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Irã expõe ao mundo o verdadeiro agressor no Oriente Médio
A advertência de Teerã ao mundo veio em menos de 24 horas
Analise
Foto: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/wp-content/uploads/2024/12/210505093600-benjamin-netanyahu.jpg
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■   Bernardo Cahue, 10/04/2026

Na noite de terça-feira (7), Estados Unidos e Irã anunciaram um cessar-fogo que, na prática, durou menos de 24 horas. Na quarta-feira (8), Israel lançou o que descreveu como seu maior bombardeio contra o Hezbollah desde o início da guerra terrestre, matando pelo menos 254 pessoas no Líbano em um único dia, segundo a defesa civil libanesa. O Irã reagiu na hora: o porta-voz do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) alertou que qualquer ataque ao Hezbollah é um ataque ao Irã e prometeu uma "resposta indutora de arrependimento" se as agressões não parassem imediatamente.

Horas depois, o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, afirmou que a incursão renovada de Israel no Líbano é "uma violação flagrante" e "um sinal perigoso de engano". O porta-voz do parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, foi mais direto: declarou que "o Líbano e todo o Eixo da Resistência, como aliados do Irã, formam uma parte inseparável do cessar-fogo" e que "as violações do cessar-fogo acarretam custos explícitos e respostas fortes".

O argumento iraniano não se perdeu no mundo. Líderes de 13 países europeus, Japão e Canadá emitiram uma declaração conjunta pedindo o fim imediato das hostilidades para "evitar uma grave crise energética global". O presidente francês, Emmanuel Macron, condenou "nos termos mais fortes possíveis" os ataques israelenses no Líbano e insistiu que o país "deve ser totalmente coberto" pelo cessar-fogo. A alta representante da União Europeia, Kaja Kallas, pediu publicamente que a trégua entre Irã e EUA se estendesse ao Líbano.

Enquanto isso, o premiê israelense, Benjamin Netanyahu, declarou que Israel continuará atacando o Hezbollah até que a segurança do norte esteja garantida, insistindo que "não há cessar-fogo no Líbano" e que a trégua com o Irã não cobre o país vizinho.

O governo israelense não apenas rejeitou o cessar-fogo no Líbano como, ao mesmo tempo, anunciou sua intenção de tomar o controle militar de uma faixa que se estende da fronteira até o rio Litani — equivalente a aproximadamente 10% do território libanês, cerca de 850 km², abrangendo 150 municípios e uma população deslocada de mais de 200 mil pessoas. O ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, foi enfático: "O princípio é claro: onde houver terrorismo e mísseis, não haverá casas nem residentes, e o Exército estará lá".

O plano, de acordo com o jornal Público, não é temporário: Katz afirmou que Israel controlará a região até depois das operações contra o Hezbollah, sem dar prazo para retirada, e que centenas de milhares de libaneses deslocados serão "completamente impedidos" de retornar. A agência Associated Press noticiou que Israel destruirá todas as casas nas aldeias libanesas próximas à fronteira, seguindo "o modelo de Rafah e Beit Hanoun em Gaza". A ONU informou que mais de 1,2 milhão de libaneses — cerca de um quinto da população — já foram deslocados pela guerra, que matou ao menos mil pessoas no Líbano.

A resposta internacional ao plano israelense foi imediata. O ministro da Defesa do Líbano, Michel Menassa, rejeitou veementemente a ameaça, alertando que a zona-tampão proposta e as ameaças de deslocamento violariam a soberania e arriscariam uma escalada mais ampla. O secretário-geral da ONU, António Guterres, advertiu contra a aplicação do "modelo Gaza" no Líbano. Até mesmo a própria mídia israelense reconheceu que autoridades políticas já aprovaram um plano militar para demolir a "primeira linha" de casas em aldeias libanesas ao longo da fronteira.

