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Clientes de bancos liquidados encontram dívidas 'fantasmas' registradas pelo BRB no Banco Central
Problema em carteiras de crédito adquiridas do Master e Will Bank gera cobranças indevidas e prejudica score de consumidores; banco alega falta de informações do liquidante
America do Sul
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■   Bernardo Cahue, 04/02/2026

Um problema envolvendo a compra de carteiras de crédito tem causado transtornos a consumidores em todo o país. Clientes que tinham empréstimos, financiamentos ou parcelas de cartão no Banco Master e no Will Bank — instituições que tiveram a liquidação decretada pelo Banco Central — estão encontrando, em seus nomes, registros de dívidas ativas ou em atraso no Banco Central (BC). A responsável pelos registros é o Banco de Brasília (BRB), que adquiriu esses créditos, mas há casos de débitos já quitados ou que nunca existiram.

A descoberta é feita pelo Registrato, sistema do BC que permite ao cidadão consultar todas as informações que instituições financeiras compartilham sobre ele com o órgão regulador. Os consumidores afetados nunca tiveram conta ou relacionamento direto com o BRB. O vínculo surgiu porque o banco público, controlado pelo Governo do Distrito Federal, vinha adquirindo carteiras de crédito do Banco Master.

O Caminho das Carteiras Problemáticas

O BRB chegou a anunciar um acordo para comprar o Banco Master em março de 2025, mas a operação foi vetada pelo BC em setembro do mesmo ano por considerar os riscos elevados. Antes disso, no entanto, o BRB já havia comprado R$ 12 bilhões em carteiras de crédito do Master. Essas carteiras são alvo da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal, que investiga um suposto esquema de fraudes no qual o Master teria vendido créditos de baixa qualidade ou mesmo fictícios ao banco brasiliense.

Como parte desse emaranhado, para compensar carteiras problemáticas vendidas anteriormente, o Master transferiu novas carteiras ao BRB. Parte desses créditos tinha origem no Will Bank, banco digital que foi adquirido pelo Master em 2024. Com a liquidação extrajudicial de ambas as instituições (Master e Will Bank), o fluxo de informações sobre o pagamento desses créditos se rompeu.

Justificativa do BRB e Responsabilidade Legal

Procurado, o BRB afirmou que o banco que originou o crédito (Will Bank ou Master) é o responsável por acompanhar os pagamentos e repassar os valores. No entanto, após a liquidação, o BRB "deixou de receber do liquidante as informações necessárias" sobre a quitação das dívidas. Por isso, "alguns contratos apareceram como ativos ou inadimplentes... mesmo já tendo sido pagos no banco de origem". O banco diz ter solicitado formalmente os dados ao liquidante e que fará as correções tão logo os receba.

Especialistas, porém, apontam que a responsabilidade final pela precisão dos dados repassados ao BC é do BRB. "O BRB não pode alegar que um terceiro seja responsável pelo registro de dívidas indevidas. O banco precisa fornecer informações corretas ao consumidor", explica Gustavo Kloh, professor da FGV Direito Rio.

A prática de vender carteiras de crédito entre bancos é comum, mas a lei exige que o consumidor seja notificado formalmente sobre a mudança. "A ideia é que o consumidor saiba a quem deve pagar. Sem essa notificação, a cessão não produz todos os seus efeitos", destaca Pedro Ramunno, professor de direito empresarial do Mackenzie.

Impacto Concreto na Vida dos Consumidores

O erro nos registros não é apenas burocrático. Ele já causa prejuízos financeiros reais:

  • Negativação do score: A presença de uma dívida em atraso no sistema do BC prejudica imediatamente a pontuação de crédito do consumidor.
  • Crédito negado: Um dos clientes ouvidos pelas reportagens teve um financiamento imobiliário negado devido a uma pendência de R$ 10 mil registrada indevidamente em seu nome.
  • Explosão de reclamações: O site Reclame Aqui registrou um aumento de 326% nas queixas sobre dívidas desconhecidas no BRB entre agosto-dezembro de 2025, na comparação com o mesmo período de 2024. Só em janeiro de 2026, foram cerca de 100 novos relatos.

Os relatos são semelhantes: "Ao consultar meu histórico financeiro, identifiquei a existência de uma dívida em atraso junto ao Banco BRB no valor de R$ 19.600,07, a qual não reconheço", escreveu um consumidor. Outra pessoa reclamou de uma dívida referente a um saque-aniversário do FGTS que nunca fez, pois nem tinha FGTS.

O Que Fazer se For Afetado?

Especialistas orientam os passos que consumidores na mesma situação devem seguir:

  1. Consultar o Registrato: Acesse o site do Banco Central para confirmar a existência e os detalhes do registro indevido.
  2. Exigir esclarecimentos por escrito: Contate o BRB, abra um protocolo na ouvidoria do banco e solicite informações detalhadas sobre a origem da dívida.
  3. Formalizar a discordância: Caso não reconheça o débito, informe formalmente ao BRB que se trata de uma cobrança indevida e exija a correção imediata nos sistemas do BC.
  4. Buscar os órgãos de defesa: Se não houver solução, é possível recorrer ao Banco Central, ao Procon e, se necessário, à Justiça.

O caso expõe uma falha no processo de liquidação de instituições financeiras e na transferência de carteiras de crédito, com o cidadão comum arcando com as consequências. Enquanto o BRB aguarda dados do liquidante e as investigações da PF sobre as fraudes no Master seguem, milhares de consumidores têm seu nome e sua saúde financeira injustamente prejudicados.

Com informações de: G1, Brasil 247, Reclame Aqui, Portal do Cooperativismo de Crédito ■

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