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Num desdobramento que expõe as fissuras na relação diplomática entre Brasil e Estados Unidos, o governo brasileiro aplicou o princípio da reciprocidade e determinou a saída do país de um agente do Serviço de Imigração e Controle de Aduanas dos Estados Unidos (ICE). A medida, anunciada pelo diretor?geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, foi uma resposta direta à expulsão sumária do delegado da PF Marcelo Ivo de Carvalho, que atuava em Miami e teve participação decisiva na prisão do ex?deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ). Além disso, um segundo funcionário norte?americano teve o acesso às dependências e bases de dados da Polícia Federal suspenso, embora, ao menos por ora, permaneça em território brasileiro.
O episódio remonta ao dia 13 de abril de 2026, quando Ramagem, foragido da Justiça brasileira e condenado a 16 anos de prisão por envolvimento na trama golpista de 2022, foi abordado por agentes do ICE em Orlando, na Flórida. A abordagem ocorreu após uma infração de trânsito; ao solicitarem os documentos pessoais, os agentes constataram que o visto do ex?deputado estava cancelado. Ele foi detido e permaneceu sob custódia por dois dias, sendo solto em 15 de abril sem que as razões da libertação fossem oficialmente divulgadas. Ramagem, que também já foi diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) durante o governo Bolsonaro, aguarda decisão sobre um pedido de asilo nos Estados Unidos.
Os fatos que desencadearam a crise diplomática
A tensão ganhou novos contornos na segunda?feira, 20 de abril, quando o Escritório para Assuntos do Hemisfério Ocidental do governo americano publicou em redes sociais que havia solicitado a saída do “funcionário brasileiro” que teria atuado para “manipular o sistema de imigração”. A autoridade citada é o delegado Marcelo Ivo de Carvalho, oficial de ligação da PF junto ao ICE em Miami. Na nota, os EUA afirmaram: “Nenhum estrangeiro pode manipular nosso sistema de imigração para contornar pedidos formais de extradição e estender perseguições políticas ao território dos Estados Unidos. Hoje, pedimos que o funcionário brasileiro em questão deixe o país por tentar fazer isso.”
Em resposta, o diretor?geral da PF, Andrei Rodrigues, declarou que Marcelo Ivo não foi formalmente expulso, mas que, ao ter o acesso ao sistema negado, ele próprio determinou o retorno do delegado ao Brasil. “Ao chegar ao trabalho, o policial brasileiro teve a credencial de acesso ao sistema negada. Portanto, entendi que seria mais prudente mandar ele voltar ao Brasil”, esclareceu Rodrigues, em entrevista à GloboNews.
Brasil anuncia reciprocidade e agente dos EUA deixa o país
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que na terça?feira (21 de abril) cumpria agenda na Alemanha, já havia sinalizado que o Brasil adotaria o princípio da reciprocidade. “Se houve um abuso americano com relação ao nosso policial, nós vamos fazer a reciprocidade com o deles no Brasil. Não tem conversa”, declarou Lula a jornalistas. “Nós queremos que as coisas aconteçam da forma mais correta possível, mas não podemos aceitar essa ingerência, esse abuso de autoridade que alguns personagens americanos querem ter com relação ao Brasil.”
No dia seguinte, 22 de abril, a decisão foi oficializada. Andrei Rodrigues confirmou a retirada das credenciais diplomáticas do agente do ICE que atuava na sede da Polícia Federal em Brasília, identificado como Michael William Myers. “O princípio da reciprocidade, como regra geral, rege as relações internacionais. E nós, policiais, temos um acordo com as agências. À medida em que uma agência retira as credenciais do meu policial, eu retiro as credenciais do norte?americano que está aqui. E faço isso com muito pesar, porque eu não gostaria que nada disso estivesse acontecendo”, disse Rodrigues.
Myers, que havia sido designado para Brasília em 2024 com a função de homólogo do delegado brasileiro na área de imigração, perdeu o acesso às instalações da PF e às bases de dados compartilhadas entre os dois países. Segundo fontes do governo americano, ele deixou o Brasil na quarta?feira (23 de abril), antes mesmo de uma eventual comunicação formal de expulsão.
Segundo funcionário tem acesso bloqueado
As medidas de reciprocidade não se limitaram a Myers. Um segundo funcionário do governo dos Estados Unidos, cuja identidade não foi revelada, também foi alvo de sanções. Ele teve o acesso às dependências da Polícia Federal suspenso e perdeu o direito de consultar bases de dados sigilosas, mas, diferentemente de Myers, não foi obrigado a deixar o Brasil — ao menos por enquanto. A informação foi publicada pelo jornal Valor Econômico e confirmada por Andrei Rodrigues à GloboNews: “Um teve temporariamente o acesso cortado à PF por mim. Outro teve o visto cancelado e determinado seu retorno aos Estados Unidos pelo MRE”, explicou o diretor?geral.
Itamaraty critica “falta de boa prática diplomática”
O Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty) também se manifestou oficialmente. Em nota divulgada na noite de 22 de abril, a pasta informou que a encarregada de negócios da embaixada dos EUA, Kimberly Kelly, foi convocada e recebeu a comunicação verbal sobre a aplicação da reciprocidade. O Itamaraty lamentou que a decisão americana “não observa a boa prática diplomática de diálogo entre nações amigas, como o Brasil e os Estados Unidos, ao longo de mais de 200 anos de relação” e que a expulsão do delegado brasileiro ocorreu “sem qualquer pedido de esclarecimento ou tentativa de diálogo”, em desacordo com o memorando bilateral que regula o intercâmbio de oficiais de ligação.
Lula elogia PF e sinaliza abertura ao diálogo
Apesar da escalada retaliatória, o presidente Lula fez questão de elogiar publicamente a atuação de Andrei Rodrigues. Em vídeo publicado nas redes sociais na quarta?feira (22 de abril), Lula afirmou: “Andrei, parabéns pela tua posição com relação ao delegado americano, colocando a reciprocidade. Ou seja, o que eles fizeram conosco a gente vai fazer com eles, esperando que eles estejam dispostos a voltar a conversar e as coisas voltarem à normalidade.”
Até o fechamento da matéria a Embaixada dos Estados Unidos no Brasil não havia designado um substituto para Michael Myers. A Polícia Federal, por sua vez, já indicou a delegada Tatiana Alves Torres para assumir a vaga deixada por Marcelo Ivo de Carvalho em Miami. As investigações sobre a participação do delegado brasileiro na prisão de Ramagem continuam sendo analisadas internamente pelas autoridades americanas, e o governo brasileiro aguarda esclarecimentos oficiais tanto sobre a soltura do ex?deputado quanto sobre os motivos que levaram ao cancelamento da permanência de seu oficial de ligação.
O princípio da reciprocidade, consagrado no direito internacional, foi invocado como o fundamento jurídico para a retaliação brasileira. A expectativa, expressa por Andrei Rodrigues e pelo próprio presidente Lula, é de que o episódio seja superado rapidamente e que a cooperação policial bilateral, considerada estratégica para o combate ao crime organizado e ao terrorismo, seja plenamente restabelecida.
Com informações de Agência Brasil, BBC News Brasil, G1, O Tempo, CNN Brasil, Folha de S.Paulo, UOL, Reuters, Veja, Deutsche Welle (DW), Band, Jornal O Sul, GaúchaZH e CartaCapital ■