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Barco alvo de polêmico ataque dos EUA se dirigia ao Suriname, e não aos Estados Unidos
Informação de almirante contradiz justificativa inicial da Casa Branca e amplia escrutínio sobre operação que matou 11 pessoas em setembro
America do Sul
Foto: https://img-s-msn-com.akamaized.net/tenant/amp/entityid/AA1RAcIy.img?w=768&h=432&m=6
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■   Bernardo Cahue, 06/12/2025

Um barco alegadamente envolvido no tráfico de drogas e destruído por forças dos Estados Unidos em setembro tinha como destino final o Suriname, um pequeno país da América do Sul, e não os Estados Unidos. A revelação foi feita pelo almirante Frank Bradley a parlamentares americanos e coloca em xeque a narrativa oficial usada para justificar o ataque, que incluiu um controverso "double-tap strike" — um segundo ataque deliberado minutos após o primeiro.

Em briefings realizados na quinta-feira para comitês do Congresso, o almirante Bradley, que comandava o Comando de Operações Especiais Conjuntas na época, detalhou que, segundo inteligência americana, a embarcação alvejada planejava um "encontro" no mar com um navio maior que seguiria para o Suriname. As forças militares, no entanto, não conseguiram localizar essa segunda embarcação. Bradley argumentou aos legisladores que ainda havia o risco de a droga, a partir do Suriname, eventualmente chegar ao território americano, justificando assim o ataque mesmo com o destino imediato diferente.

Contradições na inteligência e nas declarações oficiais

Os novos detalhes entram em conflito direto com declarações públicas de autoridades do governo Trump. No dia do ataque, em 2 de setembro, o presidente Donald Trump afirmou em uma rede social que a ação ocorreu "enquanto os terroristas estavam no mar em águas internacionais transportando narcóticos ilegais, rumo aos Estados Unidos". Anteriormente, o secretário de Estado, Marco Rubio, havia dito à imprensa que o barco estava "provavelmente indo para Trinidad ou algum outro país do Caribe".

Além disso, a informação de que a rota pelo Suriname é primariamente usada para o mercado europeu complica a justificativa de uma ameaça iminente aos EUA. Oficiais da agência de combate às drogas dos EUA (DEA) afirmam que as rotas de tráfico com destino ao território americano têm se concentrado no Oceano Pacífico nos últimos anos.

A sequência letal: quatro ataques e sobreviventes alvejados

O almirante Bradley também descreveu a sequência precisa do ataque, que resultou na morte de 11 pessoas:

  1. O primeiro ataque partiu o barco ao meio, matou nove pessoas e deixou dois sobreviventes agarrados a uma parte da embarcação virada.
  2. Minutos depois, um segundo ataque foi realizado, seguido por um terceiro e um quarto.
  3. Esses ataques subsequentes mataram os dois sobreviventes e afundaram os destroços do barco.

Bradley admitiu que o barco havia mudado de direção antes de ser atingido, aparentemente porque as pessoas a bordo viram a aeronave americana no ar. Fontes presentes ao briefing relataram que, no vídeo da operação, os sobreviventes acenavam para algo no ar, mas não está claro se estavam se rendendo ou pedindo ajuda. O representante democrata Jim Himes, que viu as imagens, descreveu-as como "uma das coisas mais preocupantes que já vi no meu tempo no serviço público", mostrando "dois indivíduos em claro desespero".

O debate sobre a ordem e a responsabilidade

O papel do secretário de Defesa, Pete Hegseth, no segundo ataque tem sido um ponto central de escrutínio. Bradley disse aos legisladores que Hegseth não deu a ordem específica para o ataque que matou os sobreviventes. De acordo com as fontes, Hegseth deixou claro antes do início da missão que os ataques deveriam ser letais, mas não foi informado sobre a existência dos sobreviventes até depois de eles terem sido mortos.

Entretanto, Bradley compreendeu que o objetivo da missão era matar todas as 11 pessoas a bordo e afundar o barco. Uma autoridade americana ressaltou que a ordem não foi especificamente para "matar todos sem dar quartel" — uma instrução ilegal que nega a possibilidade de rendição. Legisladores, como o senador independente Angus King, demandam mais esclarecimentos sobre os movimentos de Hegseth no momento crítico: "Quero ver a agenda dele naquele dia. Quero saber para que reunião ele foi".

Questionamentos legais e a sombra de crime de guerra

A prática do "double-tap strike" é alvo de intenso debate legal internacional. Um artigo da Florida Law Review argumenta que a tática provavelmente constitui um crime de guerra, pois viola grosseiramente as Convenções de Genebra, que proíbem alvejar civis, feridos e aqueles que não podem mais continuar lutando. O manual militar do Pentágono sobre a lei da guerra define como criminoso matar náufragos — pessoas "necessitadas de assistência e cuidado" e que "devem se abster de qualquer ato hostil".

Embora a maioria dos republicanos apoie a campanha militar mais ampla de Trump no Caribe, o segundo ataque em 2 de setembro atraiu escrutínio bipartidário. O Comitê de Serviços Armados do Senado prometeu conduzir uma fiscalização sobre o caso.

Repercussão política e o futuro da investigação

A revelação sobre o destino do barco para o Suriname adiciona um novo elemento à controvérsia política. A Casa Branca, que inicialmente atacou relatos sobre um segundo ataque como "fabricados", depois confirmou que ele ocorreu e atribuiu a decisão ao almirante Bradley, ao mesmo tempo em que o chamou de "herói americano" e defendeu sua "decisão correta".

O resultado do briefing no Congresso foi dividido:

  • Republicanos como o representante Rick Crawford disseram sair "confiantes" em Hegseth.
  • Democratas e alguns independentes, como o senador Thom Tillis, continuam exigindo responsabilização: "Se alguém conscientemente lançou um segundo míssil contra aquele barco... então eles têm que ser responsabilizados".

Com informações de: CNN, WENY, Firstpost, The Independent, Wikipedia ■

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