalmente em R$ 93 milhões, segundo o Intercept, teria ultrapassado esse valor.
O Financial Times não poupou críticas. “Antes mesmo de seu lançamento, a cinebiografia em inglês está se transformando em uma comédia de erros”, escreveu o periódico. A reportagem cita que Flávio obteve “milhões de dólares em financiamento para o filme de um suspeito de corrupção, apontado como o responsável pelo colapso de um banco de 10 bilhões de dólares”. A publicação também afirma que “a crise levantou dúvidas sobre a viabilidade eleitoral de Flávio Bolsonaro”.
O impacto sobre a pré-campanha foi imediato e duplo. Além da queda nas pesquisas, Flávio viu sua rejeição subir de 43% para 46%, segundo o Datafolha, enquanto a do presidente Lula caiu de 47% para 45%. Em uma atitude incomum, a pré-campanha do senador chegou a pedir ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a suspensão da divulgação da pesquisa Atlas/Bloomberg, alegando que o questionário foi “estruturado de forma a induzir uma percepção negativa sobre Flávio”.
Na avaliação do cientista político Cláudio Gonçalves Couto, ouvido pelo Brasil de Fato, o escândalo “consolida o que já se desenhava no cenário político”. Ele aponta que, embora ainda seja “cedo para apostar numa desistência da candidatura”, o desgaste é real e o bolsonarismo, “projeto político familiar”, tem poucas alternativas viáveis. “O candidato preferencial seria Eduardo, mas ele está foragido nos EUA”, afirma Couto.
A viagem de Flávio a Washington, portanto, revela-se uma aposta de alto risco. A ausência de confirmação oficial da Casa Branca e as tratativas de Trump com o Irã podem transformar o que era para ser uma “agenda positiva” em um fiasco diplomático, com potencial de agravar ainda mais o desgaste eleitoral. O colunista Valdo Cruz, do G1, resume: “Flávio Bolsonaro está, pela primeira vez, vivendo uma agenda negativa desde que sua candidatura foi lançada pelo seu pai”.
Enquanto Flávio aguarda em Washington, as pesquisas seguem mostrando uma direção clara: o “fator Trump” pode não ser suficiente para conter a crise do “Dark Horse” e as dúvidas sobre a seriedade de sua candidatura. A frase do ex-estrategista da Casa Branca, Steve Bannon, ao Financial Times parece irônica diante do quadro: “Se você está no Brasil e ouve falar que estão fazendo um filme sobre o seu ex-presidente, com uma grande estrela de Hollywood no elenco, isso multiplica o investimento em termos de alcance”. Para a pré-campanha de Flávio, no entanto, o que se multiplicou foi o escândalo.
Com informações de G1, CNN Brasil, BBC News Brasil, Folha de S.Paulo, Poder360, Metrópoles, Brasil de Fato, Financial Times, Reuters, Bloomberg, RFI, The Hill, Al Jazeera, Gazeta do Povo, Veja, Congresso em Foco, Notícias ao Minuto, The Intercept Brasil, Brasil 247, A Pública ■