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A Shein, gigante global do fast fashion, traçou um plano ousado para o Brasil: transformar o país em um de seus três principais centros globais de produção, ao lado da China e da Turquia. O projeto, anunciado com grande estardalhaço em 2023, previa um investimento de R$ 750 milhões para capacitar e integrar até 2 mil fabricantes locais à sua cadeia, com a meta de que 85% das vendas no país viessem de produtos locais até o final de 2026. No entanto, esse ambicioso roteiro de "brasileirização" tem encontrado resistência onde mais precisava de adesão: no chão de fábrica da indústria têxtil nacional.
O movimento da Shein foi, em grande parte, uma resposta a pressões regulatórias. Diante do avanço das plataformas internacionais, o governo brasileiro aprovou a chamada "taxa das blusinhas", estabelecendo uma alíquota de 20% de Imposto de Importação para compras internacionais de até US$ 50. A medida, que causou queda de mais de 40% nessas importações em seu primeiro mês de vigência, nivelou parcialmente o campo de jogo entre as varejistas estrangeiras e as nacionais. Para a Shein, a saída foi acelerar a nacionalização. A empresa já conta com um marketplace que representa 55% de suas vendas no Brasil, onde atuam 30 mil vendedores, e afirma que 75% dos produtos dessa vitrine são produzidos localmente.
Por trás dos números otimistas, no entanto, há uma realidade complexa e uma relação tensa com a base industrial. A Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção) é uma das vozes mais críticas. Seu diretor-superintendente, Fernando Valente Pimentel, denuncia uma concorrência desleal histórica: enquanto o setor local enfrenta uma carga tributária que pode chegar a 90%, as importadoras pagavam, até recentemente, apenas 20% de imposto de importação e 17% de ICMS. "Na prática, acabamos subsidiando empregos no exterior", afirma Pimentel. A associação também acusa as plataformas estrangeiras de se beneficiarem de subsídios "não transparentes" de seus governos, que permitem preços artificialmente baixos.
Essa desconfiança se traduz em resistência prática. Apesar de a Shein anunciar parcerias com 336 fábricas em 12 estados brasileiros, a adesão em larga escala esbarra em preocupações dos industriais:
O fenômeno de resistência à expansão das fast fashion chinesas não é exclusividade brasileira. Países latino-americanos têm adotado medidas similares para proteger sua indústria:
No Brasil, a Shein tenta contornar as resistências focando em polos têxteis estratégicos. Santa Catarina, responsável por 26% da produção nacional de vestuário, é tratada como "menina dos olhos". A empresa prioriza cidades como Blumenau, Joinville e Brusque, atraída pela proximidade com seu centro de distribuição em São Paulo, o que reduz custos logísticos. A estratégia inclui ainda a expansão do marketplace para vendedores de estados como Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Paraná.
A trajetória da Shein no Brasil exemplifica o dilema da globalização no setor têxtil: de um lado, uma empresa que se oferece para modernizar a produção, gerar empregos e conectar fabricantes a um mercado global. De outro, uma indústria nacional que, após anos sob pressão de importações de baixo custo, questiona os termos dessa integração e exige garantias de uma competição justa e sustentável. O sucesso ou fracasso do plano de a Shein dependerá de sua capacidade não apenas de firmar contratos, mas de construir pontes de confiança com um setor que aprendeu, na prática, a desconfiar de promessas de parceria vindas de gigantes estrangeiros.
Com informações de: Bloomberg Línea, CNN Brasil, G1, Terra, BBC, site corporativo da Shein ■