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Donald Trump transformou a arte do adiamento em instrumento central de sua política externa. Desde o início da guerra contra o Irã, em 28 de fevereiro de 2026, o presidente americano submeteu o mundo a um ritmo alucinante de ultimatos, recuos, ameaças cada vez mais apocalípticas e anúncios de “progresso” diplomático que Teerã sistematicamente desmentiu. A crise no Estreito de Hormuz — por onde escoa cerca de 20% do petróleo mundial — tornou-se o palco de uma encenação geopolítica cujo roteiro se repete: um prazo fatal é fixado, as horas passam, a retórica esquenta, e então, na calada da noite, o relógio é reiniciado. Mas o que essa gestão errática revela sobre a real capacidade de coerção dos Estados Unidos?
Uma cronologia do “sempre-adiado”: do ultimato de 48 horas ao cessar-fogo de duas semanas
Para compreender a estratégia, é necessário reconstituir a sucessão de prazos que Trump impôs e depois descumpriu:
Esse padrão de “prazo-negociação-prorrogação” já se tornou tão previsível que ganhou até apelido nos círculos políticos de Washington: “TACO”, sigla para “Trump always chickens out” (“Trump sempre recua”). O Washington Examiner observou que, embora cada adiamento ocorresse em estágios diferentes do conflito, o padrão tem sido “consistente: um prazo público seguido por uma pausa, muitas vezes justificada por Trump alegando que as conversas de paz com o Irã avançaram”.
Blefe ou estratégia? A “doutrina da imprevisibilidade” e seus limites
Analistas têm interpretado a abordagem de Trump como uma atualização da chamada “teoria do louco” (madman theory) da Guerra Fria — a ideia de que um líder deve convencer seus adversários de que está disposto a agir de forma irracional para obter concessões. Nesse quadro, ameaças como “apagar uma civilização inteira” ou bombardear todas as pontes e usinas do Irã em quatro horas não seriam planos de guerra, mas instrumentos de barganha.
No entanto, a eficácia dessa tática tem sido questionada. O Gulf News apontou que “Trump já atrasou prazos semelhantes várias vezes nas últimas semanas, apesar de poucos sinais de negociações sérias, levantando dúvidas sobre se este último ultimato se sustentará”. A repetição do padrão, longe de ampliar a margem de manobra americana, passou a estreitá-la. Fontes em Teerã revelaram à Al Jazeera que existe “uma percepção americana de que a abordagem de prazos e prazos recorrentes tornou-se um fardo, diminuindo a margem de manobra em vez de ampliá-la”.
Mais grave: as ameaças de Trump a infraestrutura civil — usinas, pontes, estações de dessalinização — atraíram forte condenação internacional. O secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou-se “profundamente perturbado” com a possibilidade de populações serem alvo. O papa Leão XIV classificou as ameaças como “inaceitáveis”. Especialistas em direito internacional ouvidos pela CNN alertaram que ataques maciços a infraestrutura civil “têm sido tradicionalmente considerados crimes de guerra”. Trump respondeu com desdém: “Sabe o que é crime de guerra? Permitir que o Irã tenha uma arma nuclear.”
Pressões domésticas: o calcanhar de Aquiles da coerção trumpista
Os sucessivos adiamentos não podem ser explicados apenas pela estratégia. Eles revelam, sobretudo, as pressões que levaram a Casa Branca a recuar a cada prazo. O primeiro fator é o mercado. Sempre que Trump anunciava um ultimato, o petróleo disparava e as bolsas caíam. Quando ele anunciava uma prorrogação, o movimento se invertia. Em 23 de março, após o anúncio da pausa de cinco dias, o barril de Brent caiu mais de 11%, o S&P 500 subiu 1,7% e o Dow Jones saltou quase 870 pontos. O Bloomberg observou que “as declarações do presidente dos EUA sobre negociações influenciaram fortemente as cotações globais”. Em outras palavras, o mercado financeiro passou a antecipar os recuos de Trump — e a punir a escalada.
O segundo fator são os custos da guerra. Estima-se que apenas os seis primeiros dias de conflito tenham consumido mais de US$ 110 bilhões, e a operação segue consumindo entre US$ 1 bilhão e US$ 2 bilhões por dia. O Pentágono já teria apresentado uma proposta de mais de US$ 200 bilhões em fundos suplementares para a guerra, e a oposição no Congresso cresce. Paralelamente, a aprovação de Trump caiu para 36%, e sua avaliação econômica despencou para menos de 30%, com as eleições de meio de mandato no horizonte.
O terceiro fator — e talvez o mais decisivo — é o descompasso entre as expectativas iniciais da guerra e a realidade no terreno. A estratégia de Trump foi construída sobre três premissas falsas: que um ataque maciço desencadearia o colapso do regime iraniano; que o assassinato do aiatolá Ali Khamenei levaria a uma insurgência interna; e que o Irã se renderia rapidamente. Nada disso aconteceu. O sistema iraniano absorveu os golpes, substituiu seus comandantes e lançou ataques retaliatórios contra bases americanas e alvos israelenses. O conflito, longe de ser uma operação cirúrgica, transformou-se em uma guerra de desgaste.
O dilema de Trump: sair ou escalar?
O presidente americano encontra-se, portanto, diante de um dilema insolúvel. Se cumpre as ameaças e ordena ataques generalizados a infraestrutura civil, arrisca um escândalo internacional por crimes de guerra, uma retaliação maciça do Irã contra aliados regionais e um choque nos mercados que inviabilizaria sua reeleição. Se recua mais uma vez, consolida a percepção de que seus ultimatos são blefes vazios, minando a credibilidade americana por décadas.
Teerã, por sua vez, tem explorado essa armadilha com notável habilidade. Ao evitar uma escalada dramática que pudesse servir de pretexto para uma invasão americana, mas recusando-se a ceder, o regime iraniano transformou o conflito em uma “prova de resistência”. A aposta de Teerã é que um sistema autoritário pode suportar a incerteza prolongada por mais tempo do que uma democracia polarizada e sensível a oscilações nos preços dos combustíveis. Como observou o Newsweek, “cada prazo que passa afasta o confronto do choque e o aproxima da paciência”.
Conclusão: o teatro do poder e seus espectadores
A gestão da crise com o Irã expõe, em última instância, os limites estruturais da “doutrina da imprevisibilidade”. A técnica pode funcionar por algum tempo, mas quando o blefe é repetido à exaustão, o adversário deixa de temer a ameaça e passa a antecipar o recuo. Trump criou para si uma armadilha cronológica: cada novo ultimato é menos crível que o anterior, e cada adiamento reduz a margem para uma saída honrosa. O resultado é uma guerra que não termina, uma diplomacia que não avança e um presidente que, a cada tique-taque do relógio, vê sua margem de manobra diminuir — enquanto o mundo aprende a tratar suas ameaças apocalípticas como mais um episódio de um longo e previsível seriado.
Com informações de Al Jazeera, AP News, BBC News, Bloomberg, CNN, Fox News, Gulf News, Newsweek, Reuters, The Guardian, The New York Times, The Wall Street Journal, The Washington Post, Tehran Times, Pravda, RT, Axios, NBC News, CBS News, The Jerusalem Post, Al-Quds, The National, Doha Institute, Ahram Online, Politico, China.org.cn (Xinhua), Phoenix TV (Ifeng), Yomiuri Shimbun, Nikkei, Dong-A Ilbo, Korea Times, ABC News, NPR, The Conversation, Foreign Affairs, Al-Monitor, Middle East Eye, Asharq Al-Awsat ■