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Perda de florestas tropicais cai 36% em 2025; Brasil lidera redução
Queda recorde após ano catastrófico esbarra em destruição ainda elevada e ameaça do fogo; países seguem 70% acima do necessário para honrar compromisso de 2030
America do Sul
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■   Bernardo Cahue, 10/05/2026

O mundo perdeu 4,3 milhões de hectares de florestas tropicais primárias em 2025, uma redução de 36% em relação ao recorde catastrófico do ano anterior, quando 6,7 milhões de hectares foram devastados. Pesquisadores do World Resources Institute (WRI) e da Universidade de Maryland apontam que grande parte desse desempenho se deve ao Brasil, que reduziu a perda florestal primária em 42% — o índice mais baixo desde o início da série histórica, em 2001.

“O progresso do Brasil mostra o que é possível quando a proteção das florestas é tratada como uma prioridade nacional”, declarou Mirela Sandrini, diretora-executiva do WRI Brasil. O país perdeu 1,63 milhão de hectares em 2025, área equivalente a 2,8 vezes o território do Distrito Federal. Estados como Amazonas, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Acre e Roraima lideraram a queda — juntos, responderam por mais de 40% da redução observada. Maranhão foi a única unidade da federação onde a perda aumentou.

A retomada de políticas públicas de comando e controle foi decisiva. O governo federal relançou o Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento, que coordena ações de 19 agências, e ampliou em 81% os autos de infração e em 63% o valor de multas entre 2023 e 2025. A criação do fundo Tropical Forests Forever Facility (TFFF), que pretende captar até US$ 125 bilhões para remunerar países que mantêm suas florestas conservadas, também foi citada como iniciativa alinhada às expectativas globais.

A diretora do programa Global Forest Watch, Elizabeth Goldman, explicou que as quedas mais acentuadas ocorreram em perdas não associadas a incêndios: “O Brasil reduziu as perdas não relacionadas a fogo em 41% na comparação com 2024, atingindo o nível mais baixo desde 2001.” Com exceção da Caatinga, que registrou alta de 9%, todos os biomas brasileiros apresentaram melhora — inclusive o Pantanal, que se destacou positivamente.

O êxito brasileiro, contudo, não pode obscurecer desafios estruturais. A expansão agrícola — sobretudo soja e pecuária — responde por 73% da perda florestal no país nas últimas duas décadas, segundo o estudo. O programa de monitoramento Prodes, do Inpe, registrou que o desmatamento na Amazônia Legal caiu 17,4% em 2025, para 5.013 km², menor nível da série histórica iniciada em 2008, enquanto o Cerrado — agora o bioma mais devastado do país — perdeu 7.235 km², uma redução de 11,4%.

No cenário internacional, outros países também apresentaram avanços. A Colômbia reduziu suas perdas em 17%, atingindo uma das menores taxas de destruição dos últimos anos. A Malásia mostrou sinais de estabilização, e a Indonésia, embora tenha registrado aumento, mantém índices bem abaixo dos patamares de uma década atrás, com a manutenção de políticas de longo prazo contra o avanço do plantio de dendezeiros. Por outro lado, a situação se deteriorou na Bolívia, na República Democrática do Congo e em Madagascar, onde o desmatamento por agricultura de subsistência e conversão para pastagens continua em alta. A Indonésia também assistiu a uma alta de 66% na perda florestal em 2025, impulsionada por programa governamental de autossuficiência alimentar que estimulou a abertura de novas áreas agrícolas.

Apesar da trégua, especialistas fazem coro em um alerta: o ritmo atual de destruição ainda está muito acima do necessário para que o mundo cumpra o compromisso assumido por mais de 140 países na COP26, em Glasgow, de “deter e reverter” a perda florestal até 2030. Atualmente, os países desmatam 70% mais do que o permitido para honrar essa promessa. “Alcançar essa meta nos próximos anos não será fácil”, afirmou Elizabeth Goldman em entrevista à Reuters.

O fogo se consolida como a principal ameaça ao frágil progresso. Em 2025, incêndios foram responsáveis por 42% da perda de cobertura arbórea global, e queimaram mais que o dobro de área em relação a duas décadas atrás. O Canadá viveu sua segunda pior temporada de queimadas já registrada, com 5,3 milhões de hectares consumidos, evidenciando que o problema não se restringe aos trópicos. Nos trópicos, a vegetação mais seca, potencializada pelo aquecimento global, converte pequenos focos de incêndios criminosos em grandes catástrofes. “O clima e a limpeza da terra encurtaram o pavio dos incêndios florestais globais”, resumiu o professor Matt Hansen, da Universidade de Maryland.

Para além das queimadas, outro fator estrutural preocupa: a perda de resiliência das próprias florestas, que podem estar se aproximando de um ponto de inflexão. “Estamos sobre a ponta de uma faca. Secas e incêndios intensos estão transformando ecossistemas que eram sumidouros de carbono em fontes líquidas de emissões de gases de efeito estufa”, afirmou Rod Taylor, diretor global de florestas do WRI. O instituto publicou, ainda em 2025, um estudo demonstrando que as florestas do mundo estão absorvendo apenas um quarto do carbono que absorviam no passado, e algumas regiões já viraram fonte emissora.

O ano de 2026 adiciona mais um componente de incerteza: a chegada de um novo El Niño, que tende a elevar temperaturas e prolongar a estação seca, ampliando o risco de incêndios e podendo reverter rapidamente os ganhos de 2025. A combinação de crise climática com desmatamento cria um ciclo vicioso que dificulta a recuperação das florestas. “As florestas são bem equipadas para lidar com o clima normal. Mas com esses novos incêndios intensos, secas severas e calor extremo, precisamos repensar como torná-las mais resilientes”, concluiu Rod Taylor.

Embora os números de 2025 inspirem cauteloso otimismo — a menor área desmatada em uma década em termos globais — a trajetória ainda é insuficiente. A cada minuto, uma área equivalente a mais de 11 campos de futebol deixa de existir nos trópicos. E a janela para cumprir a promessa de 2030 continua a se fechar.

Com informações de Agência Brasil, UOL, BBC News, The New York Times, Reuters, US News, Sharjah24, News of Bahrain, WRI Brasil, GFR Platform, Jovem Pan, Mongabay, Climainfo, Mirror Pakistan, Taiwan News, Isenlin.cn ■

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