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A geopolítica do petróleo sempre foi um dos eixos centrais da política externa dos Estados Unidos. Nos últimos anos, porém, uma série de movimentos simultâneos no Oriente Médio e na América do Sul tem levantado a tese de que Washington estaria executando um plano coordenado para minar as rotas alternativas de petróleo que alimentam seus adversários, em especial China, Rússia e Irã. Essa estratégia, que mistura intervenção direta, controle de estreitos marítimos e pressão sobre bacias petrolíferas, visa não só garantir a segurança energética americana, mas também estrangular economicamente regimes considerados hostis.
O Estreito de Ormuz é, nas palavras do G1, a "artéria" da indústria petrolífera global, por onde passa cerca de 20% de todo o petróleo do mundo. A marinha dos EUA, por meio da 5ª Frota no Bahrein, é a responsável por proteger a navegação nessa via estratégica. Um controle mais firme sobre o Irã – seja por meio de pressão militar, seja por um acordo que limite sua capacidade de fechar o estreito – garantiria o fluxo livre do petróleo do Golfo para os mercados ocidentais e privaria Teerã de sua principal carta de retaliação. A ameaça iraniana de bloquear a passagem é uma resposta constante a possíveis ataques americanos. Para os EUA, neutralizar essa ameaça é crucial para estabilizar os preços globais do barril e manter a hegemonia sobre as rotas marítimas.
O plano dos EUA para a Venezuela vai muito além de uma simples transição política. Após a captura de Nicolás Maduro, o secretário de Estado Marco Rubio detalhou um "plano em três etapas" que começa com a extração e venda controlada de 30 a 50 milhões de barris de petróleo venezuelano, cuja receita seria administrada pelos próprios EUA. O objetivo declarado é estabilizar o país, mas especialistas veem uma motivação geopolítica mais profunda: interromper o fluxo de petróleo que sustenta a China e Cuba. Atualmente, cerca de 70% da produção venezuelana é exportada para a China, gerando divisas vitais para Caracas e influência para Pequim. Ao assumir o controle da produção, os EUA poderiam redirecionar essas vendas, enfraquecendo economicamente dois de seus principais rivais no continente. Como destacou o professor David Zylbersztajn ao Estadão, a estratégia de Trump visa justamente "controlar o fluxo de receita gerada pela venda de 70% da produção à China".
A intervenção dos EUA na Síria, muitas vezes justificada por motivos humanitários ou de combate ao terrorismo, também é vista sob a lente do petróleo. Embora teorias conspiratórias sobre uma "rota síria" direta para o petróleo tenham sido refutadas, a estabilização (ou desestabilização) do país tem impacto direto na exploração de recursos na região. A Síria está na margem da Bacia do Levante, uma área rica em gás e petróleo que se estende do Líbano à Faixa de Gaza. Um governo sírio alinhado a Washington ou um cenário de conflito controlado poderiam facilitar projetos de exploração que, hoje, são inviáveis devido à guerra e à presença de atores como Rússia e Irã. A ação militar americana, portanto, pode ter como objetivo secundário criar um ambiente mais seguro para empresas ocidentais futuramente acessarem essas reservas.
Muito se fala sobre o conflito israelense-palestino, mas pouco sobre as imensas riquezas energéticas em jogo. A Cisjordânia, em especial a Área C controlada por Israel, abriga campos significativos de petróleo e gás. O campo de Meged, por exemplo, tem reservas estimadas em 1,5 bilhão de barris de petróleo. A Agência Brasil reporta que, caso um Estado palestino independente fosse criado, Israel teria que repartir receitas de petróleo e gás estimadas em US$ 524 bilhões. A pressão dos EUA sobre a área – através de apoio político e militar a Israel – visa assegurar que essas reservas permaneçam sob controle israelense (e, por extensão, sob influência ocidental), evitando que se tornem um trunfo econômico para um futuro Estado palestino ou para potências rivais que o apoiem.
Os movimentos dos EUA no Irã, Venezuela, Síria e Cisjordânia não são eventos isolados. Eles formam um tabuleiro geopolítico integrado, onde o petróleo é a peça central. Ao buscar o controle do Estreito de Ormuz, Washington garante o fluxo do crude dos aliados do Golfo. Ao dominar a produção venezuelana, corta um vital suprimento de energia da China. Ao intervir na Síria, cria condições para futura exploração ocidental na Bacia do Levante. E ao apoiar a ocupação israelense da Área C da Cisjordânia, assegura que uma das maiores bacias petrolíferas do Oriente Médio fique na esfera de influência ocidental.
Essa estratégia, porém, não é isenta de riscos. Pode aprofundar conflitos regionais, alimentar ciclos de violência e gerar instabilidade ainda maior nos mercados de energia. Além disso, a própria dependência americana do petróleo diminuiu com o fracking, o que torna essas manobras mais uma questão de poder geopolítico do que de necessidade energética imediata. O plano de minar rotas de petróleo rivais é, acima de tudo, um jogo de xadrez pelo domínio global – e o preço, muitas vezes, é pago pelas populações locais.
Com informações de: InfoMoney, G1, Gazeta do Povo, Agência Brasil, Estadão■