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O alienista Simão Bolsonaro
Personagem de Machado de Assis, o analista científico Simão Bacamarte chegou a encarcerar cerca de dois terços de toda a população de Itaguaí em seu manicômio, para depois se arrepender e morrer sozinho em autoanálise na mesma carceragem. Bolsonaro não se arrependeu de suas análises, porém agora remonta o destino de Simão Bacamarte solitário em seu cantinho do pensamento
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Foto: https://media.gazetadopovo.com.br/2022/08/28151956/gazeta-alienista-960x540.jpg
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■   Bernardo Cahue, 14/04/2026

O que pode unir um psiquiatra oitocentista de uma pacata vila fluminense a um capitão do Exército convertido em liderança da extrema direita brasileira, senão o vírus paranoico de classificar o mundo entre o que está “dentro” e o que está “fora” de uma determinada norma? Simão Bacamarte, o protagonista de O Alienista de Machado de Assis, e Jair Bolsonaro, o ex-presidente da República, encontram-se justamente nessa interseção entre a arrogância epistêmica, a obsessão classificatória e a decisão unilateral de quem detém o poder de “tratar” aqueles que julga desviantes. Se o primeiro aprisionou dois terços da população de Itaguaí em sua Casa Verde, o segundo coleciona declarações e atos que miram a supressão do outro como solução para conflitos sociais – como na famosa apologia à morte de “uns trinta mil”.

O alienista de Machado, encarnação da racionalidade científica do século XIX, sustenta sua autoridade na suposta neutralidade da ciência. Como observa o artigo A representação da ciência e dos cientistas em O Alienista, publicado pela Sociedade Brasileira de História da Ciência, Simão Bacamarte encarna uma imagem negativa do cientista, marcada por um “comportamento excêntrico, antissocial e autodestrutivo”. Convencido de que apenas ele possuía as chaves da razão, o doutor não titubeou em internar a própria esposa, D. Evarista, e confinar todo aquele que, em seu ver, destoasse do equilíbrio mental ideal. Na lógica da Casa Verde, a dissidência tornou-se doença. A “síndrome de Simão Bacamarte”, conforme define artigo do periódico Tellus, reside na “crença em valores próprios ao cientificismo do século XIX”, gerando atitudes etnocêntricas e a recusa em reconhecer outras formas de conhecimento e existência.

Jair Bolsonaro, por sua vez, não empunha um bisturi ou um tratado psiquiátrico, mas opera com outros instrumentos de poder. Em maio de 1999, em entrevista à TV Bandeirantes, então deputado, declarou que os problemas do Brasil só seriam resolvidos “partindo para uma guerra civil […] fazendo o trabalho que o regime militar não fez, matando uns 30 mil”. Não se trata de um ato falho, mas da explicitação de uma premissa extremista: a eliminação do outro – ainda que “inocentes” – como ferramenta legítima de pacificação social. A declaração ressoa de maneira profunda com a postura do alienista, que também acreditava que o bem da coletividade justificava o enclausuramento massivo. A diferença crucial, como salienta artigo da Revista Fórum, é que Bacamarte, ao final, reconhece o próprio delírio e se tranca solitário na Casa Verde. “Bolsonaro não se arrependeu de suas análises”, como bem coloca o enunciado que inspira esta crônica. Pelo contrário, tentou estender o manicômio à nação, transformando dissidência em inimizade.

A definição de extremismo que rege esses comportamentos vai além da simples adoção de posições radicais. O filósofo Quassim Cassam, em sua análise filosófica sobre o extremismo, diferencia-o do fanatismo e do fundamentalismo, ressaltando que o extremismo se caracteriza, em grande medida, por vícios epistêmicos: uma recusa obstinada à evidência contrária, uma polarização que não admite matizes e a desumanização do adversário. O bolsonarismo, como descreve Rodrigo Constantino na Gazeta do Povo, opera por uma lógica binária: “Ou se demonstra fidelidade total ao ‘mito’, ou passa para o time dos ‘inimigos’ a serem destruídos”. Essa dinâmica se aproxima perigosamente do que Cassam classifica como “extremismo ideológico”, em que a pureza da crença substitui o debate democrático, e o oponente é alijado do convívio social.

Quando voltamos os olhos para o cenário internacional, o mecanismo de exclusão e aniquilamento simbólico ou físico ganha contornos ainda mais trágicos. A Guarda Revolucionária Islâmica do Irã, força ideológica e militar do regime dos aiatolás, exemplifica o uso sistemático da violência de Estado ancorado em uma fé e em uma crença inquestionável. Relatos coletados pelo serviço persa da BBC e publicados em janeiro de 2026 descrevem a repressão a protestos como um massacre: agentes armados “entraram nas vielas em veículos particulares e atiraram de dentro dos carros contra as pessoas”. Fontes hospitalares e a revista Time chegaram a relatar mais de 30 mil mortes nos confrontos, um número que, se confirmado, corresponderia exatamente à “profecia” de Bolsonaro. Tanto no Irã quanto na Itaguaí de Bacamarte, a verdade de um grupo – seja a ciência, a fé ou a liderança carismática – serve de álibi para o aprisionamento e a eliminação do diferente.

O que parece unir esses fenômenos é a hipertrofia de uma única perspectiva, a transformação de uma análise pessoal em política de Estado e a consequente aniquilação da pluralidade. Como bem observou Michel Foucault, em obras como História da Loucura, a exclusão do “louco” não é um ato médico, mas um ato político de demarcação de poder. Simão Bacamarte aprisiona para estudar; a Guarda Revolucionária aniquila para manter uma teocracia; Bolsonaro ameaça matar e prender para “resolver” o país. A análise pessoal, quando desprovida de autocrítica e institucionalizada, gera o extremismo – uma patologia social que corrói as instituições, silencia vozes e transforma a cidadania em mera tolerância. A solução, talvez, esteja no antídoto machadiano: a dúvida, a ironia e a capacidade de olhar para o espelho da própria Casa Verde. Pois, no fim, a loucura de um só pode ser o preço da sanidade de todos.

Com informações de: Operamundi, BBC News Brasil, Revista Fórum, Gazeta do Povo, SciELO Preprints, Sociedade Brasileira de História da Ciência (SBHC), Tellus, Euronews

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