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Guerra civil no Sudão: um retrato da crise humanitária e da luta pelo poder e recursos
Conflito que completa mais de dois anos já é considerado uma das maiores crises humanitárias do século XXI, com milhões de deslocados e fome generalizada
Africa
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■   Bernardo Cahue, 20/11/2025

O Sudão vive uma guerra civil devastadora desde 15 de abril de 2023, um conflito que ecloduu de uma luta pelo poder entre duas facções militares: as Forças Armadas Sudanesas (SAF), o exército nacional oficial, e as Forças de Apoio Rápido (RSF), uma poderosa milícia paramilitar. O embate já é considerado uma das piores crises humanitárias do mundo, com cerca de 25 milhões de pessoas – metade da população – enfrentando fome extrema e mais de 12 milhões de sudaneses forçados a deixar suas casas.

As raízes de um conflito antigo

A guerra é o capítulo mais recente em uma história de instabilidade crônica no Sudão. O país, que sofreu mais de 20 tentativas de golpe desde sua independência em 1956, passou por duas longas e destrutivas guerras civis que culminaram na secessão do Sudão do Sul em 2011 . A tensão atual tem suas origens no golpe de 2021, liderado pelos então aliados Abdel Fattah al-Burhan (chefe das SAF) e Mohamed Hamdan Dagalo, "Hemedti" (comandante das RSF), que interrompeu uma frágil transição para um governo civil. As desavenças sobre a integração das RSF ao exército regular e sobre o futuro comando das forças armadas foram os estopins do conflito .

Os beligerantes e seus aliados

As Forças de Apoio Rápido (RSF) têm suas raízes na milícia Janjaweed, notória por suas atrocidades durante o conflito em Darfur no início dos anos 2000, onde foi acusada de genocídio e limpeza étnica. Sob a liderança de Hemedti, as RSF se transformaram em uma força paramilitar formidável, com estimativas de entre 100 mil e 150 mil combatentes. O grupo é frequentemente caracterizado por sua ideologia de supremacia árabe e seus combates são financiados em grande parte pelo controle de minas de ouro e por suposto apoio externo.

  • Sudanese Armed Forces (SAF): Comandadas pelo general al-Burhan, representam o governo oficialmente reconhecido pela ONU. Controlam o norte e o leste do país, incluindo a capital, Porto Sudão. Têm o apoio do Egito e, segundo relatos, receberam armas do Irã .
  • Rapid Support Forces (RSF): Lideradas por Hemedti, controlam a maior parte da região de Darfur, no oeste, e partes de Kordofan . São amplamente acusadas de receber armas e financiamento dos Emirados Árabes Unidos (EAU), alegação que o país nega.

A crise humanitária: números da devastação

A guerra criou o que a ONU classifica como a maior crise de deslocamento do mundo . Cerca de 8,8 milhões de pessoas estão deslocadas dentro do Sudão, e outras 3,5 milhões fugiram para países vizinhos como refugiadas. A fome já foi declarada em pelo menos 10 localidades, incluindo o campo de deslocados de Zamzam, na região de Darfur. Cerca de 4 milhões de crianças estão gravemente desnutridas, com mais de 770.000 em risco iminente de morte . Mulheres e meninas enfrentam violência sexual sistemática, usada como arma de guerra, e mais de 80% dos hospitais nas zonas de conflito estão inoperantes.

Tentativas fracassadas de paz

Várias tentativas de negociar um cessar-fogo, incluindo conversas na plataforma de Jeddah em 2023, falharam. Em setembro de 2025, os Estados Unidos, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Egito – o chamado "Quad" – propuseram um novo roteiro de paz. O plano defende uma trégua humanitária de três meses, seguida por um cessar-fogo permanente e um processo de transição de nove meses para estabelecer um governo civil. No entanto, a proposta foi recebida com ceticismo pelo governo sudanês em Cartum, enquanto as RSF ainda não se pronunciaram oficialmente.

Recursos naturais: o combustível da guerra

O controle das vastas riquezas naturais do Sudão é um fator central no conflito, servindo como fonte crucial de financiamento para ambos os lados. Abaixo, uma visão geral de quem controla o quê:

  • Petróleo: As exportações de petróleo bruto, avaliadas em US$ 1,13 bilhão em 2023, são a principal fonte de receita do país. A maior parte dos campos de petróleo está no sul, perto da fronteira com o Sudão do Sul, e está atualmente sob controle das RSF. As SAF controlam as refinarias de Cartum e Porto Sudão, bem como os oleodutos cruciais para a exportação.
  • Ouro: O Sudão é um dos maiores produtores de ouro da África. Os depósitos no leste são controlados pelo exército, enquanto as minas no centro e sudoeste estão em grande parte sob controle das RSF. Os Emirados Árabes Unidos compraram mais de 99% das exportações legais de ouro do Sudão em 2023, no valor de US$ 1,03 bilhão. Um significativo comércio ilegal no mercado negro também alimenta o conflito.
  • Agricultura: As terras agrícolas estão principalmente concentradas entre os Nilos Azul e Branco, uma área controlada pelas forças armadas. O Sudão é o maior exportador mundial de sementes de gergelim e goma arábica, um estabilizante vital para as indústrias global de alimentos e bebidas.

Um futuro incerto

Com as RSF estabelecendo um governo paralelo nos territórios que controlam e o exército determinado a retomar o controle total do país, a perspectiva de uma solução negociada no curto prazo parece remota. A comunidade internacional tem sido criticada por sua resposta "fraca" e "inadequada" à crise, que muitos caracterizam como uma "guerra esquecida". Enquanto isso, a população civil sudanesa paga o preço mais alto, enfrentando fome, violência e deslocamento em uma escala quase inimaginável, com pouca esperança de alívio no horizonte.

Com informações de Al Jazeera, Wikipedia, UN News, U.S. News & World Report, DW, BBC, Migration Policy Institute, Global Crisis Response Platform ■

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