A situação coloca o Líbano em uma posição de extrema vulnerabilidade. O país não dispõe de um exército convencional capaz de enfrentar as Forças de Defesa de Israel em campo aberto. Analistas consultados pela CNN Brasil explicam que o sul do Líbano é uma "região montanhosa, complicada, o Hezbollah tem muito conhecimento da região e há esse vácuo de autoridade do exército libanês que não consegue ocupar porque o Hezbollah é mais forte que o exército". Em outras palavras, a fraqueza estrutural do Estado libanês — cujo governo, ironicamente, declarou o braço armado do Hezbollah ilegal horas após a retomada da guerra — torna o país incapaz de se defender por si mesmo, deixando a resistência armada como única barreira à anexação territorial.

Diante do anúncio israelense de ocupação, o Hezbollah respondeu com a única linguagem que lhe resta: a militar. O grupo xiita anunciou uma série de ataques com foguetes contra o norte de Israel, alvejando os assentamentos de Manara, Avivim, Shomera e Shlomi. Em comunicado, o Hezbollah afirmou que os ataques são "em defesa do Líbano e de seu povo, e em resposta à violação do cessar-fogo pelo inimigo", e acrescentou que a resposta "continuará até que a agressão israelense-americana contra o nosso país e o nosso povo cesse".

O secretário-geral do Hezbollah, Naim Qassem, conclamou à unidade nacional e prometeu continuar lutando "sem limites" contra a agressão israelense, depois que os ataques aéreos e terrestres de Israel já haviam matado mais de mil pessoas em todo o país. O porta-voz do Hezbollah no parlamento libanês, Ibrahim Moussawi, insistiu que o cessar-fogo EUA-Irã inclui a frente Hezbollah-Israel e que, se Israel não cumprir, "a região, incluindo o Irã, responderá".

A ofensiva de Israel no Líbano, longe de ser um movimento tático isolado, insere-se em uma estratégia mais ampla. A RTVE, emissora pública espanhola, reportou que Tel Aviv busca redesenhar as fronteiras do Oriente Médio, ressuscitando o conceito do "Grande Israel" — um estado judaico do Nilo ao Eufrates — com o apoio do governo mais radical da história do país. O ministro das Finanças de Israel, Bezalel Smotrich, defendeu abertamente que o rio Litani se torne "a nova fronteira" de Israel. O ministro da Defesa Katz, por sua vez, comparou a operação planejada ao modelo adotado em Gaza.

No plano econômico, a guerra já produziu efeitos devastadores. O petróleo Brent disparou para cerca de US$ 145 por barril no mercado à vista devido ao estrangulamento do Estreito de Ormuz pelo Irã. O premiê britânico, Keir Starmer, criticou publicamente Trump e Putin pelos picos nos preços da energia. A situação demonstra como o conflito já alterou profundamente as dinâmicas de poder no Golfo, com a capacidade de Teerã de fechar o estreito desafiando décadas de investimento militar dos EUA na região.

A tentativa de Israel de tomar 10% do território libanês, sob o pretexto de combater o Hezbollah, revela uma estratégia de expansão territorial que remonta ao próprio movimento sionista. O Líbano, país sem exército capaz de se defender, vê sua soberania ameaçada e sua população civil — mais de um milhão de deslocados — pagando o preço mais alto. O Hezbollah, mesmo numericamente inferior e militarmente mais fraco que Israel, resiste como pode. E o Irã, ao expor abertamente o plano israelense em menos de 24 horas, deixa claro ao mundo quem é, de fato, o agressor nesta guerra. Resta saber se a comunidade internacional, diante das evidências, será capaz de impedir mais uma anexação territorial no coração do Oriente Médio.

Com informações de Al Jazeera, AP, BBC, CBC, CGTN, CNN Brasil, El País, G1, Newsweek, O Globo, Público, Reuters, RTVE, SCMP, TASS, The Hindu, The National Interest, UN News, Valor Econômico, Wikipedia e Ynetnews ■

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