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O isolamento de Netanyahu e o fortalecimento do regime iraniano
Com o afastamento de Trump e a falha do plano de insurreição no Irã, o premiê israelense assiste ao fortalecimento do regime aiatolá e à expansão da influência do Hezbollah e dos Houthis no tabuleiro regional
Analise
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■   Bernardo Cahue, 31/03/2026

A paisagem geopolítica do Oriente Médio, desenhada pelas bombas e pela diplomacia nas primeiras semanas do conflito deflagrado em 28 de fevereiro de 2026, revela um cenário paradoxal. Embora a retórica inicial apontasse para um rápido colapso do regime iraniano após a eliminação de sua cúpula, a realidade que emerge é a do aprofundamento do isolamento internacional de Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, em contraste com a resiliência do regime dos aiatolás, que se vê fortalecido pelo apoio inabalável de aliados como o Hezbollah no Líbano e os Houthis no Iêmen.

O ponto de inflexão para essa nova dinâmica reside no afastamento estratégico entre Washington e Jerusalém. Embora aliados formais, os objetivos de Donald Trump e Benjamin Netanyahu para a guerra contra o Irã divergiram de maneira irreconciliável, deixando o premiê israelense em uma posição vulnerável. Enquanto Netanyahu enxergava o conflito como uma "oportunidade geracional" para destruir um inimigo existencial — investindo pesadamente em uma estratégia de mudança de regime —, Trump passou a buscar uma "saída honrosa" que pudesse ser vendida como vitória ao eleitorado americano antes das eleições de meio de mandato.

A percepção de isolamento de Netanyahu foi acentuada por um choque de expectativas documentado pela imprensa internacional. De acordo com uma extensa reportagem do The New York Times, a aposta de Israel em uma guerra que provocaria uma revolta popular interna no Irã fracassou retumbantemente. A inteligência americana, em um briefing ao presidente Trump, foi categórica: o povo iraniano não se levantaria contra seus líderes enquanto bombas americanas e israelenses caíssem sobre suas cidades. Longe de deflagrar uma guerra civil, os ataques externos tiveram o efeito oposto, consolidando um sentimento de nacionalismo que uniu a população em torno do regime.

Fontes ouvidas pelo Axios e reproduzidas pelo Daily Beast revelaram o desconforto crescente na Casa Branca. Assessores de Trump passaram a descrever Israel como um parceiro disposto a aceitar o "caos" no Irã — e até mesmo o desmembramento do país — como um resultado aceitável, enquanto os Estados Unidos clamam por estabilidade e previsibilidade no preço do petróleo. "Israel não odeia o caos. Nós odiamos. Nós queremos estabilidade. Netanyahu? Nem tanto, especialmente no Irã", afirmou um funcionário da Casa Branca não identificado.

Esse afastamento se manifestou em episódios concretos de tensão diplomática. Em outubro de 2025, antes mesmo da escalada atual, Trump já havia dado um ultimato a Netanyahu durante uma reunião no Salão Oval, exigindo o fim imediato da guerra em Gaza com a frase: "Você vai terminar essa guerra agora". Mais recentemente, em março de 2026, a relação ficou ainda mais estremecida quando Israel atacou o campo de gás South Pars, no Irã, sem o sinal verde explícito de Washington. Embora tenha havido coordenação militar tática, Trump afirmou publicamente que não sabia do ataque, uma contradição imediatamente desmentida por seus próprios auxiliares.

Enquanto Netanyahu se via pressionado a conter suas ambições, o "Eixo da Resistência" patrocinado pelo Irã demonstrava uma resiliência que muitos analistas consideravam improvável. As forças iranianas e seus aliados passaram a operar em múltiplas frentes, não apenas defendendo o território persa, mas expandindo sua zona de influência.

No Líbano, o Hezbollah se mantém como um ator militar relevante, apesar dos pesados bombardeios israelenses. Em uma demonstração de força, Netanyahu admitiu publicamente que ordenou ao exército a expansão da ocupação no sul do Líbano, criando uma "zona de segurança" e deslocando mais de 1,1 milhão de pessoas. No entanto, a incapacidade de Israel de silenciar completamente os lançamentos de foguetes a partir do território libanês demonstra a sobrevivência da estrutura militar do Hezbollah, que continua a ser o principal ativo de projeção de poder do Irã em sua fronteira norte.

Simultaneamente, os Houthis no Iêmen ampliaram seu papel no conflito, atuando como uma força de pressão crucial. Apesar dos esforços de Trump para negociar um acordo separado com o grupo — que incluía a interrupção de ataques a embarcações americanas, mas não a Israel —, os Houthis mantiveram a retórica de apoio ao Irã, atacando alvos em território israelense e no Mar Vermelho em solidariedade ao regime de Teerã. A sobrevivência do regime iraniano e a continuidade das hostilidades por parte desses grupos representam um revés para a estratégia israelense de "degolação" da liderança inimiga.

O isolamento de Netanyahu não se restringe ao campo de batalha ou à relação com os EUA. No plano diplomático, sua posição se tornou insustentável. O premiê foi forçado a recuar em decisões controversas, como a restrição ao acesso de líderes religiosos em Jerusalém. Recentemente, Netanyahu ordenou a liberação imediata do acesso do Patriarca Latino ao Santo Sepulcro após um mal-estar público, um movimento que revelou sua sensibilidade à pressão internacional, especialmente em um momento em que potências como Reino Unido, França e Canadá já haviam rompido protocolos ao reconhecer oficialmente o Estado da Palestina.

A tentativa de Netanyahu de usar a guerra como ferramenta de reabilitação política interna e pessoal também parece ter encontrado limites. Embora o premiê tenha apostado que a destruição do "eixo do mal iraniano" apagaria a memória do fracasso de inteligência de 7 de outubro de 2023 e o livraria do julgamento por corrupção que enfrenta, a euforia inicial deu lugar à percepção de um conflito prolongado. As pesquisas indicam que, embora a maioria dos israelenses apoie a guerra, não houve um aumento significativo na confiança no governo Netanyahu, que permanece refém de uma coalizão frágil e ameaçado por um futuro julgamento sem o manto da imunidade.

A avaliação final dos analistas ouvidos pela imprensa internacional é a de que, com o afastamento de Trump, o regime aiatolá demonstrou uma capacidade de absorção de choques que Israel não havia antecipado. Em vez de uma revolta interna, o Irã consolidou seu controle doméstico e demonstrou que seus aliados regionais — Hezbollah e Houthis — são ativos estratégicos capazes de drenar os recursos de Israel e dos Estados Unidos, impondo um custo político e econômico que Washington já não está disposta a pagar indefinidamente.

Netanyahu, que esperava sair deste conflito como o arquiteto da derrocada de Teerã, assiste agora ao fortalecimento do regime adversário e ao seu próprio cerco geopolítico, tendo como único consolo a constatação de que, mesmo isolado, Israel continua a ser o parceiro militar tático dos EUA, embora já não mais o estrategista da aliança.

Com informações de Roya News, bdnews24, The i Paper, Diken, G1, The Guardian, The Daily Beast, T24, O Globo ■

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