Siga nossas redes sociais
Logo     
Siga nossos canais
   
Ameaça de Trump agora também envolve a Rússia
Presidente dos EUA afirma que autorizou entrada de petroleiro russo em caráter humanitário, mas afirma que ilha "vai fracassar em pouco tempo" e mantém retórica intervencionista; Moscou diz ter coordenado envio com Washington
Analise
Foto: https://www.cartacapital.com.br/wp-content/uploads/2025/01/000_36TN7JC.jpg
Compartilhar:
■   Bernardo Cahue, 31/03/2026

A tensão geopolítica em torno de Cuba atingiu um novo patamar neste final de semana. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou no domingo (29 de março de 2026) que a ilha caribenha será a "próxima" a enfrentar uma ação decisiva de seu governo, após as operações militares no Irã e a deposição do governo de Nicolás Maduro, na Venezuela. A fala, feita a bordo do Air Force One durante o voo de retorno de sua residência em Mar-a-Lago, na Flórida, para Washington, foi acompanhada de uma aparente contradição: Trump autorizou a entrada de um navio petroleiro russo, que estava sob sanções, para abastecer o país que ele próprio classificou como "um regime ruim" e "acabado".

As declarações de Trump ampliam o escopo de suas ameaças, que antes se concentravam exclusivamente no embargo econômico à ilha. Questionado se a mudança de postura em relação ao petroleiro russo poderia beneficiar o presidente Vladimir Putin, Trump respondeu de forma direta: "Isso não ajuda Putin. Ele perde um carregamento de petróleo. Só isso. Está tudo bem". No entanto, a permissão para a passagem do navio foi interpretada por analistas como um sinal de que, apesar da retórica agressiva, Washington busca evitar um confronto direto com Moscou em um momento de alta tensão global, especialmente após os EUA terem temporariamente aliviado sanções contra a Rússia para estabilizar o mercado de petróleo em meio à guerra com o Irã.

A reviravolta na política de embargo
O navio em questão é o Anatoly Kolodkin, um petroleiro que faz parte da chamada "frota sombra" russa e que está sob sanções dos Estados Unidos. Dados de rastreamento marítimo indicaram que a embarcação, carregando entre 650 mil e 730 mil barris de petróleo bruto, estava ao largo da costa leste de Cuba no domingo e deveria atracar no porto de Matanzas, no oeste do país, até a terça-feira (31 de março). A permissão para a atracação representa uma reviravolta significativa na política externa norte-americana.

Até então, Trump havia imposto um bloqueio de fato ao abastecimento de petróleo a Cuba. Em janeiro, os EUA cortaram as exportações venezuelanas para a ilha após a deposição de Maduro, e o presidente ameaçou impor tarifas punitivas a qualquer nação que enviasse petróleo a Havana. O México, o maior fornecedor ao lado da Venezuela, interrompeu seus envios como resultado dessa pressão, deixando Cuba sem receber um único navio petroleiro por três meses, segundo declarou o presidente cubano, Miguel Díaz-Canel.

De acordo com o jornal The New York Times, a Guarda Costeira dos EUA permitiu a passagem do navio russo, e a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, afirmou que os EUA avaliarão os envios de petróleo a Cuba "caso a caso", citando razões humanitárias. Em Moscou, o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, confirmou que o envio de combustível foi discutido previamente com os Estados Unidos e que a Rússia tem o dever de apoiar "amigos" em Cuba.

"Cuba vai ser a próxima" e as novas ameaças
Enquanto autorizava o alívio emergencial, Trump endureceu o tom das ameaças contra o governo cubano. Em suas declarações a bordo do avião presidencial, ele foi enfático ao afirmar que a ilha está na mira de sua administração.

"Cuba vai ser a próxima", afirmou Trump. "É um país fracassado. Vai fracassar em um curto período de tempo, e nós estaremos lá para ajudar. Estaremos lá para ajudar os nossos grandes cubano-americanos".

Questionado por jornalistas se a frase "a próxima" indicava uma ação militar semelhante à realizada no Irã ou na Venezuela, Trump não descartou a possibilidade, afirmando anteriormente que "próximo" poderia significar ajudar a libertar o país ou "tomá-lo". O secretário de Estado, Marco Rubio, cujos pais imigraram de Cuba, tem sido um dos principais defensores da linha dura, afirmando que o governo comunista cubano precisa ser reformado ou substituído para que o país prospere.

Mesmo com a chegada do petroleiro russo, Trump minimizou o impacto da ajuda. "Cuba está acabada. Eles têm um regime ruim. Têm uma liderança muito má e corrupta, e recebam ou não um barco de petróleo, isso não vai importar".

Cenário de crise humanitária e próximos passos
O combustível russo chega em um momento de colapso energético em Cuba, que não recebia importações há três meses. A falta de petróleo resultou em um racionamento severo de gasolina, apagões nacionais recorrentes e uma grave crise humanitária. De acordo com reportagens da Reuters e da agência de notícias Kyiv Post, autoridades de saúde cubanas afirmaram que a crise energética aumentou o risco de mortalidade para pacientes com câncer, especialmente crianças, que dependem de equipamentos elétricos para tratamentos e cuidados intensivos.

Analistas consultados pela Reuters avaliam que o carregamento trazido pelo Anatoly Kolodkin pode garantir cerca de um mês de operação para a ilha, considerando o atual regime de racionamento de energia. O governo cubano, por meio do portal oficial Cubadebate, classificou a chegada do navio como um "desafio direto" ao bloqueio dos EUA, destacando que a embarcação foi escoltada pela Marinha russa através do Canal da Mancha antes de cruzar o Atlântico.

Enquanto isso, o cenário geopolítico segue volátil. A decisão de Trump de permitir a entrega, ao mesmo tempo em que promete o "fracasso" do regime cubano, reflete o delicado equilíbrio entre a pressão política interna — especialmente entre eleitores cubano-americanos na Flórida — e a necessidade de evitar uma escalada militar com a Rússia no Caribe. A reviravolta também demonstra como os conflitos no Oriente Médio, como a guerra com o Irã, continuam a moldar as decisões de política externa dos EUA em outras regiões do mundo.

Com informações de The New York Times, USA Today, Reuters, AFP, Anadolu Ajans?, RNZ ■

Mais Notícias