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Dark Horse, o cavalo-paraguaio
Cinebiografia de Jair Bolsonaro, financiada com dinheiro desviado do Banco Master, sintetiza décadas de mentira institucional — enquanto seus atores principais enfrentam risco de prisão real nos Estados Unidos
Artigo
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■   Bernardo Cahue, 22/05/2026

Na gíria política brasileira, cavalo-paraguaio é aquele candidato que arranca na frente, favorito, imbatível — até que se descobre que a liderança não passa de uma ficção, um blefe alimentado por pesquisas falsas e cortinas de fumaça. A expressão, que tem origem no turfe e também no futebol, serve hoje como metáfora perfeita para a trajetória da família Bolsonaro: por duas décadas, eles se venderam como uma solução hercúlea para os males do país, mas por trás da capa de super-homem havia apenas um amontoado de fake news, pílulas milagrosas de eficácia zero, uma facada com versões contraditórias, uma canonização artificial e, finalmente, um filme sobre o ex-presidente cujo orçamento faraônico de R$ 134 milhões — três vezes o custo de Ainda Estou Aqui — foi bancado com dinheiro público desviado do Banco Master, agora sob bloqueio da Justiça americana. O “cavalo” bolsonarista, que prometia ordem e progresso, revelou-se um potro manco, cujos cascos estão atolados na lama da lavagem de dinheiro. E os atores de Hollywood que toparam participar da farsa — Jim Caviezel, Lynn Collins e Tank Jones — podem acabar atrás das grades nos Estados Unidos, vítimas de um roteiro que confundiu blockbuster com crime organizado.

A arte do engodo: do Laboratório de Pílulas Falsas à cinebiografia de R$ 134 milhões

O bolsonarismo sempre teve um talento especial para o placebo. Durante a pandemia, o então presidente transformou o Alvorada em uma espécie de laboratório de pílulas falsas: a cloroquina e a ivermectina foram promovidas como curas milagrosas contra a covid-19, sem qualquer respaldo científico, enquanto o Brasil amargava uma das maiores taxas de mortalidade do mundo. As famosas “pílulas milagrosas” não passavam de engodos — a cloroquina, um medicamento para malária e lúpus, foi testada em larga escala e se mostrou ineficaz contra o coronavírus, mas serviu perfeitamente como totem de uma política de negação da ciência. O mesmo método foi aplicado à política econômica (o tal “orçamento secreto”), à diplomacia (a falsa carta de Trump sobre a facada) e, mais recentemente, à indústria cultural: o filme Dark Horse foi vendido como um épico heroico da direita radical, mas seu orçamento exorbitante cheira a placebo lavado no exterior. Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil questionam como um longa estrelado por Jim Caviezel — ator que, fora A Paixão de Cristo, acumula projetos de baixo orçamento — poderia justificar R$ 134 milhões, valor superior ao de superproduções de Hollywood de médio porte. A resposta, como se viu, é que o dinheiro não era para o filme: era uma cortina de fumaça para transferir R$ 61 milhões (e possivelmente mais) para o fundo Havengate Development Fund LP, sediado no Texas e gerido por aliados de Eduardo Bolsonaro.

Facada fake: quando a mentira vira cena de cinema

Em 6 de setembro de 2018, Jair Bolsonaro foi esfaqueado durante um comício em Juiz de Fora. O atentado real serviu, paradoxalmente, como base para uma das maiores construções de ficção política do país. Nos anos seguintes, a narrativa da facada foi manipulada: surgiram teorias de que o agressor, Adélio Bispo, teria ligações com o PT ou com o STF — versões jamais comprovadas e constantemente desmentidas pela Polícia Federal, que sempre apontou Adélio como um desequilibrado agindo sozinho. A facada virou símbolo de martírio, mas também virou cena de cinema. Na cinebiografia Dark Horse, Jim Caviezel gravou a reconstituição do atentado sob forte esquema de segurança. O curioso é que o próprio ator, que interpreta Bolsonaro, teria demonstrado medo real de levar uma facada de verdade durante a filmagem. De acordo com relatos obtidos pelo jornal O Globo e publicados pela Rolling Stone Brasil, Caviezel exigiu revistas constantes no set, celulares proibidos, controle de acesso com reconhecimento facial e chegou a antecipar sua saída do Brasil, deixando cenas finais sendo concluídas por dublês. A ironia é quase shakespeariana: o ator que vive um político famoso por desconfiar do mundo real teve tanto medo de ser esfaqueado de verdade que transformou o set em uma fortaleza — enquanto o político real, anos antes, transformou uma facada real em uma narrativa falsa sobre perseguição. A facada fake, afinal, sempre foi uma das marcas registradas do bolsonarismo: um evento traumático real, hiper-explorado como prova de uma suposta “guerra cultural”, cujos detalhes foram sendo reescritos conforme a conveniência política.

