Após expiração na madrugada desta quinta-feira (5), negociações por extensão ocorrem em meio a alertas da ONU sobre 'momento grave' para segurança global. Inclusão da China em eventual novo pacto emerge como ponto central e obstáculo
O Tratado New START, o último acordo bilateral que limitava os arsenais nucleares estratégicos da Rússia e dos Estados Unidos, expirou oficialmente na virada de quarta (4) para quinta-feira (5) . A expiração marca o fim de mais de cinco décadas de tratados com limites verificáveis entre as duas maiores potências nucleares, que juntas detêm cerca de 90% de todas as ogivas nucleares do planeta . Em meio a tensões geopolíticas elevadas, o secretário-geral da ONU, António Guterres, classificou o momento como "grave para a paz e a segurança internacional" .
Fontes do governo norte-americano indicaram ao site Axios que negociadores de EUA e Rússia estão próximos de um acordo para estender o tratado, com discussões avançadas ocorrendo nas últimas 24 horas em Abu Dhabi . Entretanto, essas conversas não foram concluídas a tempo de evitar a expiração. Uma autoridade da Casa Branca também sugeriu à TV Globo que "haverá notícias" sobre o New START e que um novo acordo deve incluir a China, mas sem fornecer detalhes ou prazos .
O que se perdeu com o fim do tratado
Assinado em 2010 e em vigor desde 2011, o New START estabelecia limites numéricos rigorosos e um sistema robusto de verificação, considerados pilares da estabilidade estratégica .
- Ogivas: Limitava a 1.550 o número de ogivas nucleares estratégicas implantadas (montadas em mísseis ou prontas para uso em bombardeiros) .
- Sistemas de lançamento: Restringia a 700 o número de mísseis balísticos intercontinentais (ICBMs), mísseis lançados de submarinos (SLBMs) e bombardeiros pesados equipados para armas nucleares .
- Verificação: Permitia até 18 inspeções anuais em locais nucleares estratégicos e envolvia a troca de milhares de notificações sobre movimentação de armas, criando transparência e previsibilidade . As inspeções, no entanto, estavam suspensas desde 2020 .
Linha do tempo recente para a expiração
- Fevereiro de 2023: A Rússia suspende sua participação no tratado, em meio à guerra na Ucrânia, mas afirma que continuaria respeitando os limites numéricos .
- Setembro de 2025: O presidente russo, Vladimir Putin, propõe manter os limites do tratado por mais um ano como "período de observação" . Os EUA não deram uma resposta oficial a esta proposta .
- 4-5 de fevereiro de 2026: O New START expira à meia-noite (GMT). Negociações de última hora em Abu Dhabi não produzem um acordo a tempo .
Reações internacionais ao novo cenário
- ONU: O secretário-geral António Guterres alertou que o "risco do uso de uma arma nuclear é o mais alto em décadas" e pediu que EUA e Rússia retomem as negociações "sem demora" .
- Rússia: O Kremlin lamentou a expiração, mas afirmou que age com "responsabilidade e prudência" . O vice-presidente do Conselho de Segurança, Dimitri Medvedev, fez uma provocação ao dizer que "o inverno está chegando" .
- Estados Unidos: O governo Trump ainda não emitiu um comunicado oficial sobre a expiração . O secretário de Estado, Marco Rubio, repetiu que qualquer novo acordo deve incluir a China .
- China: Pediu moderação, mas rejeitou participar de negociações trilaterais, argumentando que seu arsenal nuclear é muito menor que o russo ou americano .
- União Europeia e Vaticano: Apelaram pela moderação de todas as partes. O papa Leão XIV pediu que se evite "uma nova corrida armamentista" .
Consequências e cenários futuros
A expiração não significa uma corrida armamentista imediata, mas remove todas as barreiras legais para uma expansão descontrolada. Especialistas apontam que :
- Transparência some: Sem inspeções e troca de dados, aumenta o risco de erros de cálculo e escalada por desconfiança.
- Pressão financeira: Uma nova corrida armamentista seria extremamente custosa para ambas as potências, especialmente para a Rússia, sob pesadas sanções devido à guerra na Ucrânia .
- O dilema chinês: A exigência dos EUA de incluir Pequim em um futuro tratado cria um impasse. A China está expandindo rapidamente seu arsenal (cerca de 100 novas ogivas por ano) , mas se recusa a negociar limites enquanto seu estoque for muito inferior ao dos outros dois.
- Impacto global: O colapso do principal tratado de desarmamento pode abalar todo o regime de não proliferação nuclear, incentivando outros países a ampliarem seus programas .
O caminho a seguir é incerto. As negociações em Abu Dhabi indicam que pode haver vontade política para um acordo provisório, possivelmente uma extensão de curto prazo . No entanto, a construção de um novo marco duradouro e adaptado ao século XXI – que possivelmente envolveria mais potências e novos tipos de armas – representa um dos maiores desafios diplomáticos e de segurança do nosso tempo .
Com informações de: G1, UN News, El País, The Guardian, NPR, Euronews ■