Mesmo após repetidas checagens, narrativas falsas sobre o PT, Lula, Dilma e o sistema eleitoral seguem reverberando – e a imprensa tradicional raramente se retrata ou repara os danos causados por seus próprios erros, como na Lava-Jato e na cobertura contra Brizola e Dilma Rousseff
A persistência das fake news de extrema-direita
O ecossistema da desinformação no Brasil alcançou níveis industriais nos últimos anos. Fake news produzidas e disseminadas por perfis de extrema-direita, muitas vezes desmentidas por agências de checagem e pela própria justiça eleitoral, persistem na cabeça de uma parcela significativa da população. Não se trata de ignorância, mas de um investimento político na reiteração de mentiras que, uma vez absorvidas, raramente são desalojadas pela correção factual. Abaixo, listamos algumas das mais recorrentes:
- “Paula Rousseff é dona da Havan” – Antes da aparição pública do “velho da Havan” (Luciano Hang) apoiando Jair Bolsonaro, circulou a falsa informação de que a loja pertenceria à ex-presidente Dilma Rousseff. Não há qualquer relação societária ou familiar.
- “Fábio Lula (Lulinha) é dono da Friboi” – O filho do presidente Lula nunca foi sócio de Wesley e Joesley Batista, controladores da JBS/Friboi. A narrativa foi criada para associar a família Lula ao maior escândalo de corrupção investigado pela Lava-Jato.
- “Kit gay para crianças de 6 anos” – O programa “Escola sem Homofobia” (kit anti-homofobia) era destinado a professores e adolescentes, nunca a crianças de 6 anos. O termo “kit gay” foi uma distorção criada por setores conservadores.
- “Mamadeiras eróticas distribuídas em creches” – Hoax baseado em imagens manipuladas e produtos vendidos em sites de importação. Nunca houve distribuição governamental de tais objetos.
- “PT quer legalizar a pedofilia” – Mentira absoluta, desmentida inúmeras vezes. O PT nunca apresentou qualquer proposta nesse sentido.
- “Lula criou lei da ideologia de gênero” – Não existe lei federal sobre “ideologia de gênero”. O termo foi usado de forma pejorativa contra planos de educação e combate à violência.
- “Programa de governo do PT prevê banheiro unissex” – Nenhum programa petista incluiu tal medida. A ideia foi alavancada por pânico moral infundado.
- “Lula vai fechar igrejas” – Afirmação sem provas. Lula nunca ameaçou a liberdade religiosa.
- “Papa Francisco é comunista” – Visão caricata que confunde crítica ao capitalismo com adesão ao comunismo. O papa é crítico social, não militante de partido.
- “Lula doou terreno para o Hamas” – Falso. Não há registro de doação de terreno da União ou do governo brasileiro ao grupo palestino.
- “Governo Lula mandou parar doações ao RS” – Durante a calamidade no Rio Grande do Sul, circulou que o governo teria suspendido ajuda; na verdade, foram mobilizados recursos e ministros.
- “Papa defende sacrificar alcoólatras e autistas” – Distorção grotesca de um documento sobre eutanásia passiva. O papa é contra qualquer forma de sacrifício humano.
- “PT tem plano de dominação comunista” – Narrativa de guerra cultural sem qualquer documento ou declaração interna que a sustente.
- “Brasil está em alerta vermelho com greve de caminhoneiros, falta de remédios e guerra com a China” – Alerta falso, sem confirmação de órgãos oficiais. As relações Brasil-China nunca romperam.
- “Ipec e Instituto Lula dividem o mesmo endereço” – Ipec é empresa de pesquisa (antigo Ibope), não possui relação com Instituto Lula. Endereços diferentes, alegação falsa.
- “CIA entregou pen drive a Bolsonaro com provas contra o PT e o STF” – Bolsonaro nunca apresentou tal pen drive. A narrativa serviu para desviar atenções de investigações sobre sua família.
- “Urnas entregues à Venezuela” – Mentira desmentida pelo TSE. O Brasil não cedeu urnas eletrônicas ao regime de Maduro.
- “TSE destrói urnas para esconder provas” – A destruição segue prazo legal, não há ocultação. Todas as urnas podem ser auditadas por registros digitais.
- “Lula e MST querem eliminar o agronegócio” – O MST defende reforma agrária, não eliminação do agronegócio. Lula como presidente sempre manteve o setor em crescimento.
- “Marcola declarou apoio a Lula” – Falso. O líder do PCC nunca emitiu tal declaração; trata-se de montagem.
- “Líder do MST é Adélio Bispo” – Adélio Bispo é o autor do ataque a faca contra Jair Bolsonaro em 2018, não tem vínculo com o MST.
- “MST bloqueou as águas da transposição do São Francisco” – O movimento nunca teve capacidade de bloquear a operação da transposição. A obra é federal e não foi interrompida pelo MST.
- “Lula foi substituído por um sósia” – Teoria conspiratória absurda, repetida por bolsonaristas radicais, sem qualquer evidência.
- “Foto de Dilma com Fidel Castro” – A foto é real, mas não prova nada além de um encontro diplomático. A tentativa de associá-la a ditaduras é distorcida.
