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No dia 28 de fevereiro de 2026, quando os primeiros mísseis americanos e israelenses atingiram Teerã, poucos imaginavam que a resposta iraniana viria não com uma frota de caças supersônicos ou uma invasão terrestre, mas com uma arma que custa menos que um carro popular: o drone Shahed-136. Apelidado de “AK-47 dos céus”, esse pequeno veículo aéreo não tripulado, fabricado com componentes de prateleira e um motor de quatro cilindros, tornou-se o símbolo de uma nova era na guerra — uma era em que o poder militar não é mais definido pela tecnologia mais avançada, mas pela aritmética mais cruel: a capacidade de impor custos insustentáveis ao adversário.
Menos de duas semanas após o início do conflito, o Irã já havia lançado mais de mil Shaheds contra alvos em Israel, nos Estados do Golfo e contra instalações militares americanas. Em cinco semanas de guerra, o número de drones e mísseis disparados pelo regime ultrapassou os 5.600, com picos de mais de 1.200 artefatos em apenas 48 horas. As taxas de interceptação, embora oficialmente superiores a 90%, escondem uma realidade alarmante: cada míssil Patriot, THAAD ou Arrow disparado para abater um Shahed-136 custa entre US$ 1,3 milhão e US$ 4 milhões, enquanto o drone iraniano sai da linha de montagem por apenas US$ 20 mil a US$ 50 mil. Um único míssil Patriot, calcula a Reuters, seria suficiente para financiar ao menos 115 drones de ataque iranianos.
A matemática é implacável. A cada interceptação, o lado defensor gasta de 25 a 200 vezes mais do que o atacante. “A conta claramente favorece o desgaste”, resume Kelly Grieco, pesquisadora sênior do Stimson Center. E o desgaste, nessa guerra, está acontecendo em uma velocidade que o Pentágono não antecipou. Na primeira semana de combates, os EUA dispararam mais mísseis Patriot do que haviam enviado para a Ucrânia nos quatro anos anteriores. O custo dos primeiros três a cinco dias de operação, inicialmente estimado pelo Pentágono em US$ 11,3 bilhões, foi revisado por especialistas para pelo menos US$ 16 bilhões. E o ritmo não diminuiu: a guerra está consumindo entre US$ 1 bilhão e US$ 2 bilhões por dia, segundo fontes do Congresso.
A saturação das defesas israelenses: quando o escudo deixa de ser impenetrável
Para Israel, o problema é ainda mais agudo. O sistema de defesa antiaérea do país, construído ao longo de décadas com investimento bilionário americano, está sendo submetido ao maior teste de sua história. Desde o início da guerra, o Irã lançou mais de 350 mísseis balísticos contra Israel, cerca de metade deles com munições de fragmentação que liberam entre 24 e 80 bombas durante a descida, sobrecarregando ainda mais o sistema. E os drones “suicidas” já superaram os foguetes no número de alertas, pela primeira vez, forçando a ativação constante dos sistemas defensivos.
A saturação, porém, não é apenas tecnológica — é física. O número de interceptores disponíveis é finito. Israel entrou na guerra com seus estoques de mísseis Arrow já reduzidos por um conflito anterior com o Irã em junho de 2025. Cada interceptor Arrow 3 custa mais de US$ 2,5 milhões. A cada lançamento, o país queima recursos que não podem ser repostos em tempo real. Em 21 de março, dois mísseis balísticos iranianos atingiram as cidades de Dimona (sede da principal instalação nuclear israelense) e Arad, ferindo cerca de 200 pessoas, depois que Israel tentou e falhou em interceptá-los usando sistemas de médio alcance modificados — uma economia forçada de munições de ponta. O governo israelense, que garante que não há escassez crítica de interceptores, aprovou mais de €736 milhões em compras emergenciais.
Em Dimona, a falha foi especialmente simbólica. O ataque expôs as fraquezas do Iron Dome, projetado para interceptar foguetes de curto alcance, não os mísseis balísticos de alcance intermediário do Irã. A saturação criou um dilema constante para a Força Aérea Israelense: interceptar todos os projéteis ou preservar os interceptores para ameaças mais críticas. Em alguns casos, a opção tem sido não neutralizar todas as submunições se o risco for considerado limitado e a população estiver protegida em abrigos. “Os interceptores de todos os tipos são finitos”, resume Tal Inbar, analista sênior da Missile Defense Advocacy Alliance. “Conforme o combate avança, eles diminuem. E à medida que diminuem, você precisa fazer cálculos mais cuidadosos sobre o que usar.”
