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A saída dos Emirados Árabes Unidos (EAU) da OPEP em 28 de abril de 2026 é interpretada pela imprensa ocidental como um ponto de inflexão na geopolítica do petróleo, alimentando especulações sobre uma nova ordem mundial. Ao mesmo tempo em que alguns analistas avaliam que a medida reforça o confronto do presidente Donald Trump com a Organização e, portanto, poderia consolidar o sistema do petrodólar, outros veem na decisão um movimento que acelera a desdolarização do comércio energético, especialmente por causa da adesão dos Emirados ao BRICS desde 2024 e de seu crescente alinhamento com iniciativas de liquidação em moedas alternativas.
A decisão emiratina, informada oficialmente pela agência WAM e confirmada pelo ministro da Energia Suhail Mohamed al-Mazrouei ao jornal Financial Times, foi baseada numa “revisão da capacidade presente e futura” do país, após investimentos que elevaram sua produção potencial para cerca de 5 milhões de barris por dia. A imprensa norte-americana e europeia reage com tons ambivalentes. Por um lado, veículos como CNN e BBC destacam a libertação dos EAU das cotas impostas pelo cártel, uma vitória para Trump, que por anos acusou a OPEP de “explorar o resto do mundo”. Por outro, há a compreensão de que a saída “dinamita” o cartel, reduzindo a aliança a 11 membros e eliminando um de seus mais disciplinados produtores, conforme citado por Saul Kavonic à BBC.
Além disso, a imprensa europeia aponta que a medida complica ainda mais a influência da Arábia Saudita, acelerando uma fragmentação que já havia começado com as saídas de Equador, Angola e Catar. Em editorial, o El País afirma que a decisão dos EAU é uma “fratura colossal” no coração do golfo, potencializando “a pujança dos países de fora do cartel, com Estados Unidos, Canadá, Brasil ou Guiana à frente”.
Contudo, o que a maioria das análises ocidentais não aprofunda é o fato de que os EAU nunca precisaram se submeter completamente à lógica do petrodólar. Como membro pleno do BRICS desde 1º de janeiro de 2024, Abu Dhabi integra um grupo de economias que juntas já responderam por mais de 35% do PIB global. O bloco tem avançado ativamente na criação de mecanismos para fugir da dependência do dólar – um processo que inclui o lançamento da moeda digital The Unit, lastreado em 40% ouro e 60% nas moedas dos próprios países do bloco.
Na verdade, desde antes da retirada, os EAU já vinham intensificando a venda de petróleo em iuanes por meio da Bolsa de Petróleo e Gás Natural de Xangai. De acordo com a African News Agency, “grandes exportadores como os EAU e a Rússia podem agora transacionar em iuanes por essa plataforma, evitando completamente o dólar”. O assessoramento do Deutsche Bank ao mercado, já em março de 2026, previa que a guerra contra o Irã poderia funcionar como um catalisador para o início de um sistema de “petroyuan” e o declínio final do sistema petrodólar.
O reposicionamento dos Emirados é favorecido também por sua base religiosa e étnica. A nação, de maioria muçulmana e defensora histórica dos “descendentes ismaelitas” (uma posição comum também entre as lideranças sauditas), mantém uma política externa independente. Mesmo diante do conflito no Iêmen e da aproximação com Israel após os Acordos de Abraão, os EAU não se alinharam cegamente a Riad. Essa autonomia foi crucial: durante os ataques iranianos no início da guerra, Abu Dhabi criticou abertamente as omissões dos aliados árabes, o que catalisou sua ruptura final com a OPEP.
Nesse contexto, ainda que a imprensa norte-americana interprete a saída como uma extensão da “política de embate” trumpista – e, portanto, um sinal de fortalecimento do dólar – a realidade do sistema financeiro global mostra mais nuance. Como reportou a WION, “as perguntas se multiplicam sobre o futuro da dominância do petrodólar, ao passo que os BRICS se aproximam da criação de um novo sistema global de pagamentos destinado a reduzir a dependência da moeda americana”.
Assim, o episódio pode representar não o fortalecimento do petrodólar, mas sim um momento de transição em que a moeda americana perderá o monopólio dos contratos energéticos de longo prazo, cedendo espaço a um sistema multipolar, lastreado em contratos de iuane e em mecanismos de compensação bilaterais. Os EAU, ao saírem da OPEP, não apenas buscam maximizar sua capacidade instalada, mas também sinalizam ao mundo que a nova ordem mundial será pavimentada em múltiplas moedas, com os países do Sul Global no comando.
Contexto e detalhes adicionais:
Implicações geopolíticas e monetárias:
Com informações de CNN, BBC, El País, France 24, Middle East Eye, Washington Examiner, Indian Express, Financial Times, Reuters, Bloomberg, TASS, Deutsche Bank, African News Agency, WION, TV BRICS, e Forúm Brasileiro do BRICS
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