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Como os fantasmas da Vaza Jato ainda sustentam a narrativa de um bolsonarismo sem Bolsonaro
Órfão de seu principal líder, preso na Papuda, o campo conservador brasileiro tenta se reerguer às vésperas da eleição municiando-se de um discurso de perseguição judicial que, ironicamente, teve sua versão mais contundente desmontada há seis anos pelas revelações da Vaza Jato
Analise
Foto: https://encrypted-tbn0.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcSYKZ-hHUETMoxm8ms9nDaKjRmaPYRSXTJZfw&s
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■   Bernardo Cahue, 06/03/2026

Há um paradoxo circulando pelas veias da direita brasileira neste momento. O mesmo movimento político que ascendeu ao poder em 2018 sob o estandarte da "Lava Jato" e da cruzada moral contra a corrupção agora respira por aparelhos, e o sopro que mantém seus pulmões funcionando vem justamente da tentativa de reeditar o fantasma da perseguição judicial que a Vaza Jato, com suas conversas vazadas, ajudou a desmascarar .

Com Jair Bolsonaro recluso no 19º Batalhão da Polícia Militar — a "Papudinha" —, cumprindo uma pena de 27 anos por tentativa de golpe, o espólio político do ex-presidente transferiu-se para seu filho, Flávio Bolsonaro, que lidera as pesquisas contra Lula e levou milhares às ruas no último domingo com gritos de "liberdade" e faixas pedindo a soltura do patriarca. Mas o oxigênio que infla esses atos não é novo: é o mesmo ar rarefeito das alegações de lawfare e parcialidade do Supremo Tribunal Federal, um roteiro que já foi amplamente contestado pelos fatos.

O legado incômodo da Vaza Jato

Para entender o fôlego curto desse discurso, é preciso revisitar junho de 2019. Na época, o The Intercept Brasil publicou uma série de reportagens — a Vaza Jato — baseadas em conversas de Telegram hackeadas que expuseram os bastidores da operação Lava Jato. As mensagens revelaram um conluio entre o então juiz Sergio Moro e os procuradores da força-tarefa, colocando em xeque a imparcialidade que condenou Lula e o manteve 580 dias preso.

  • As conversas mostraram Moro orientando acusações e sugerindo recursos aos procuradores, algo incompatível com a posição de magistrado.
  • Deltan Dallagnol, chefe da força-tarefa, aparecia em diálogos que indicavam conhecimento prévio da condenação do petista.
  • O material serviu de base para a declaração de suspeição de Moro, resultando na anulação da condenação de Lula e em sua libertação em novembro de 2019.

O impacto foi sísmico. O "protagonismo de juízes e promotores", como definiu o professor Maurício Dieter à Agência Brasil, carrega "um traço de corrupção interna" que a Vaza Jato escancarou. O que era tratado como operação exemplar pela direita revelou-se um processo eivado de ilegalidades, um fato que o bolsonarismo nunca conseguiu digerir completamente.

O escândalo Master e a direita na fotografia

Ao tentar reanimar o cadáver da perseguição judicial, a direita esbarra em um problema concreto: os escândalos de hoje têm endereço certo e conexões profundas com seu próprio quintal. A nova prisão de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, sob ordem do ministro André Mendonça — indicado por Bolsonaro ao STF — reacendeu o entusiasmo da ala bolsonarista nas redes sociais, mas por um motivo inusitado: a expectativa por uma delação que incrimine adversários.

Deputados como Nikolas Ferreira, Mário Frias e Gustavo Gayer publicaram quase que em uníssono: "Delata, Vorcaro!". A esperança é que o banqueiro, acusado de operar a maior fraude bancária da história do país, envolva nomes ligados ao governo Lula e ao Judiciário, como o ministro Dias Toffoli. No entanto, como analisa o colunista Marcos Augusto Gonçalves, na Folha de S.Paulo, "a fotografia até aqui é desfavorável a mercadistas e direitistas".

  • A investigação aponta conexões de Vorcaro com políticos do centrão, como Ciro Nogueira (PP), e governadores bolsonaristas, como Cláudio Castro (PL-RJ).
  • Funcionários do Banco Central suspeitos de receber propina do chefão do Master podem ter ligações com a gestão de Roberto Campos Neto, indicado por Bolsonaro.
  • Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro e pastor evangélico, foi um dos maiores doadores das campanhas de Bolsonaro e Tarcísio de Freitas.

Enquanto isso, a esquerda tenta colar a imagem do escândalo à oposição, apontando as relações do Master com Nikolas Ferreira e o governador Ibaneis Rocha. A tentativa da direita de transformar o caso em uma nova Lava Jato contra o governo encontra, assim, um obstáculo: o envolvimento de seus próprios quadros.

O herdeiro e a crise de identidade

Flávio Bolsonaro tenta capitalizar o desgaste do STF e a comoção em torno da prisão do pai, mas enfrenta resistências internas. O presidente do recém-criado partido Missão, Renan Santos, pré-candidato à Presidência, critica o que chama de "apropriação" da direita pela família Bolsonaro, afirmando que o eleitorado "confunde direita com família Bolsonaro, mesmo quando a família Bolsonaro tem posições à esquerda ou quando vota com o PT". Para Santos, o embate entre Nikolas Ferreira e Eduardo Bolsonaro é uma "briga de egos" que expõe a falta de convicção do grupo.

O problema, para a direita, é que sua base ainda está anestesiada pelo "mito" preso. Nos protestos de domingo, os infláveis de Lula vestido de presidiário e Bolsonaro com a faixa presidencial dividiam espaço com bandeiras americanas e discursos contra Alexandre de Moraes. O aparelho que mantém a direita respirando é a narrativa da perseguição, mas o motor que gera essa narrativa — as denúncias de abuso de poder — foi severamente danificado quando as próprias denúncias vieram à tona na Vaza Jato.

A ironia da história

A Vaza Jato, como lembrou o Intercept em editorial recente ao defender a liberdade de imprensa contra a censura, "seria ilegal" no mundo imaginado por aqueles que hoje clamam por liberdade. Sem ela, "Lula ainda estaria na prisão, Deltan Dallagnol ainda estaria no Congresso e Bolsonaro ou Sergio Moro seria presidente".

O conteúdo vazado em 2019 não apenas libertou Lula, mas expôs a fragilidade de um sistema que a direita agora tenta reeditar como símbolo de perseguição. É a tentativa de reanimar um cadáver com o soro da verdade que o matou. Enquanto isso, o escândalo do Banco Master escancara que os "suspeitos de sempre" da direita e do centrão estão entranhados em práticas que nada devem ao "crime organizado", como define a Folha — "eles são o crime organizado".

A direita brasileira pode até continuar respirando por aparelhos. Mas o aparelho que a mantém viva — a crença na perseguição judicial seletiva — funciona com base em verdades que já foram, há muito tempo, desmentidas pelos fatos. E, como todo paciente em estado crítico, a pergunta que fica é: quanto tempo ainda resta até que o desgaste da realidade desligue os monitores de vez?

Com informações de Agência Brasil, Folha de S.Paulo, Veja, Intercept Brasil, O Tempo, WTOP News, Newsday ■

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