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Netanyahu e o Messias: uma análise da profecia como instrumento político
Em meio a teorias sobre a morte do premiê, ressurge a antiga crença de que ele seria o último líder de Israel antes da era messiânica; especialistas apontam como a narrativa religiosa sempre foi usada para legitimar projetos políticos de extrema-direita
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■   Bernardo Cahue, 19/03/2026

A perplexidade tomou conta das redes sociais e de parte da imprensa internacional nas últimas semanas. Desde o dia 12 de março, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu não convoca uma coletiva de imprensa formal, alimentando todo tipo de especulação — a mais extrema delas, como noticiamos anteriormente, sugere que ele estaria morto e que suas aparições seriam geradas por inteligência artificial. No entanto, uma questão teológica de fundo emerge deste cenário de desinformação e aguarda uma análise mais profunda: se Netanyahu morreu e era, como profetizado por alguns, o último primeiro-ministro de Israel, onde está o Messias prometido? Estaríamos diante do fim do estado judeu?

A pergunta, que à primeira vista pode parecer um exercício de especulação conspiratória, toca em um nervo exposto da política israelense e de sua complexa relação com o messianismo judaico. Para compreender a dimensão do que está em jogo, é preciso investigar como a figura de Netanyahu foi deliberadamente envolvida em uma aura profética por setores religiosos e como ele próprio, em momentos cruciais, alimentou essa narrativa para consolidar seu poder e justificar ações de guerra.

O Rebe, o cetro e a profecia reativada
A origem da crença de que Netanyahu seria o último primeiro-ministro antes da chegada do Messias remonta a um encontro ocorrido há mais de três décadas. No início dos anos 1990, durante uma campanha eleitoral, o então jovem político Benjamin Netanyahu encontrou-se com o rabino Menachem Mendel Schneerson, o influente líder do movimento Chabad-Lubavitch, conhecido como "O Rebe". Na ocasião, Schneerson teria dito a Netanyahu que ele se tornaria primeiro-ministro e que seria o responsável por "passar o cetro" ao Messias. A profecia caiu no esquecimento quando seu primeiro governo caiu em 1999, mas foi resgatada com força total após seu retorno ao poder em 2009 e, principalmente, a partir de 2022, quando o país mergulhou em uma crise política e, logo depois, na guerra contra o Hamas.

A autoconstrução do "Rei Bibi" e do profeta
O que era uma crença de nicho tornou-se, com o tempo, parte do "branding" político de Netanyahu. Analistas de comunicação política israelenses apontam que o premiê cultiva cuidadosamente uma imagem messiânica diante de sua base de apoiadores e da facção messiânica em sua coalizão. Apelidos como "Rei Bibi" não são apenas uma demonstração de popularidade, mas carregam um peso simbólico profundo em uma cultura que aguarda um rei messiânico da linhagem de Davi.

Uma reportagem do site israelense The Seventh Eye detalha como Netanyahu vem sistematicamente "reescrevendo a história" para se posicionar não apenas como um líder, mas como um visionário e até mesmo um profeta. A chamada "lenda do segundo dia" é o exemplo mais contundente: Netanyahu alega repetidamente que, logo no segundo dia da guerra (9 de outubro de 2023), já previa que iria "mudar a face do Oriente Médio", prevendo a queda do Hamas, do Hezbollah e o confronto com o Irã. A análise dos fatos, no entanto, mostra um líder "pálido e aterrorizado" nos primeiros dias do conflito, cujo mundo havia desabado, e que contava com a ajuda internacional para evitar o colapso de Israel. Essa autoproclamação de uma capacidade quase profética serve para desviar o foco do fracasso colossal de inteligência e segurança de 7 de outubro e para construir a narrativa de uma "vitória absoluta" predestinada.

O Terceiro Templo e a aceleração do Apocalipse
Para compreender o que significa a "era messiânica" no contexto atual, é preciso olhar para o movimento "aceleracionista" que ganhou força no governo Netanyahu e entre seus aliados. A crença central é que a reconstrução do Terceiro Templo Judaico no local onde hoje estão o Domo da Rocha e a Mesquita de Al-Aqsa, em Jerusalém, é um pré-requisito para a vinda do Messias. Esse desejo não é apenas uma fantasia teológica distante. Grupos como o Temple Institute recebem financiamento do governo israelense e já prepararam mais de 90 objetos rituais para o novo templo, incluindo um menorá de ouro e vestes sacerdotais.

