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Nobel da Paz confirma fuga clandestina da Venezuela com ajuda dos EUA
Após mais de um ano escondida, María Corina Machado detalha operação secreta para receber prêmio em Oslo e promete retornar ao país
America do Sul
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■   Bernardo Cahue, 11/12/2025

Em uma coletiva de imprensa realizada em Oslo, na Noruega, a líder da oposição venezuelana e vencedora do Prêmio Nobel da Paz de 2025, María Corina Machado, confirmou nesta quinta-feira (11) que recebeu ajuda do governo dos Estados Unidos para fugir clandestinamente da Venezuela. A viagem, descrita como de "extremo risco", foi necessária para que ela pudesse receber a premiação pessoalmente, já que o regime de Nicolás Maduro a havia proibido de sair do país desde 2014 e a ameaçou de prisão caso viajasse.

Machado, de 58 anos, vivia na clandestinidade desde agosto de 2024, após as eleições presidenciais contestadas. A operação para sua saída do país foi minuciosamente planejada e executada com sigilo absoluto, a ponto de nem mesmo o Comitê do Nobel saber se ela chegaria a tempo da cerimônia.

Os detalhes da operação secreta

Relatos publicados pelo jornal americano The Wall Street Journal e confirmados por outras fontes detalham uma fuga digna de cinema:

  • Disfarce e estrada: Machado usou uma peruca e um disfarce para deixar seu esconderijo em Caracas. Em uma jornada terrestre tensa, ela passou por 10 postos de controle militar sem ser detectada.
  • Fuga pelo mar: Após 10 horas de estrada, ela chegou a uma vila de pescadores no litoral. De lá, embarcou antes do amanhecer em um "típico barco de pesca de madeira" para cruzar o Mar do Caribe até a ilha de Curaçao, enfrentando ventos fortes e mar agitado.
  • Apoio americano: Sua rede de apoio alertou as Forças Armadas dos EUA sobre a viagem do barco para evitar que a embarcação fosse confundida com um alvo e bombardeada. Enquanto ela cruzava o Caribe, caças F-18 americanos sobrevoavam o Golfo da Venezuela em uma mostra de força.
  • Última etapa: Em Curaçao, ela foi recebida por um agente contratado pelo governo Trump e, no dia seguinte, partiu para a Noruega em um jato executivo.

Reencontro familiar e críticas ao regime

Apesar de chegar a Oslo algumas horas após a cerimônia oficial (quando sua filha, Ana Corina Sosa, aceitou o prêmio em seu nome), Machado teve um momento profundamente emocionante: o reencontro com seus três filhos, após mais de dois anos separada. "Abracei os três ao mesmo tempo e foi um dos momentos espirituais mais extraordinários da minha vida", declarou.

Em seus discursos, a laureada foi enfática ao denunciar o governo Maduro. Ela classificou a Venezuela como um "polo do crime das Américas", acusando o regime de ser sustentado por tráfico de drogas, de pessoas e pela venda clandestina de petróleo, além de abrigar grupos como o Hezbollah e cartéis colombianos. Questionada sobre uma possível intervenção militar estrangeira, Machado argumentou que o país "já foi invadido" por essas organizações criminosas com a conivência do governo.

Simbolismo e controvérsia

A rota escolhida para a fuga carrega um peso simbólico potente. Machado seguiu o mesmo caminho perigoso de milhares de migrantes venezuelanos que fogem da crise em frágeis embarcações. Analistas veem nisso uma tentativa de solidificar sua imagem como uma líder que compartilha os riscos e experiências do povo.

Entretanto, sua estreita associação com o governo Trump e seu endosso às ações militares americanas na região geram controvérsia. Enquanto em Oslo alguns a recebiam com aplausos, outros protestavam com cartazes que diziam "No Peace Prize for Warmongers" ("Nenhum Nobel da Paz para Belicistas"). O governo venezuelano, por sua vez, classificou a apreensão de um petroleiro por tropas americanas na quarta-feira como um "ato de pirataria internacional".

O futuro: a promessa de retorno

A grande questão que se coloca agora é sobre seu futuro. Machado foi categórica: "É claro que vou voltar". Ela afirmou à BBC saber "exatamente os riscos" que está assumindo, mas que levará o prêmio Nobel de volta à Venezuela "no momento adequado".

Especialistas divergem sobre as consequências do exílio. Alguns temem que, fora do país, ela possa perder relevância política, um destino comum a outros líderes oposicionistas. Outros, no entanto, acreditam que sua legitimidade, construída em anos de resistência interna, e a plataforma global conferida pelo Nobel podem fortalecer sua campanha por uma transição democrática. Seu retorno prometido, no entanto, representa um enorme risco, dado que o regime já a declarou "fugitiva" e a acusa de crimes como terrorismo e conspiração.

Com informações de: G1, NBC News, CNN Brasil, BBC, Washington Post, O Globo, The Guardian, CNN Portugal, CNN ■

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