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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, provocou uma crise diplomática nesta quinta-feira (23) ao compartilhar em sua plataforma Truth Social um post do comentarista conservador Michael Savage que se refere à Índia como um "inferno" ("hellhole") e descreve indianos e chineses como "gangsters com laptops" que teriam causado mais danos aos EUA "do que todas as famílias da máfia juntas". A publicação desencadeou uma forte resposta do governo indiano, que classificou as declarações como "obviamente desinformadas, inadequadas e de mau gosto".
O conteúdo compartilhado por Trump é uma transcrição do podcast "Savage Nation", no qual Savage critica a política de cidadania por direito de nascença nos Estados Unidos. "Um bebê aqui se torna um cidadão instantâneo, e então eles trazem toda a família da China, da Índia ou de algum outro inferno do planeta", diz um trecho. O comentarista também afirmou que "o inglês não é mais falado aqui" e que "quase não há lealdade a este país entre a classe imigrante que chega hoje".
A resposta do governo indiano foi articulada em duas etapas. Primeiro, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores (MEA), Randhir Jaiswal, limitou-se a dizer que o governo havia "visto alguns relatos" e que encerraria por ali seu comentário. Horas depois, diante da repercussão negativa,o ministério emitiu uma declaração mais contundente: "Os comentários são obviamente desinformados, inadequados e de mau gosto. Eles certamente não refletem a realidade da relação entre Índia e EUA, que sempre foi baseada em respeito mútuo e interesses compartilhados".
O episódio gerou reações imediatas da oposição indiana. A líder do partido Trinamool Congress, Mahua Moitra, usou a rede X para provocar o primeiro-ministro Narendra Modi: "Olá, @narendramodi ji, seu 'phraand' Trump acabou de chamar a Índia de 'buraco infernal' e todos os indianos de 'gangsters com laptops'... Você vai protestar ou vai ficar rindo até o próximo comício eleitoral?". O Partido do Congresso, principal força de oposição, também se manifestou: "O primeiro-ministro Narendra Modi deveria levar este assunto ao presidente dos EUA e registrar um forte protesto".
O consulado iraniano em Mumbai entrou na contenda com uma resposta irônica, sugerindo que Trump precisa de uma "desintoxicação cultural" e o convidando a visitar a Índia antes de fazer tais declarações. "Que tal reservar uma passagem só de ida para a desintoxicação cultural do sr. Trump? Pode ajudar a reduzir o 'bakwaas' aleatório. Venha à Índia conhecer, depois fale", postou o consulado. O consulado em Hyderabad reforçou a mensagem, destacando a riqueza cultural indiana e mencionando pratos como "bun maska, vada pav e pav bhaji que podem curar um dia ruim em três mordidas".
A administração Trump rapidamente tentou conter os danos. Horas após a polêmica, a embaixada dos EUA em Nova Déli emitiu uma declaração relembrando comentários anteriores do presidente sobre a Índia. "O presidente já disse que 'a Índia é um país grande, com um grande amigo meu no comando'", afirmou o porta-voz da embaixada, em referência a uma fala de Trump em outubro de 2025 durante a Cúpula da Paz de Gaza. A embaixada tentou reposicionar a narrativa, ressaltando a parceria entre as duas nações.
O episódio ocorre em um momento delicado nas relações bilaterais. As tensões comerciais entre os dois países aumentaram após Trump impor tarifas de 50% sobre produtos indianos no ano passado, sendo 25% delas como penalidade pela compra de petróleo russo pela Índia. As taxas foram reduzidas para 18% em fevereiro, no âmbito de um acordo comercial ainda em negociação. O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, tem visita agendada à Índia no próximo mês para tentar restabelecer o diálogo entre as duas potências.
Dados do governo indiano indicam que cerca de 5,5 milhões de pessoas de origem indiana vivem nos EUA, formando uma das maiores comunidades de imigrantes asiáticos no país. A comunidade indo-americana tem demonstrado preocupação com o aumento do discurso racial nas redes sociais. Segundo relatório da Carnegie Endowment de 2026, metade dos entrevistados afirmou ter encontrado postagens racistas contra indianos ou indo-americanos "com muita ou alguma frequência" desde o início de 2025.
Até o fechamento desta matéria, o primeiro-ministro Narendra Modi não havia feito qualquer declaração pública sobre o ocorrido. A Casa Branca também não se manifestou oficialmente sobre a controvérsia.
Com informações de G1, UOL, BBC News, Times of India, Hindustan Times, India Today, News18, Telegraph India, The Quint, AA.com.tr, The Guardian, The Indian Express ■