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ONGs são acusadas de extorquir famílias de detentos por anos na Venezuela
Em meio a um frágil processo de excarcerações no país, denúncias de cobranças por parte de organizações a familiares de presos com promessas de libertação mancham a luta pelos direitos humanos
America do Sul
Foto: https://media.gazetadopovo.com.br/2023/02/01203740/humberto-prado-venezuela.jpg
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■   Bernardo Cahue, 28/01/2026

O cenário dos presos políticos na Venezuela, marcado por anos de denúncias de detenções arbitrárias, tornou-se terreno fértil para a ação de organizações não governamentais (ONGs) que, segundo acusações recentes, extorquiram familiares dos detentos por anos. Essas entidades prometiam, em troca de pagamentos, a inclusão de seus entes queridos em listas de libertação ou uma gestão mais eficaz de seus casos, explorando a dor e o desespero de centenas de famílias.

As acusações foram feitas publicamente por Diosdado Cabello, alto dirigente do partido governista PSUV, que se referiu a algumas ONGs como "centros de extorsão e de chantagem" que cobram dos familiares. Ele alertou as famílias para não caírem neste esquema, afirmando que as decisões de libertação são unilaterais do governo e que tais listas "não existem".

Este contexto de suposta extorsão surge em um momento complexo para os direitos humanos no país. Após a captura do ex-presidente Nicolás Maduro em janeiro de 2026, o governo interino anunciou um processo de excarcerações que tem sido alvo de críticas por sua opacidade e lentidão. Enquanto o governo fala em mais de 800 libertações, organizações da sociedade civil contabilizam números muito menores e denunciam condições degradantes dos presos.

As principais características e denúncias envolvendo o processo de excarcerações e as acusações contra ONGs incluem:

  • Discrepância nas cifras: Até 26 de janeiro de 2026, o Foro Penal, uma das principais ONGs de direitos humanos do país, havia confirmado 266 excarcerações, um número significativamente inferior aos mais de 800 anunciados pelo governo.
  • Condição dos liberados: Muitos presos políticos são libertados em estado de grave deterioração física e psicológica, com sinais de desnutrição, tortura e trauma, e muitas vezes sob ameaças de represálias caso denunciem os maus-tratos sofridos.
  • Limbo jurídico: Aos excarcerados, frequentemente, não são retiradas as acusações, permanecendo com medidas cautelares que os impedem de falar publicamente e sob constante ameaça de serem detidos novamente.
  • Falsas promessas: Familiares, em sua maioria mulheres que sustentam a luta pela liberdade de seus parentes, são alvo de organizações que se oferecem para "agilizar" processos em troca de pagamento.

O perfil das vítimas deste sistema é claro: em grande parte, são mulheres. São mães, esposas e filhas que não só arcam com o sustento da família na ausência do detento, mas também enfrentam filas intermináveis, requisas humillantes e a angústia da incerteza. Para a jornalista Kaoru Yonekura, que investigou o tema, "toda a família fica presa de alguma maneira". Essa vulnerabilidade as torna alvos mais fáceis para esquemas de extorsão.

O panorama geral dos presos políticos no país continua sendo alarmante. Diferentes organizações estimam que, mesmo após as excarcerações, centenas de pessoas permanecem detidas por motivos políticos. O Foro Penal contabilizava 777 casos em janeiro de 2026, enquanto a ONG Justiça, Encontro e Perdão (JEP) falava em 1.041 presos políticos. O governo, por sua vez, nega sistematicamente a existência de presos políticos, afirmando que todos os detidos cometeram crimes comuns.

As acusações de extorsão por parte de ONGs criam um duplo sofrimento para as famílias: além de lidar com a perseguição estatal, precisam navegar em um terreno onde nem todos os que se oferecem para ajudar têm reais intenções. Enquanto isso, a comunidade internacional e as organizações de direitos humanos legítimas seguem exigindo a libertação total e incondicional de todos os presos políticos, reparação para as vítimas e o fim da criminalização da dissidência na Venezuela.

Com informações de: Efecto Cocuyo, Foro Penal, La República, Swissinfo.ch, BBC ■

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