O colapso silencioso da economia militar americana
Enquanto isso, nos Estados Unidos, a conta da guerra começa a assombrar o Congresso. O Pentágono solicitou US$ 200 bilhões adicionais para financiar a campanha contra o Irã, mas a oposição é feroz. Democratas e até mesmo alguns republicanos questionam a necessidade de mais verba depois das enormes dotações de defesa do ano anterior. O déficit orçamentário americano, que já ultrapassa US$ 2 trilhões, transforma qualquer tentativa de garantir financiamento em um moedor político. Pete Hegseth, secretário de Guerra, chegou ao Congresso não como um vencedor, mas como um suplicante de mão estendida.
Os números são estarrecedores. Kent Smetters, diretor do Penn Wharton Budget Model, projeta que o custo total da guerra — incluindo danos econômicos indiretos como disrupção do comércio, choques energéticos e instabilidade financeira — pode chegar a US$ 210 bilhões se o conflito terminar em menos de dois meses. Se a guerra se prolongar, os valores podem explodir ainda mais. Especialistas da Harvard Kennedy School calculam que, quando todos os custos de reposição são incluídos (mísseis Tomahawk cujo valor de inventário é de US$ 2 milhões, mas custam US$ 3 a US$ 3,5 milhões para substituir; mísseis Patriot que valiam US$ 1 a US$ 2 milhões em estoque, mas cujas versões mais novas custam US$ 4 a US$ 5 milhões), o gasto diário real chega perto de US$ 2 bilhões — “a ponta do iceberg”.
A perda de ativos de alto valor agrava o quadro. O porta-aviões USS Gerald R. Ford, uma plataforma de US$ 13 bilhões, foi danificado. Sistemas de radar THAAD, aeronaves de alerta antecipado Boeing E-3 Sentry e pelo menos 12 caças americanos foram abatidos ou destruídos em solo. A retirada das forças americanas de posições avançadas no Golfo para bases mais distantes no Oceano Índico e no Mediterrâneo Oriental reduziu drasticamente a capacidade de geração de surtidas.
Em Washington, o debate sobre “canhões ou manteiga” reacendeu-se com intensidade. A senadora Elizabeth Warren resumiu o sentimento de muitos: “Enquanto não há dinheiro para 15 milhões de americanos que perderam seus planos de saúde, há US$ 1 bilhão por dia para bombardear o Irã”. A proposta orçamentária de Trump para 2027 prevê um aumento “histórico” nos gastos de defesa para US$ 1,5 trilhão (acima de cerca de US$ 1 trilhão em 2026) e cortes de 10% nos programas discricionários não relacionados à defesa — incluindo ciência, saúde e assistência social.
Estratégia de atrito: por que o Irã está ganhando a guerra econômica
O que torna a estratégia iraniana tão eficaz não é a sofisticação de suas armas, mas a lógica econômica que as sustenta. Teerã opera com um orçamento militar estimado em cerca de US$ 23 bilhões — uma fração dos US$ 900 bilhões anuais dos EUA. Mas ao invés de tentar competir em tecnologia, o regime apostou em uma guerra de custo-imposição: forçar o adversário a gastar recursos desproporcionalmente maiores para se defender.
O Shahed-136 é a materialização perfeita dessa filosofia. É um “míssil de cruzeiro do homem pobre”, um consumível projetado para um único fim explosivo. Ao evitar sensores sofisticados, links de satélite e trens de pouso complexos, o Irã criou uma arma que pode ser produzida em massa em pequenas oficinas, com componentes off-the-shelf. Os EUA, por sua vez, foram forçados a desenvolver seu próprio clone do Shahed, o LUCAS (Low-Cost Uncrewed Combat Attack System), e a usá-lo pela primeira vez em combate — uma admissão implícita de que a abordagem iraniana funciona.
Mas a saturação não se limita ao espaço aéreo. O Irã também atacou a arquitetura de sensores que sustenta a defesa aérea americana. Radares de alerta antecipado AN/FPS-132 no Catar, radares AN/TPY-2 na Jordânia e nos Emirados Árabes Unidos foram atingidos, erodindo a rede de detecção e alerta. Cada um dos cinco sistemas THAAD implantados na região foi atingido, e seus radares — entre os mais sofisticados do inventário americano — foram desativados ou destruídos. O relatório do Instituto Judaico para Segurança Nacional da América (JINSA) foi categórico: “Os EUA não têm baterias e interceptores suficientes para sustentar a defesa em toda a região em uma guerra longa”.
