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O Plano dos EUA para a Venezuela pós-ataque
Após operação militar que prendeu Maduro, governo Trump anuncia acordo para comercializar petróleo venezuelano e obriga Caracas a gastar receita exclusivamente com bens norte-americanos, em movimento que redefine a geopolítica energética das Américas
America do Sul
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■   Bernardo Cahue, 08/01/2026

A intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela, que no último sábado (3/1) resultou na captura do presidente Nicolás Maduro e em dezenas de mortes, deu início a uma transformação radical na política e na economia do país. Nos dias seguintes, o governo de Donald Trump detalhou um plano que vai muito além de uma mudança de regime: os EUA assumirão o controle direto sobre a comercialização do petróleo venezuelano por tempo "indeterminado" e determinam que a receita obtida seja usada pela Venezuela apenas para comprar produtos manufaturados nos Estados Unidos. Este acordo, negociado com o governo interino de Delcy Rodríguez, representa uma reconfiguração profunda das relações bilaterais e um passo ousado na estratégia de Washington para a região e para o mercado global de energia.

A Operação Militar e a Nova Realidade Política

A ação das forças especiais americanas em Caracas não apenas removeu Maduro do poder, como estabeleceu uma nova correlação de forças. O ataque, descrito por autoridades venezuelanas, deixou pelo menos 100 mortos e um número semelhante de feridos, incluindo a esposa de Maduro, Cilia Flores. Com Maduro preso e levado para os EUA para enfrentar acusações de narcotráfico, a ex-vice-presidente Delcy Rodríguez foi empossada como líder interina. Rodríguez, que também está sob sanções americanas, reconheceu que o ataque deixou "uma mancha" histórica nas relações entre os países, mas defendeu a normalidade das relações comerciais com Washington. Para o secretário de Estado Marco Rubio, o plano dos EUA se divide em três fases claras: estabilização, recuperação e transição política.

Os Termos do Acordo Petrolífero

O cerne do novo entendimento é o controle norte-americano sobre as vastas reservas de petróleo da Venezuela, as maiores do mundo. Os principais pontos do acordo são:

  • Volume e Valor: A Venezuela fornecerá inicialmente entre 30 e 50 milhões de barris de petróleo bruto armazenado, com valor estimado em até US$ 2,8 bilhões aos preços atuais de mercado. Esse volume equivale a cerca de um a dois meses da produção atual do país.
  • Controle Total das Vendas: O secretário de Energia dos EUA, Chris Wright, afirmou que o governo americano será o responsável por comercializar o petróleo venezuelano no mercado global "indefinidamente". As vendas serão conduzidas por traders globais de commodities como Vitol e Trafigura.
  • Gestão da Receita: Todo o dinheiro das vendas será depositado em contas controladas pelo governo dos EUA em bancos internacionais. Só depois será liberado para a Venezuela, com Washington decidindo o momento e a forma da distribuição, supostamente para "beneficiar o povo venezuelano".
  • Apreensão de Ativos: Para fazer valer seu controle, os EUA apreenderam nesta semana dois navios petroleiros (o Marinera e o M/T Sofia) que transportavam petróleo venezuelano sancionado, um deles com bandeira russa.

A "Troca Forçada": Petróleo por Produtos Americanos

Um dos elementos mais incomuns do acordo é a condição imposta por Washington sobre o uso da receita. Em uma publicação na rede Truth Social, o presidente Trump anunciou que foi "informado de que a Venezuela vai comprar APENAS Produtos Fabricados nos EUA" com o dinheiro do petróleo. Segundo ele, as compras incluirão:

  • Produtos agrícolas
  • Medicamentos e equipamentos médicos
  • Equipamentos para melhorar a rede elétrica e as instalações de energia do país

Trump descreveu o acordo como "uma escolha sensata e algo muito positivo para o povo da Venezuela e dos Estados Unidos". O vice-presidente JD Vance foi mais direto ao explicar a lógica: "Controlamos os recursos energéticos, e dizemos ao regime: você tem permissão para vender o petróleo contanto que sirva ao interesse nacional da América".

Contexto Geopolítico e Objetivos dos EUA

Este movimento faz parte de uma estratégia mais ampla. Especialistas apontam que, ao controlar o petróleo venezuelano, os EUA buscam:

  1. Reduzir a influência chinesa: A China é o principal comprador do petróleo venezuelano há uma década. O acordo desviará fornecimentos que antes iam para o país asiático.
  2. Controlar os preços globais: Dominar uma das maiores reservas do mundo dá a Washington um poder significativo para influenciar a oferta e os preços internacionais.
  3. Beneficiar a indústria doméstica: O petróleo pesado venezuelano é ideal para as refinarias da Costa do Golfo dos EUA. Um maior fluxo pode reduzir os preços da gasolina para o consumidor americano e controlar pressões inflacionárias.
  4. Abrir espaço para empresas norte-americanas: Trump já declarou que quer que as "gigantescas companhias petrolíferas dos EUA" entrem no país para consertar a infraestrutura e gerar lucro. Uma reunião na Casa Branca com executivos do setor está marcada para esta sexta-feira (9/1).

Reações e Críticas

O plano tem gerado reações intensas. Nos EUA, o senador democrata Chris Murphy chamou a estratégia de "insana" e acusou a administração Trump de "propor roubar o petróleo da Venezuela à força para sempre". Do lado venezuelano, a PDVSA emitiu um comunicado afirmando que as negociações com os EUA seguem termos comerciais semelhantes aos vigentes com parceiros como a Chevron, buscando passar uma imagem de normalidade. A Rússia, cujo navio foi apreendido, acusou Washington de violar o direito marítimo internacional.

Implicações e Futuro Incerto

As consequências deste acordo forjam um novo capítulo para a Venezuela e a região:

  • Para a Venezuela: O país perde a soberania sobre sua principal riqueza natural. Apesar da promessa de que os recursos beneficiarão seu povo, o controle financeiro total é dos EUA. A reconstrução da indústria petrolífera, que produz apenas 1 milhão de barris/dia apesar de suas gigantescas reservas, exigirá dezenas de bilhões de dólares e mais de uma década.
  • Para a América Latina: A ação pode acelerar uma nova dinâmica petrolífera na região, com países como Guiana (onde atuam Exxon e Chevron), Argentina e Brasil vendo mudanças no fluxo de investimentos e concorrência.
  • Para a Ordem Global: O movimento estabelece um precedente dramático de intervenção e controle econômico direto, sinalizando uma era de política exterior norte-americana mais assertiva e unilateral sob um possível novo mandato de Trump.

O tempo dirá se essa "troca" forçada trará a estabilidade prometida ou aprofundará as tensões em um país já profundamente ferido, enquanto os EUA consolidam seu domínio sobre uma das chaves energéticas do planeta.

Com informações de: BBC, G1, The Guardian, Euronews, Politico, Público, Deutsche Welle (DW)■

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