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Ordem econômica mundial vive novo ponto de interrogação
Saída os Emirados Árabes da OPEP se mostra como um duro golpe para a Arábia Saudita e um reforço às políticas de embate da gestão Trump contra a organização, ao mesmo tempo em que pode acelerar a desdolarização do petróleo com a medida adotada por um país parceiro dos BRICS
Analise
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■   Bernardo Cahue, 29/04/2026

A saída dos Emirados Árabes Unidos (EAU) da OPEP em 28 de abril de 2026 é interpretada pela imprensa ocidental como um ponto de inflexão na geopolítica do petróleo, alimentando especulações sobre uma nova ordem mundial. Ao mesmo tempo em que alguns analistas avaliam que a medida reforça o confronto do presidente Donald Trump com a Organização e, portanto, poderia consolidar o sistema do petrodólar, outros veem na decisão um movimento que acelera a desdolarização do comércio energético, especialmente por causa da adesão dos Emirados ao BRICS desde 2024 e de seu crescente alinhamento com iniciativas de liquidação em moedas alternativas.

A decisão emiratina, informada oficialmente pela agência WAM e confirmada pelo ministro da Energia Suhail Mohamed al-Mazrouei ao jornal Financial Times, foi baseada numa “revisão da capacidade presente e futura” do país, após investimentos que elevaram sua produção potencial para cerca de 5 milhões de barris por dia. A imprensa norte-americana e europeia reage com tons ambivalentes. Por um lado, veículos como CNN e BBC destacam a libertação dos EAU das cotas impostas pelo cártel, uma vitória para Trump, que por anos acusou a OPEP de “explorar o resto do mundo”. Por outro, há a compreensão de que a saída “dinamita” o cartel, reduzindo a aliança a 11 membros e eliminando um de seus mais disciplinados produtores, conforme citado por Saul Kavonic à BBC.

Além disso, a imprensa europeia aponta que a medida complica ainda mais a influência da Arábia Saudita, acelerando uma fragmentação que já havia começado com as saídas de Equador, Angola e Catar. Em editorial, o El País afirma que a decisão dos EAU é uma “fratura colossal” no coração do golfo, potencializando “a pujança dos países de fora do cartel, com Estados Unidos, Canadá, Brasil ou Guiana à frente”.

Contudo, o que a maioria das análises ocidentais não aprofunda é o fato de que os EAU nunca precisaram se submeter completamente à lógica do petrodólar. Como membro pleno do BRICS desde 1º de janeiro de 2024, Abu Dhabi integra um grupo de economias que juntas já responderam por mais de 35% do PIB global. O bloco tem avançado ativamente na criação de mecanismos para fugir da dependência do dólar – um processo que inclui o lançamento da moeda digital The Unit, lastreado em 40% ouro e 60% nas moedas dos próprios países do bloco.

Na verdade, desde antes da retirada, os EAU já vinham intensificando a venda de petróleo em iuanes por meio da Bolsa de Petróleo e Gás Natural de Xangai. De acordo com a African News Agency, “grandes exportadores como os EAU e a Rússia podem agora transacionar em iuanes por essa plataforma, evitando completamente o dólar”. O assessoramento do Deutsche Bank ao mercado, já em março de 2026, previa que a guerra contra o Irã poderia funcionar como um catalisador para o início de um sistema de “petroyuan” e o declínio final do sistema petrodólar.

O reposicionamento dos Emirados é favorecido também por sua base religiosa e étnica. A nação, de maioria muçulmana e defensora histórica dos “descendentes ismaelitas” (uma posição comum também entre as lideranças sauditas), mantém uma política externa independente. Mesmo diante do conflito no Iêmen e da aproximação com Israel após os Acordos de Abraão, os EAU não se alinharam cegamente a Riad. Essa autonomia foi crucial: durante os ataques iranianos no início da guerra, Abu Dhabi criticou abertamente as omissões dos aliados árabes, o que catalisou sua ruptura final com a OPEP.

