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Suprema Corte da Venezuela determina sucessão de poder após captura de Maduro
Decisão judicial ordena que vice-presidente Delcy Rodríguez assuma o cargo interinamente, enquanto governo Trump declara intenção de "administrar" o país; crise expõe conflito jurídico e geopolítico
America do Sul
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■   Bernardo Cahue, 04/01/2026

Em resposta à captura do presidente Nicolás Maduro por forças dos Estados Unidos, o Tribunal Supremo de Justiça (TSJ) da Venezuela ordenou, no sábado (3), que a vice-presidente Delcy Rodríguez assuma interinamente a presidência da República. A decisão tem como objetivo garantir a "continuidade administrativa e a defesa integral da Nação" diante da ausência forçada do mandatário. O tribunal interpretou a ausência como temporária, estabelecendo que Rodríguez exercerá as funções por um período de até 90 dias, prorrogável por mais três meses pelo Parlamento.

A medida judicial ocorre em um cenário de extrema tensão, horas após uma operação militar norte-americana de grande escala em Caracas e outros pontos do país, que resultou na detenção de Maduro e de sua esposa, Cilia Flores. Os dois foram levados para Nova York, onde enfrentam acusações federais por narcoterrorismo e tráfico de drogas.

Narrativas em Conflito: Resistência versus Colaboração

Enquanto a ordem do TSJ busca estabilizar a sucessão de poder internamente, as declarações dos envolvidos pintam quadros radicalmente opostos:

  • Posição Venezuelana: Em pronunciamento televisivo, Delcy Rodríguez classificou a captura de Maduro como um "sequestro ilegal e ilegítimo" e uma violação do direito internacional. Ela foi enfática ao afirmar: "Há apenas um presidente neste país, e seu nome é Nicolás Maduro Moros". Rodríguez também informou que ativou o Conselho de Defesa da Nação e encaminhou ao TSJ um decreto de "conmoción exterior" (estado de comoção externa), assinado previamente por Maduro, que concederia poderes especiais para mobilizar a força armada e tomar o controle de infraestruturas críticas.
  • Posição Norte-Americana: O presidente Donald Trump, em coletiva de imprensa, declarou que os Estados Unidos "administrarão" a Venezuela até que uma transição segura e adequada seja concluída. Surpreendentemente, Trump afirmou que o secretário de Estado, Marco Rubio, conversou com Delcy Rodríguez e que ela estaria "disposta a fazer o que for preciso". Essa versão foi diretamente contradita pelo discurso de Rodríguez, que convocou a população a defender a soberania nacional.

Operação Militar e seus Antecedentes

A captura de Maduro, batizada de "Operação Firmeza Absoluta" pelos EUA, é o ápice de meses de escalada nas tensões. De acordo com o general Dan Caine, chefe do Estado-Maior Conjunto americano, a ação envolveu mais de 150 aeronaves e desmantelou sistemas de defesa aérea venezuelanos. Um helicóptero americano teria sido atingido, mas todas as aeronaves retornaram à base.

Os antecedentes incluem:

  1. Indiciamento: Maduro era procurado pela justiça americana desde 2020, acusado de liderar uma organização narcoterrorista.
  2. Escalada Militar: A partir de setembro de 2025, os EUA iniciaram uma série de ataques a embarcações suspeitas de tráfico de drogas na região, com mais de 110 mortes reportadas.
  3. Movimentação de Tropas: Nos meses anteriores, Washington enviou navios, jatos e um submarino nuclear ao Caribe.

Questões Jurídicas e Reações Internacionais

A ação americana e a declaração de Trump sobre governar a Venezuela geram sérias questões de legalidade internacional. Especialistas argumentam que a captura de um chefe de Estado em seu território, sem consentimento ou mandado do Conselho de Segurança da ONU, configura uma violação da Carta das Nações Unidas. Rebecca Ingber, ex-advogada do Departamento de Estado dos EUA, afirmou que a pretensão de governar o país "soa como uma ocupação ilegal".

As reações globais foram divididas:

  • Críticas: Líderes de Brasil, México, Colômbia e Chile, além da União Europeia, condenaram a violação da soberania venezuelana. O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva classificou o ataque como "inaceitável" e um "precedente perigoso".
  • Apoio: O presidente argentino, Javier Milei, celebrou a ação como um "avanço da liberdade".

Futuro Incerto e Implicações Regionais

O cenário imediato permanece altamente instável e indefinido. Analistas apontam que a operação representa um divisor de águas na política externa americana e um marco na erosão do multilateralismo no pós-Guerra. Internamente, o regime chavista tenta manter a coesão, com Rodríguez reunindo ministros e a cúpula militar em um conselho de defesa.

As ambições de Trump, no entanto, vão além da mudança de regime. Ele vinculou explicitamente a intervenção aos recursos petrolíferos venezuelanos, prometendo que empresas americanas investiriam "milhares de milhões" para reconstruir a infraestrutura do setor. Esta crise, iniciada com uma ordem da Suprema Corte venezuelana, abre assim um novo e imprevisível capítulo nas relações interamericanas, com profundas consequências para a estabilidade regional.

Com informações de: G1, O Globo, BBC, CNN Brasil, CNN Español, UOL, Estadão, Infobae ■

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