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A morte do autor e roteirista Manoel Carlos, aos 92 anos, no sábado (10), encerra a trajetória de um dos nomes mais influentes da teledramaturgia brasileira. Aclamado por criar personagens femininas marcantes – as “Helenas” – e por sucessos como Laços de Família e Mulheres Apaixonadas, seu legado, no entanto, carrega uma profunda contradição: enquanto era celebrado por humanizar dramas íntimos, suas histórias consolidaram uma visão de mundo elitista, militarizada e alinhada aos valores da direita conservadora.
Manoel Carlos fez do bairro do Leblon muito mais que um cenário; transformou-o em um personagem central de suas tramas. Em declarações, assumia o rótulo de elitista com naturalidade: “Aliás, me chamam de elitista. As minhas novelas são como são por uma razão simples: só escrevo sobre aquilo que vivo diariamente. (…) Escrevo sempre sobre o bairro do Leblon porque vivo aqui”. Essa opção estética reverberou na imagem pública do bairro, apresentado como um “universo da classe média/alta”, um lugar de “casas brancas” e dramas sofisticados.
O Leblon retratado por Manoel Carlos, porém, não era apenas um reduto de artistas e intelectuais. O bairro abriga (e abrigou) uma forte presença militar – com ruas batizadas em homenagem a generais estrangeiros – e foi palco de episódios sombrios da ditadura, como o sequestro e morte do deputado Rubens Paiva, que residia na Avenida Delfim Moreira. Essa faceta militarista e autoritária do Leblon, no entanto, jamais foi problematizada em suas tramas, que preferiam celebrar o “estilo de vida” da elite carioca.
Para além do cenário glamorizado, as novelas de Manoel Carlos frequentemente serviram como caixa de ressonância para críticas a pautas progressistas. Seus personagens – majoritariamente brancos, ricos e moradores da zona sul – emitiam opiniões contrárias a programas sociais, ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e a leis que visavam ampliar direitos de detentos. Essa postura não era acidental; refletia o perfil ideológico do autor e de seu círculo, que via nesses temas uma ameaça à ordem e aos valores tradicionais.
Embora algumas de suas tramas tenham tido impacto social positivo – como a mobilização para doação de medula óssea e a discussão sobre a Lei Maria da Penha –, o conjunto da obra reforçava estereótipos raciais e sociais. Críticas apontam que suas histórias eram “majoritariamente um universo branco, elitizado e zona sul-cêntrico, pouco representativo do Brasil real”, com personagens negros relegados a papéis subalternos e empregadas domésticas retratadas de forma estereotipada.
A sintonia entre o universo ficcional de Manoel Carlos e o projeto político da direita brasileira encontra sua personificação máxima em Regina Duarte. A atriz, que interpretou três Helenas e era considerada a “recordista” do autor, é também uma poderosa pecuarista, casada com o fazendeiro Eduardo Lippincott e criadora de gado da raça Brahman no interior de São Paulo.
Duarte consolidou publicamente seu alinhamento com a agenda conservadora: foi a voz do famoso comercial “Tô com medo” na campanha de 2002 contra Lula, apoiou o impeachment de Dilma Rousseff e tornou-se uma entusiasta declarada de Jair Bolsonaro, a quem chamou de “cara doce”. Em 2020, assumiu o cargo de secretária especial de Cultura no governo Bolsonaro, equiparado a um ministério, onde defendeu cortes de verbas e posicionou-se contra demarcações indígenas. Sua trajetória real espelha, assim, os valores que as Helenas de ficção, muitas vezes, propagavam.
A morte de Manoel Carlos deixa um vazio na dramaturgia brasileira, mas também reacende o debate sobre o papel da teledramaturgia na reprodução de desigualdades e visões de mundo. Seu trabalho, inegavelmente talentoso na construção de personagens e conflitos emocionais, serviu também como um vetor de conservadorismo e elitismo, glorificando um estilo de vida distante da maioria dos brasileiros e sintonizado com os setores mais reacionários da sociedade.
O adeus a Manoel Carlos é, portanto, melancólico não apenas pela perda de um grande contador de histórias, mas pelo reconhecimento de que suas histórias, em muitos aspectos, foram roteiros de uma elite que sempre soube, muito bem, como manter seus privilégios.
Com informações de: gshow.globo.com, anabelamotaribeiro.pt, veja.abril.com.br, gauchazh.clicrbs.com.br, bbc.com■