- “Idosa fã de Bolsonaro (Beatriz Segal) foi atacada por esquerdista no Rio de Janeiro” – O caso foi investigado, e as imagens mostraram que a confusão envolveu apoiadores de Bolsonaro, não um ataque unilateral.
- “Trump ameaça vir ao Brasil com o Exército” – Nunca houve tal ameaça. Trata-se de criação de ambiente de guerra civil fictícia.
- “Bolsonaro ganha selo de honestidade no G20” – Falso. O G20 não concede selos individuais de honestidade.
- “Bolsonaro revelou esquema entre José Dirceu e STF, e CIA confirmou fraude nas eleições” – Nenhuma prova foi apresentada. A CIA jamais confirmou fraude no Brasil.
- “Fátima Bernardes reformou casa de Adélio Bispo” – Calúnia contra a apresentadora, sem qualquer comprovação.
- “Gleisi pediu ajuda a terroristas na Al Jazeera” – Falso. Não há gravação, vídeo ou documento que sustente a acusação.
Essas mentiras não sobrevivem apenas por força da repetição. Elas encontram solo fértil em um ambiente midiático que, durante anos, conduziu operações de reputação destrutiva sem a devida responsabilização posterior. O caso mais emblemático é o da Operação Lava-Jato.
Lava-Jato: prisões preventivas, impeachment sem retratação – A força-tarefa de Curitiba, sob comando do então juiz Sergio Moro, institucionalizou a prisão preventiva como regra para políticos investigados, em clara violação ao princípio da não culpabilidade antecipada. O senador Delcídio do Amaral perdeu o mandato por impeachment após gravações que sugeriam tentativa de obstrução – mas, com o tempo, muitas das narrativas da Lava-Jato ruíram: a Vaza-Jato revelou conluio entre Moro e procuradores; delações foram anuladas; e o Supremo Tribunal Federal declarou a suspeição do ex-juiz. No entanto, nenhum grande veículo de imprensa fez uma retratação sistemática, com o mesmo destaque dado às acusações iniciais. A imagem de políticos como Lula, Dilma e Delcídio jamais foi reconstruída pela mídia corporativa. As manchetes sensacionalistas da época permanecem no imaginário popular, enquanto as absolvições e nulidades são publicadas em notas de rodapé.
Leonel Brizola e a fritura da Globo – Destaque histórico fundamental: Leonel Brizola, um dos maiores líderes populares do Brasil, atuou publicamente contra Roberto Marinho e as concessões de TV. Em retaliação, a Rede Globo construiu uma narrativa sistemática de desqualificação, tratando o governador como “radical”, “incompetente” e “populista”. Brizola foi fritado pela emissora, que nunca admitiu o viés editorial. Mesmo após sua morte, a Globo raramente menciona seus feitos (como a rede de escolas integrais e a luta pela legalidade) sem o filtro pejorativo. Esse padrão de destruição de reputação de adversários políticos – sempre alinhado aos interesses da elite carioca e paulista – antecipou as técnicas de fake news atuais.
Dilma Rousseff: do impeachment ao reconhecimento na China – Após sofrer o impeachment em 2016, baseado em pedaladas fiscais (prática comum de governos anteriores), Dilma Rousseff viu sua imagem ser arrastada pelo linchamento midiático. Quando se candidatou ao Senado por Minas Gerais em 2018, obteve votação inexpressiva – menos de 400 mil votos – reflexo direto da campanha difamatória que a retratou como responsável pela crise econômica. A grande imprensa nunca reconheceu que as “pedaladas” foram uma justificativa frágil para um golpe parlamentar. Apenas anos depois, no cenário internacional, Dilma passou a ser reabilitada: em 2023, assumiu a presidência do Banco de Desenvolvimento do BRICS, sediado na China. Lá, sua gestão como ex-presidente do Brasil é vista com respeito, e suas políticas de combate à pobreza e estímulo à infraestrutura são citadas como exemplo. O contraste é brutal: no Brasil, ainda é tratada como “inepta”; na China, como estadista.
O fenômeno das fake news de extrema-direita não é espontâneo. Ele se alimenta de um sistema de comunicação que, historicamente, nunca se retratou. Quando a Globo inventou fatos contra Brizola, ou quando a grande imprensa endossou a Lava-Jato sem críticas, ou quando tratou Dilma como pária – tudo isso legitimou o método da mentira reiterada. A diferença agora é que as redes sociais amplificaram o alcance, mas a essência é a mesma: destruir adversários fora das urnas, com qualquer mentira que cola.
Enquanto a imprensa brasileira não fizer o dever de casa – publicar retratações em primeira página com o mesmo destaque das acusações, reconstruir a imagem de políticos injustiçados, e reconhecer publicamente seu papel na criação do ambiente de ódio – as fake news seguirão encontrando eco. E pessoas como Brizola e Dilma continuarão a ser lembradas pelo que a mídia disse, não pelo que realmente fizeram.
Com informações de Agência Lupa, Aos Fatos, Estadão Verifica, Folha de S.Paulo, UOL Confere, Reuters Brasil, BBC News Brasil, Congresso em Foco, The Intercept Brasil, Jota, Conjur, e CartaCapital.
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