Canonização falsa: o santo que nunca foi

Durante o governo Bolsonaro, proliferaram os movimentos para transformar o ex-capitão em uma espécie de santo laico: camisetas com sua imagem estampada lado a lado com Jesus Cristo, cultos evangélicos onde pastores declaravam que ele era “ungido por Deus”, e até mesmo a tentativa de transformar o 7 de setembro em um evento quase litúrgico. A canonização artificial, porém, nunca contou com o aval formal da Igreja Católica ou de qualquer instituição religiosa de peso — era uma devoção de palanque, uma maneira de blindar o político de críticas associando-o ao sagrado. Agora, com o ex-presidente em prisão domiciliar por tentativa de golpe de Estado, essa aura mágica se desfez. E o filme Dark Horse, que deveria ser a peça de coroação desse culto à personalidade, tornou-se o atestado de óbito da canonização falsa. Produzido com verba de um banco fraudulento, dirigido por um cineasta de TV e estrelado por um ator fundamentalista ligado ao QAnon, o longa expõe a fragilidade de um messianismo que, na hora do vamos ver, se sustenta apenas com dinheiro roubado e teorias conspiratórias.

O risco de prisão verdadeiro — para os atores de Hollywood

Enquanto as instituições brasileiras e americanas avançam sobre o esquema do Banco Master, os artistas que participaram de Dark Horse têm motivos de sobra para se preocupar. O juiz Scott Grossman, da Corte de Falências do Distrito Sul da Flórida, reconheceu a liquidação do banco nos EUA e autorizou o bloqueio de todos os ativos da instituição em território americano, incluindo os cachês milionários pagos a Jim Caviezel, Lynn Collins e Tank Jones. A Polícia Federal e o FBI investigam se os atores tinham conhecimento da origem ilícita do dinheiro — que veio do desvio de recursos públicos e de fraudes bilionárias no Brasil. Flávio Bolsonaro, em áudios divulgados pelo The Intercept Brasil, pressionava Vorcaro com a seguinte frase: “Imagina a gente dando calote num Jim Caviezel, renomadíssimo lá no cinema americano”. A fala sugere que o senador sabia que Caviezel era um peça-chave no esquema e que o pagamento não podia falhar. Se comprovado que os atores receberam os valores com consciência da natureza criminosa do financiamento, eles podem responder nos Estados Unidos por receptação de propriedade roubada e lavagem de dinheiro — crimes que preveem penas de até 20 anos de prisão. Lynn Collins e Tank Jones, que tiveram papéis menores, podem tentar alegar falta de conhecimento, mas o simples fato de terem assinado contratos com empresas investigadas (a produtora Go Up Entertainment e o fundo Havengate) já os coloca sob a mira da Justiça.

Cavalo-paraguaio: a síntese de um legado de mentiras

A expressão “cavalo paraguaio” também é usada para descrever produtos contrabandeados do Paraguai que invadem o mercado brasileiro sem pagar impostos — uma alusão ao que há de mais rasteiro no comércio ilegal. Não é coincidência. O bolsonarismo sempre flertou com o contrabando de narrativas: pegou uma facada questionável e a transformou em arma política; pegou remédios ineficazes e os vendeu como solução para uma pandemia; pegou um político de carreira controversa e tentou canonizá-lo à força. Agora, pegou um roteiro medíocre e o revestiu de milhões de reais desviados, tentando fazer dele um marco cultural. Mas a verdade é que, assim como os caminhões-tratores furtados e levados para o Paraguai na Operação Cavalo Paraguaio da Polícia Civil de Santa Catarina, o filme Dark Horse é um produto de origem fraudulenta que tentou cruzar a fronteira da legitimidade sem pagar o pedágio da honestidade. Agora está retido, sob investigação, e seus condutores podem responder criminalmente dos dois lados da fronteira.

O legado dos Bolsonaro, nesse sentido, não é o de grandes realizações — é o de uma sucessão de placebos, armadilhas e fraudes. Pílulas falsas, facada fake, canonização falsa e, agora, um filme falso financiado com dinheiro verdadeiramente roubado. O “cavalo-paraguaio” da política brasileira finalmente foi desmascarado: não era um herói, era um contrabandista de mentiras. E os atores de Hollywood que aceitaram participar da montaria podem em breve conhecer, em primeira mão, o significado real da palavra “prisão”.

Com informações de Agência Brasil, Agência Lupa, Aos Fatos, APuB, BBC News Brasil, CBN, CNN Brasil, Conjur, Correio Braziliense, Diário do Centro do Mundo, Estadão, Folha de S.Paulo, G1, Intercept Brasil, Metrópoles, O Globo, O Sul, Pensar Piauí, Plantaão Brasil, Poder360, Reuters, Revista Fórum, Rolling Stone Brasil, The Intercept Brasil, Times Brasil | CNBC, UOL, Valor Econômico, Veja ■

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