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Shein no Brasil: o ambicioso plano de produção local que esbarra na resistência da indústria têxtil
Gigante chinesa do fast fashion anunciou investimento bilionário e meta de 2 mil fábricas parceiras, mas enfrenta desconfiança de empresários do setor e disputa por condições comerciais justas
America do Sul
Foto: https://aun.webhostusp.sti.usp.br/wp-content/uploads/rio-lecatompessy-cfDURuQKABk-unsplash.jpg
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■   Bernardo Cahue, 04/02/2026

A Shein, gigante global do fast fashion, traçou um plano ousado para o Brasil: transformar o país em um de seus três principais centros globais de produção, ao lado da China e da Turquia. O projeto, anunciado com grande estardalhaço em 2023, previa um investimento de R$ 750 milhões para capacitar e integrar até 2 mil fabricantes locais à sua cadeia, com a meta de que 85% das vendas no país viessem de produtos locais até o final de 2026. No entanto, esse ambicioso roteiro de "brasileirização" tem encontrado resistência onde mais precisava de adesão: no chão de fábrica da indústria têxtil nacional.

O movimento da Shein foi, em grande parte, uma resposta a pressões regulatórias. Diante do avanço das plataformas internacionais, o governo brasileiro aprovou a chamada "taxa das blusinhas", estabelecendo uma alíquota de 20% de Imposto de Importação para compras internacionais de até US$ 50. A medida, que causou queda de mais de 40% nessas importações em seu primeiro mês de vigência, nivelou parcialmente o campo de jogo entre as varejistas estrangeiras e as nacionais. Para a Shein, a saída foi acelerar a nacionalização. A empresa já conta com um marketplace que representa 55% de suas vendas no Brasil, onde atuam 30 mil vendedores, e afirma que 75% dos produtos dessa vitrine são produzidos localmente.

Por trás dos números otimistas, no entanto, há uma realidade complexa e uma relação tensa com a base industrial. A Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção) é uma das vozes mais críticas. Seu diretor-superintendente, Fernando Valente Pimentel, denuncia uma concorrência desleal histórica: enquanto o setor local enfrenta uma carga tributária que pode chegar a 90%, as importadoras pagavam, até recentemente, apenas 20% de imposto de importação e 17% de ICMS. "Na prática, acabamos subsidiando empregos no exterior", afirma Pimentel. A associação também acusa as plataformas estrangeiras de se beneficiarem de subsídios "não transparentes" de seus governos, que permitem preços artificialmente baixos.

Essa desconfiança se traduz em resistência prática. Apesar de a Shein anunciar parcerias com 336 fábricas em 12 estados brasileiros, a adesão em larga escala esbarra em preocupações dos industriais:

  • Modelo de negócios intrusivo: A Shein oferece treinamento e tecnologia para que as fábricas adotem seu modelo "on-demand" (sob demanda), baseado em inteligência artificial. Peças são lançadas em lotes pequenos (50 a 200 unidades) e a produção é escalada conforme o desempenho de vendas em tempo real. Para muitos fabricantes acostumados a encomendas maiores e planejamento tradicional, essa intromissão na gestão e o acesso total da Shein aos dados de vendas são vistos com reservas.
  • Precariedade na origem: A imagem global da Shein é manchada por constantes denúncias sobre condições de trabalho em sua cadeia principal na China. Investigação da BBC em Guangzhou, o coração produtivo da empresa, revelou trabalhadores cumprindo jornadas de até 75 horas semanais, violando as leis locais, com apenas um dia de folga por mês. Esse histórico gera apreensão entre empresários brasileiros sobre os reais padrões que a empresa pretende implantar aqui.
  • Falta de garantias concretas: Quando questionada sobre como garante que um produto vendido como local utiliza 100% de insumos nacionais, a Shein não fornece uma verificação definitiva, dizendo apenas que faz uma "triagem para entender a procedência". Essa nebulosidade dificulta a construção de confiança.

O fenômeno de resistência à expansão das fast fashion chinesas não é exclusividade brasileira. Países latino-americanos têm adotado medidas similares para proteger sua indústria:

  • México: Implementou tarifas de 35% sobre diversos produtos prontos e restringiu importações via decretos especiais. A Shein, aliás, fechou uma parceria estratégica com o Grupo Carso no país para fortalecer sua infraestrutura local.
  • Colômbia: Adotou em 2022 tarifas de 40% sobre roupas importadas, medida que, segundo o setor, teve efeito positivo na fabricação local.

No Brasil, a Shein tenta contornar as resistências focando em polos têxteis estratégicos. Santa Catarina, responsável por 26% da produção nacional de vestuário, é tratada como "menina dos olhos". A empresa prioriza cidades como Blumenau, Joinville e Brusque, atraída pela proximidade com seu centro de distribuição em São Paulo, o que reduz custos logísticos. A estratégia inclui ainda a expansão do marketplace para vendedores de estados como Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Paraná.

A trajetória da Shein no Brasil exemplifica o dilema da globalização no setor têxtil: de um lado, uma empresa que se oferece para modernizar a produção, gerar empregos e conectar fabricantes a um mercado global. De outro, uma indústria nacional que, após anos sob pressão de importações de baixo custo, questiona os termos dessa integração e exige garantias de uma competição justa e sustentável. O sucesso ou fracasso do plano de a Shein dependerá de sua capacidade não apenas de firmar contratos, mas de construir pontes de confiança com um setor que aprendeu, na prática, a desconfiar de promessas de parceria vindas de gigantes estrangeiros.

Com informações de: Bloomberg Línea, CNN Brasil, G1, Terra, BBC, site corporativo da Shein ■

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