Nesse contexto, ainda que a imprensa norte-americana interprete a saída como uma extensão da “política de embate” trumpista – e, portanto, um sinal de fortalecimento do dólar – a realidade do sistema financeiro global mostra mais nuance. Como reportou a WION, “as perguntas se multiplicam sobre o futuro da dominância do petrodólar, ao passo que os BRICS se aproximam da criação de um novo sistema global de pagamentos destinado a reduzir a dependência da moeda americana”.

Assim, o episódio pode representar não o fortalecimento do petrodólar, mas sim um momento de transição em que a moeda americana perderá o monopólio dos contratos energéticos de longo prazo, cedendo espaço a um sistema multipolar, lastreado em contratos de iuane e em mecanismos de compensação bilaterais. Os EAU, ao saírem da OPEP, não apenas buscam maximizar sua capacidade instalada, mas também sinalizam ao mundo que a nova ordem mundial será pavimentada em múltiplas moedas, com os países do Sul Global no comando.

Contexto e detalhes adicionais:

  • Capacidade de produção e independência: A saída da OPEP permite que os EAU aumentem sua produção de petróleo dos atuais 3,4 milhões de barris por dia para cerca de 5 milhões, um potencial que o país vinha sendo impedido de explorar devido às cotas do cartel.
  • Estratégia financeira do BRICS: O bloco já vinha discutindo desde 2025 a interoperabilidade de moedas digitais (CBDCs) e a implementação de um sistema de pagamentos próprio, inspirado no PIX brasileiro, como alternativa ao dólar e ao sistema SWIFT.
  • Petroyuan em prática: Desde o início da guerra no Irã, Teerã cobrou pedágios em iuanes para a travessia de navios pelo Estreito de Ormuz. Ao menos 11,7 milhões de barris de petróleo já foram exportados diretamente para a China nesse esquema, sem conversão para dólares.
  • Diversificação e autonomia: A economia dos Emirados é a mais diversificada do golfo; sua saída busca não apenas maior volume de exportação, mas também destravar acordos comerciais diretos em moedas locais com Índia, China e Rússia.

Implicações geopolíticas e monetárias:

  1. Enfraquecimento da hegemonia saudita: Com a retirada, a Arábia Saudita perde seu principal aliado na manutenção das cotas de produção, abrindo espaço para uma eventual guerra de preços que comprometeria a estabilidade do petrodólar.
  2. Avanço do BRICS como contrapeso financeiro: A entrada dos EAU no bloco potencializa as negociações para a criação de uma moeda de referência própria, desvinculada do dólar, o que poderia ser apresentado oficialmente na cúpula do grupo em 2026 sob presidência da Índia.
  3. Flexibilização do alinhamento ocidental: Apesar da vitória retórica de Trump, os EAU continuam investindo em parcerias com a China, de quem receberam sistemas de defesa aérea e ajuda tecnológica, e mantêm estreitos laços financeiros com Moscou, usando o yuan como moeda-ponte.
  4. Redefinição do mercado global de petróleo: Com os EAU livres das cotas, espera-se que, após a reabertura do Estreito de Ormuz, o país despeje até 1,5 milhão de barris adicionais no mercado, pressionando os preços para baixo e forçando uma reconfiguração das estratégias de precificação da Arábia Saudita.
  5. Fim da "era do petrodólar": A soma da saída dos EAU da OPEP, do avanço do BRICS na desdolarização e do estabelecimento do petroyuan pelas nações BRICS+ aponta para o fim gradual do sistema que reinou desde o acordo EUA-Arábia Saudita de 1974, abrindo espaço para um mercado energético baseado em múltiplas moedas.

Com informações de CNN, BBC, El País, France 24, Middle East Eye, Washington Examiner, Indian Express, Financial Times, Reuters, Bloomberg, TASS, Deutsche Bank, African News Agency, WION, TV BRICS, e Forúm Brasileiro do BRICS

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