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Nos últimos dias, a imprensa política brasileira foi tomada por uma especulação que, à primeira vista, parece um delírio de roteiro de novela: uma suposta aliança entre o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes e o clã Bolsonaro – capitaneado por Flávio Bolsonaro – para enfraquecer o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A narrativa ganhou força a partir de uma coluna da jornalista Malu Gaspar, publicada no Jornal O Globo, que revelou bastidores da derrota histórica do indicado de Lula ao Supremo, o advogado-geral da União Jorge Messias. No entanto, uma análise mais detida dos fatos e do histórico do magistrado mostra que essa leitura é, no mínimo, apressada e alimenta um viés oportunista que tenta, de forma desesperada, “puxar para a direita” a figura de Alexandre de Moraes, cuja trajetória no STF é marcada por confrontos diretos com o núcleo duro do bolsonarismo e pela aplicação rigorosa da lei contra os atos golpistas.
O episódio da rejeição de Jorge Messias: uma derrota articulada em múltiplas frentes
A rejeição da indicação de Jorge Messias ao STF foi um terremoto político. No dia 29 de abril de 2026, o Senado Federal, por 42 votos a 34, derrubou o nome do advogado-geral da União, impondo ao governo Lula a primeira derrota desse tipo desde 1894, quando o marechal Floriano Peixoto viu cinco indicados serem recusados. De acordo com a apuração de Malu Gaspar, a articulação que levou ao chumbo teve três pilares: o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP); o pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ); e, surpreendentemente, o próprio Alexandre de Moraes.
A coluna revela que Moraes “se engajou para reforçar os pedidos de Alcolumbre na campanha pelos votos ‘não’, acionando emissários para mandar recados a senadores que tinham processos no Supremo”. O ministro via a eventual nomeação de Messias como um revés para si, pois o novo ministro – apoiado por seu colega André Mendonça – poderia desequilibrar a correlação de forças internas da Corte. Nesse contexto, formou-se uma “insólita aliança, com o relator do inquérito das fake news e da trama golpista do mesmo lado da tropa de choque bolsonarista no Senado”.
O histórico de condenações de Moraes à cúpula golpista: um antídoto contra qualquer aproximação com Bolsonaro
Se os bastidores da rejeição de Messias aproximaram Moraes e Flávio Bolsonaro em um objetivo tático imediato, o histórico do ministro no comando das investigações sobre o 8 de janeiro de 2023 e a trama golpista mostra um abismo intransponível entre os dois lados. Desde que assumiu a relatoria do Inquérito das Fake News e, posteriormente, da ação penal sobre a tentativa de golpe, Alexandre de Moraes tem atuado com mão de ferro contra os principais articuladores dos ataques à democracia – a maioria oriunda do núcleo duro do bolsonarismo.
Apenas para ilustrar a dureza de sua atuação: em novembro de 2025, Moraes votou pela condenação de cinco dos sete oficiais da cúpula da Polícia Militar do Distrito Federal, propondo pena de 16 anos de prisão para cada um por omissão dolosa nos ataques de 8 de janeiro. Em março de 2026, ele determinou a prisão desses condenados, que foram enviados para a Papudinha, mesma unidade onde está preso o ex-presidente Jair Bolsonaro. Mais do que isso: o ex-presidente responde a uma ação penal por tentativa de golpe de Estado, tendo sido preso por decisão de Moraes e podendo ser condenado a mais de 40 anos de reclusão.
Ou seja, enquanto especulações apressadas tentam aproximar Moraes do bolsonarismo, o magistrado é justamente o responsável por desmontar, peça por peça, a engrenagem que tentou subverter o Estado Democrático de Direito. Sua postura, ao lado de ministros como Flávio Dino, tem sido a de garantir que a Constituição prevaleça, mesmo sob ataques sistemáticos. Na mesma semana em que a coluna de Malu Gaspar foi publicada, Dino declarou publicamente que o STF é “insubstituível na função de proteção dos direitos dos cidadãos” e elogiou a condução dos processos sobre a trama golpista por Moraes, a quem chamou de imprescindível. Essa convergência entre Moraes e Dino, ambos indicados por presidentes de diferentes espectros ideológicos, demonstra que o fio condutor de suas atuações não é a aliança partidária, mas a defesa intransigente dos ritos democráticos e o combate a qualquer aventura autoritária.
A origem da nomeação: do centro-direita de Michel Temer à consolidação de um juiz democrata
É fundamental lembrar que Alexandre de Moraes não foi indicado ao STF por Lula ou por qualquer nome ligado à esquerda. Ele foi nomeado em 2017 pelo então presidente Michel Temer (MDB), que o escolheu para a vaga aberta pela morte do ministro Teori Zavascki. À época, sua indicação foi vista com desconfiança pelo PT, que o considerava um nome da centro?direita paulista. Contudo, o que se viu ao longo dos nove anos de atuação na Corte foi a construção de uma postura institucional de respeito ao devido processo legal, às liberdades civis e, sobretudo, ao resultado das urnas. Moraes, que já foi duramente criticado por medidas consideradas excessivas no âmbito do Inquérito das Fake News, também tem decisões que ampliam garantias individuais e que reafirmam a separação dos Poderes. O que o une a Flávio Dino – que, aliás, foi sabatinado e aprovado pelo Senado sem maiores traumas – não é a agenda política, mas a percepção de que a estabilidade democrática depende de um Judiciário forte, independente e que não se curve a pressões de qualquer natureza.
O desespero da direita ao tentar cooptar a imagem de Moraes
Nesse cenário, a narrativa de uma “aliança improvável” entre Moraes e os Bolsonaro funciona como uma tentativa desesperada da direita de sugar para si a popularidade – ou ao menos a onipresença midiática – do ministro. Pesquisa Datafolha divulgada em abril de 2026 mostra que Alexandre de Moraes é, de longe, o ministro do STF mais conhecido do país: 89% da população sabe quem ele é. Ao mesmo tempo, porém, sua avaliação negativa também é a mais alta: 41% dos entrevistados consideram sua atuação ruim ou péssima. Longe de ser uma figura consensual ou de carregar uma popularidade robusta, Moraes é um nome polarizador, que desperta reações intensas tanto pela sua defesa intransigente da democracia quanto por suas decisões açodadas. Tentar associá-lo ao bolsonarismo é, em última análise, um movimento de marketing político que ignora a realidade: a força de Moraes vem justamente do confronto com os extremos, e não da capitulação a eles.
Portanto, a especulação sobre um suposto “Moraes bolsonarista” não resiste a um exame minimamente criterioso dos fatos. O que houve na rejeição de Jorge Messias foi uma confluência temporária de interesses divergentes em um jogo de xadrez de bastidores – algo comum no Parlamento. Mas transformar essa jogada específica em uma aliança estrutural é falsear a realidade. Alexandre de Moraes, que já foi indicado por Michel Temer e que hoje é um dos mais ferrenhos opositores da tentativa de golpe, continua muito mais próximo de Flávio Dino do que de qualquer membro da família Bolsonaro. E a insistência em forçar essa aproximação diz mais sobre o desespero da direita em encontrar um novo ídolo popular do que sobre a coerente – ainda que controversa – atuação do ministro.
Com informações de O Globo, Agência Senado, CNN Brasil, G1, Folha de S.Paulo, BBC News Brasil, Migalhas, Agência Brasil, Poder360, Valor Econômico, O Sul e Veja.■