Siga nossas redes sociais
Logo     
Siga nossos canais
   
Crise na GloboNews: demissões, “peixes grandes” e a omissão que reacendeu a crise do Power Point
Após exibir arte gráfica que ligava Lula e o PT ao escândalo do Banco Master omitindo nomes da direita, emissora demite editores, enfrenta acusações de proteção a aliados e vê ex-funcionários apontarem dedo para a alta cúpula
Analise
Foto: https://contee.org.br/wp-content/uploads/2026/03/Power-point-da-Globo-sobre-caso-Master-gera-indignacao-e-obriga-canal-a-se-desculpar-780x462.jpg
Compartilhar:
■   Bernardo Cahue, 01/04/2026

O episódio envolvendo a exibição de um infográfico no programa Estúdio I, da GloboNews, em 20 de março de 2026, transformou-se na maior crise editorial do canal de notícias nos últimos anos. Batizado internamente como “PowerPoint da discórdia”, o material gráfico que tentava associar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o Partido dos Trabalhadores ao esquema do Banco Master, do banqueiro Daniel Vorcaro, gerou uma sequência de demissões, pedidos de desculpas ao vivo e acusações de que a decisão partiu de “peixe muito grande” dentro da própria emissora.

O conteúdo, intitulado “Conexões de Daniel Vorcaro”, foi ao ar na sexta-feira, dia 20, e apresentava uma estrutura visual que lembrava o PowerPoint utilizado pelo ex-procurador Deltan Dallagnol na Operação Lava Jato para incriminar o atual presidente. A peça gráfica colocava Lula, o ex-ministro Guido Mantega, Gabriel Galípolo (presidente do Banco Central) e o “PT da Bahia” no centro de uma teia de supostas ligações com Vorcaro, preso por fraudes bilionárias.

O problema, que rapidamente viralizou nas redes sociais, não foi apenas o erro factuais, mas a omissão seletiva. A arte ignorou deliberadamente nomes que, segundo a Polícia Federal e relatórios de investigação, possuem vínculos comprovados com o banqueiro. Entre os ausentes estavam:

  • Jair Bolsonaro (PL): recebeu R$ 3 milhões do operador de Daniel Vorcaro, Fabiano Zettel, na campanha de 2022.
  • Tarcísio de Freitas (Republicanos): governador de São Paulo, que recebeu R$ 2 milhões do mesmo operador.
  • Roberto Campos Neto: ex-presidente do Banco Central, que esteve à frente da autarquia durante todo o período das fraudes e é atualmente diretor do Nubank, banco que tem a família Marinho como sócia.
  • Ibaneis Rocha e Cláudio Castro: governadores do DF e do Rio, respectivamente, também citados em investigações por relações institucionais com Vorcaro.

Diante da repercussão negativa e da pressão interna, a âncora do Estúdio I, Andréia Sadi, foi obrigada a ler um pedido de desculpas ao vivo na segunda-feira, dia 23. Em tom protocolar, ela afirmou que “o material estava errado e incompleto” e que não deixou claro o critério usado para a seleção das informações, admitindo que a arte “misturou contatos institucionais com nomes que Vorcaro menciona como tendo relação contratual ou pessoal”. No entanto, durante o pedido de desculpas, a jornalista não citou nominalmente os ausentes, como Bolsonaro e Tarcísio, o que aumentou as críticas de que a retratação foi apenas “protocolar” e insuficiente.

Demissões e a chantagem dos bastidores

A crise gerou uma sangria na equipe de produção do jornalismo. Inicialmente, especulou-se que ao menos três profissionais seriam demitidos. Dias depois, a emissora confirmou a demissão de dois editores que ocupavam funções estratégicas na elaboração do infográfico. A justificativa interna, apurada pela área de compliance, apontou que houve divergência entre o que foi solicitado pela direção e o que foi efetivamente levado ao ar.

No entanto, nos bastidores, a versão é outra. Ex-funcionários e profissionais que deixaram a emissora recentemente afirmam que as demissões serviram como “bodes expiatórios” para proteger os verdadeiros responsáveis. Fabrício Marta, ex-chefe de produção da Rede Globo que pediu demissão em janeiro após 20 anos de casa, fez um desabafo contundente em suas redes sociais. Marta afirmou que a decisão de exibir aquele PowerPoint partiu de “peixe muito grande”, sugerindo que executivos de alto escalão da emissora ou do grupo Globo ordenaram a produção do material com o viés político claro.

“Aquele PowerPoint é coisa de peixe muito grande”, escreveu Marta, que revelou ter deixado a empresa após ser cobrado por atestado médico enquanto se recuperava de um infarto na UTI. “O canal é costurado por muitas pessoas competentes, brilhantes, incríveis e que, portanto, não merecem, sobremaneira, serem lambuzados pelos cérebros que decidiram por aquele PowerPoint criminoso”.

Há ainda rumores persistentes de que os produtores e editores demitidos estariam ameaçando revelar à imprensa quem foi exatamente o responsável pela ordem de divulgação do material. A suspeita nos meios alternativos é de que a ordem partiu de uma diretoria que, alinhada a pesquisas de mercado que indicam que a Globo precisa agradar ao público conservador, vem forçando uma guinada editorial na casa desde meados de 2024.

Reações e contexto político

A indignação com o episódio não ficou restrita aos bastidores. Figuras políticas e jornalistas veteranos criticaram duramente a postura da emissora. A ex-repórter da Globo Neide Duarte, com mais de 40 anos de carreira, classificou o dia da exibição como “dia de vergonha na GloboNews”, comparando o material a um “jornalzinho de culto pentecostal”. O jornalista Ari Peixoto, que trabalhou 34 anos na casa, afirmou que a emissora se tornou “uma arma política, quase um partido autônomo”.

O presidente Lula também entrou no debate. Em evento de inauguração de obras educacionais no dia 30 de março, Lula detonou a postura da mídia corporativa, citando nominalmente a Globo. “A Globo, o SBT, a Bandeirantes, a Record, não vão fazer um PowerPoint mostrando isso aqui”, disse o presidente, referindo-se às obras do governo. “Seria maravilhoso se fizessem, mas não vão fazer”. O deputado Paulo Pimenta (PT-RS) classificou o material como uma tentativa “criminosa” de manipulação e questionou a omissão de figuras como Roberto Campos Neto e o uso do avião de Vorcaro por aliados de Bolsonaro.

A crise do PowerPoint, para analistas, é vista como um sintoma de uma reorientação estratégica mais ampla do Grupo Globo. De acordo com a análise publicada no site A Terra é Redonda, a emissora teria encomendado pesquisas ao instituto Quaest para entender a rejeição do público conservador, que a rotula como “Globolixo”. A conclusão teria levado a mudanças editorais, como a demissão de jornalistas vistas como progressistas (Daniela Lima, Eliane Cantanhêde) e a cautela excessiva na cobertura de temas ligados ao governo, culminando na tentativa de reproduzir o discurso da Lava Jato contra Lula.

Com informações de Diário do Centro do Mundo, A Terra é Redonda, Revista Fórum, Jornal do Brasil, Fundação Perseu Abramo, Rondonoticias ■

Mais Notícias