O elo entre a profecia e a política prática se materializa em um elemento que parece saído de um ritual antigo: a vaca vermelha. Em setembro de 2022, cinco novilhas vermelhas foram trazidas dos Estados Unidos para Israel, financiadas por cristãos evangélicos sionistas, com o objetivo de produzir as cinzas rituais que, segundo o livro de Números, são necessárias para purificar os sacerdotes e permitir o reinício dos sacrifícios animais no local do templo. A municipalidade de Jerusalém já patrocinou "ensaios" de sacrifícios rituais em frente à mesquita. Para os muçulmanos, a Mesquita de Al-Aqsa é o terceiro local mais sagrado do Islã. Qualquer tentativa de violar o local ou construir o templo é vista como uma declaração de guerra santa, capaz de incendiar não apenas a região, mas todo o mundo islâmico.

Os parceiros cristãos e o fascismo do fim dos tempos
O apoio fundamental para que essas profecias judaicas saiam do papel vem de um grupo inesperado: cristãos evangélicos fundamentalistas, especialmente nos Estados Unidos. Essa corrente teológica, conhecida como dispensacionalismo ou sionismo cristão, interpreta a Bíblia de forma a acreditar que a volta de Jesus (o "verdadeiro" Messias para eles) depende do cumprimento de uma série de eventos, incluindo a construção do Terceiro Templo, uma guerra apocalíptica (o Armagedom) e a conversão ou destruição dos judeus.

Para esses grupos, "quanto pior, melhor". A crise é um sinal de que o fim está próximo. Figuras de destaque como o Secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, já declararam publicamente que "não há razão para impedir o milagre da recolocação do templo no Monte do Templo". Essa aliança pragmática entre judeus aceleracionistas e cristãos apocalípticos, que as escrituras chamam de "fascismo do fim dos tempos", visa desencadear uma catástrofe que, acreditam, purificará o mundo para o reinado divino.

O fim de Israel?
Se a profecia do Rebe se cumprisse literalmente, e Netanyahu fosse de fato o último primeiro-ministro, o que viria depois? A resposta, analisada sob a ótica das diferentes correntes teológicas, revela destinos opostos para o Estado de Israel.

  • Para o judaísmo messiânico tradicional: A era messiânica representa a redenção final de Israel. Seria um período de paz universal, reconstrução do Templo e reunião de todos os judeus na Terra de Israel. O Estado, como o conhecemos, não acabaria, mas seria aperfeiçoado e elevado a um plano divino sob o governo do Messias. O "fim" seria apenas o fim do exílio e do sofrimento.
  • Para o sionismo cristão (dispensacionalista): A história tem um roteiro diferente. Após a construção do Templo, o Anticristo (que muitos acreditam ser uma figura política) surgirá, fará um pacto com Israel e depois o trairá, profanando o Templo e desencadeando a Grande Tribulação. Nesse cenário, Israel será invadido por todas as nações e a maior parte de sua população será massacrada. O Estado de Israel, como entidade política, será devastado, e apenas um remanescente de judeus se salvará ao se converter a Cristo. Ou seja, para essa corrente, o fim do atual Estado de Israel é um pré-requisito para o retorno de Jesus.

A retórica do extermínio como mandato divino
A preocupação com a penetração dessas crenças no alto escalão do governo israelense não é teórica. Em declarações públicas, Netanyahu já recorreu a mandatos bíblicos de extermínio para justificar a guerra em Gaza. Ao ordenar que as tropas "lembrassem o que Amalek fez a vocês", ele evocou a passagem bíblica em que Deus ordena ao rei Saul que destrua completamente a nação de Amalek, matando homens, mulheres, crianças e animais. Ao mapear os palestinos ou o Hamas sobre o bíblico Amalek, o conflito é elevado de uma contrainsurgência secular a um mandamento divino de erradicação.

A pergunta que permanece
Diante de todo esse contexto, a pergunta "onde está o Messias?" revela-se uma armadilha. A ausência de qualquer figura messiânica após a suposta morte de Netanyahu (que, insista-se, não tem qualquer comprovação factual) não invalida as profecias para os crentes; ao contrário, reforça a narrativa de que ainda há muito a sofrer e lutar antes da redenção. O que a análise demonstra é que a crença em um desfecho apocalíptico — seja ele a vinda do Messias judeu ou a segunda vinda de Cristo — tornou-se, nas mãos de líderes políticos e religiosos, um poderoso combustível para a guerra e para a desinformação.

O silêncio de Netanyahu desde 12 de março, portanto, não é apenas uma lacuna na comunicação oficial, mas um vácuo que é rapidamente preenchido por séculos de espera messiânica e por décadas de construção de uma imagem política que flerta deliberadamente com o divino. Se Netanyahu é ou não o último primeiro-ministro, só o futuro (ou a fé) dirá. Mas o que os fatos já mostram é que a teologia messiânica, há muito tempo, deixou de ser apenas uma questão de fé para se tornar uma peça central na geopolítica do Oriente Médio.

Com informações de Outras Palavras, The Seventh Eye, Israel Today, O Fuxico Gospel, US Message Board, Editora Ultimato, Comunhão, Notícias Adventistas, Opinion Nigeria ■

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