As consequências vão além do campo de batalha. A guerra tornou-se uma corrida de estoques: as forças americanas e israelenses precisam esgotar os mísseis e drones do Irã antes que seus próprios estoques de interceptores se esgotem. O problema é que as armas em que o Irã confia custam uma fração dos interceptores necessários para detê-las, e a produção industrial de defesa não consegue repor os estoques gastos com rapidez suficiente. O resultado é uma equação que favorece quem consegue sustentar a pressão a menor custo — e nesse jogo, o Irã tem uma vantagem estrutural.
Análise crítica: uma guerra que os EUA não podem vencer — nem abandonar
A estratégia de drones baratos do Irã expõe uma vulnerabilidade fundamental do poder militar americano: a dependência de sistemas de alta tecnologia cujo custo de operação é insustentável em um conflito prolongado. A RAND Corporation já havia advertido que drones baratos estão inclinando o campo de batalha para o lado ofensivo, porque atacar tornou-se muito mais barato do que defender. Essa advertência, ignorada durante anos, agora se tornou uma realidade concreta.
O coronel reformado Lawrence Wilkerson, ex-chefe de gabinete de Colin Powell, resumiu o dilema em uma entrevista ao The Chris Hedges Report: “Se Washington comprometer tropas em solo iraniano, o resultado pode ser um desastre militar em uma escala que os formuladores de políticas parecem não querer reconhecer”. A guerra já queimou recursos militares maciços, desestabilizou mercados globais e não produziu nada que se assemelhe a uma vitória estratégica clara. A saída proposta por Wilkerson é politicamente simples, mas estrategicamente difícil: declarar vitória e retirar-se antes que o conflito se endureça em outra guerra geracional.
O analista da mídia chinesa Wen Wei Po foi ainda mais direto: “Isso expõe a hipocrisia militar dos EUA. O mito da ‘invencibilidade’ foi destruído, refletindo a desindustrialização e o esvaziamento da capacidade produtiva americana, que já não pode sustentar uma guerra de alta intensidade prolongada”. A produção americana de munição de precisão, alerta o mesmo veículo, é insuficiente para sustentar uma guerra de desgaste: a produção anual de mísseis Tomahawk e JASSM é de apenas algumas centenas de unidades, e a capacidade de construção naval está severamente comprometida.
Por fim, a guerra contra o Irã expôs uma contradição que nenhuma campanha de relações públicas pode esconder. Os EUA gastaram mais de US$ 11 bilhões na primeira semana, queimaram interceptores em uma taxa insustentável, perderam ativos de alto valor, e estão pedindo US$ 200 bilhões adicionais ao Congresso — tudo para combater drones que custam menos que um carro. A cada míssil Patriot disparado contra um Shahed, a vantagem econômica do Irã se amplia. A cada interceptor Arrow 3 lançado, o estoque israelense diminui. E a cada dia que passa, a conta chega a um Congresso cada vez mais relutante e a um público americano cada vez mais cansado.
A pergunta que fica não é se os EUA podem vencer essa guerra militarmente. A pergunta é se podem vencer economicamente. E todas as evidências sugerem que não. O Irã não precisa abater todos os aviões americanos ou destruir todas as bases dos EUA. Ele só precisa continuar lançando drones baratos, em enxames, dia após dia, até que o custo de defendê-los se torne politicamente intolerável. Nesse jogo de desgaste, a matemática é implacável — e o TACO de Trump, por mais que tente adiar o inevitável, não pode mudar a aritmética.
Com informações de BBC News, CNN Brasil, Reuters, Associated Press, Agence France-Presse (AFP), Deutsche Welle (DW), G1, O Globo, UOL, Bloomberg, The New York Times, The Wall Street Journal, The Washington Post, The Guardian, Fox News, The Times of Israel, The Jerusalem Post, Al Jazeera, Sputnik, Pravda, Wen Wei Po, China.org.cn (Xinhua), Arab News, Gulf News, Egypt Today, The New Arab, Zee News, NDTV, WION, News18, Hindustan Times, Times of India, Indian Express, AA.com.tr, JINSA, Stimson Center, RAND Corporation, Harvard Kennedy School, Penn Wharton Budget Model, Center for Strategic and International Studies (CSIS), Anadolu Agency, Defense Express, Monocle, Pakistan Observer, WhoWhatWhy, Consortium News, The Manila Times, The Chris Hedges Report, Peter G. Peterson Foundation, Fortune, TIME, The Atlantic Council ■