Siga nossas redes sociais | ![]() | Siga nossos canais |
A cinco dias do início da operação militar coordenada entre Estados Unidos e Israel contra o Irã, o que se desenha no tabuleiro geopolítico do Oriente Médio não é uma imagem de vitória rápida, mas o retrato de um desgaste profundo da máquina de guerra ocidental. Longe de conseguir a "mudança de regime" alardeada por Donald Trump, a coalizão liderada por Washington se vê enredada em uma guerra de atrição que expõe fissuras na OTAN, dependência logística insustentável e uma crescente erosão da confiança entre aliados históricos. O sentimento de derrota, antes um tabu, agora emerge nas entrelinhas das justificativas oficiais e nos números que não fecham.
O ponto de inflexão narrativo veio com as declarações do Secretário de Estado, Marco Rubio. Em uma audiência no Capitólio, Rubio tentou justificar a escalada com uma lógica que, para críticos e até mesmo para a base de apoio de Trump, soou como uma admissão de subserviência estratégica. Rubio afirmou que os EUA atacaram preventivamente porque sabiam que Israel lançaria uma ofensiva, o que inevitavelmente provocaria uma retaliação iraniana contra forças americanas. "Sabíamos que haveria uma ação israelense. Sabíamos que isso precipitaria um ataque contra as forças americanas", declarou, em uma tentativa de justificar a ação preventiva que, na prática, revelou Washington refém da agenda de Benjamin Netanyahu.
A reação doméstica foi imediata e devastadora para a narrativa da Casa Branca. A declaração de Rubio foi classificada como uma "admissão impressionante" pelo Conselho sobre Relações Americano-Islâmicas (CAIR) e gerou desconforto até mesmo na base "America First". Comentaristas e figuras influentes do movimento MAGA, como Matt Walsh e os irmãos HodgeTwins, usaram suas plataformas para expressar revolta. "Rubio está dizendo claramente que estamos em guerra com o Irã porque Israel forçou nossa mão", criticou Walsh. Os HodgeTwins, com milhões de seguidores, foram incisivos: "Não votamos para enviar americanos para morrer nas guerras de Israel". O senador Bernie Sanders sintetizou o sentimento de parte significativa do eleitorado: "Netanyahu queria guerra com o Irã. Trump acabou de dá-la a ele".
Paralelamente ao desastre político, o campo de batalha real revela uma derrota estratégica e econômica silenciosa, mas contundente. O Irã, ciente de sua desvantagem tecnológica em um confronto direto, optou por uma estratégia de atrição assimétrica que está sangrando os cofres e os estoques do Pentágono. Enquanto os EUA queimam mísseis interceptadores que custam entre US$ 3 milhões e US$ 5 milhões para abater drones Shahed-136, que não passam de US$ 35.000, a indústria ocidental não consegue repor os estoques no ritmo do consumo.
A análise do major-general português Agostinho Costa, à Agência Brasil, corrobora a percepção de que a "iniciativa da guerra" está nas mãos de Teerã. As bases americanas na região foram declaradas "inoperantes" em sua maioria, e os satélites chineses da constelação BeiDu garantem aos iranianos uma precisão cirúrgica nos ataques, neutralizando a superioridade tecnológica dos EUA. Além disso, o fechamento parcial do Estreito de Ormuz e os ataques a infraestruturas econômicas criaram uma nova frente de batalha: o mercado global de energia. Ao mirar refinarias na Arábia Saudita, instalações de gás no Catar e até mesmo o aeroporto de Dubai, o Irã transformou o caos econômico em uma arma de destruição em massa.
Essa estratégia de Teerã tem um objetivo claro: pressionar os aliados árabes dos EUA — Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Catar — para que usem seu peso diplomático e econômico contra Washington. E, nesse ponto, a fragmentação das alianças se torna evidente. Enquanto França e Reino Unido tentam responder com deslocamentos navais, a OTAN vive seu momento mais constrangedor. A interceptação de um míssil iraniano pela Turquia, membro da aliança, escancarou a relutância europeia. A ativação do Artigo 5º — a cláusula de defesa coletiva — foi descartada de imediato por Pete Hegseth, secretário de Defesa dos EUA. O cálculo é claro: os europeus, especialmente Alemanha e Espanha, temem os custos políticos e econômicos de um confronto direto e impõem limites claros ao seu envolvimento, recusando-se a serem arrastados para uma guerra que não escolheram.
No front diplomático, o chamado "racha na OTAN" se amplia para os Brics e o mundo multipolar. Enquanto Brasil, China e Rússia condenaram os ataques iniciais de EUA e Israel, os países árabes do Golfo — justamente aqueles que estão sendo bombardeados pelo Irã — condenaram as retaliações iranianas. A Índia, aliada histórica de Israel, equilibra-se em notas ambíguas, mas já condenou os ataques à Arábia Saudita — que, juntamente aos Emirados Árabes, é também parceiro não-membro do bloco.
A derrota também se lê nos números e nas condições de negociação. Trump, que no sábado prometia destruir a capacidade militar iraniana em dias, já sinalizou disposição para negociar, mas recebeu como resposta um contundente "Não negociaremos com os EUA" do Conselho de Segurança Nacional do Irã. Documentos vazados do general Dan Caine, chefe do Estado-Maior Conjunto dos EUA, alertam para o risco de "falta de munição" em uma guerra prolongada, contradizendo a "bravata" de munição "ilimitada" de Trump. Enquanto isso, Israel admite mais de 450 feridos e a perda de aviões, incluindo três F-15Es abatidos por fogo amigo do Kuwait, um símbolo do caos e da falta de coordenação no campo de batalha.
Ao final, o que a "Operação Fúria Épica" (ou "Leão Rugidor", como Israel a batizou) conseguiu foi o oposto do que prometia. Em vez de isolar e destruir o regime iraniano, fortaleceu sua narrativa de resistência, expôs a fragilidade logística do Ocidente e aprofundou o racha entre os aliados. A guerra, que deveria ser uma demonstração de poder, tornou-se um palco para a erosão da hegemonia americana, onde o sentimento de derrota é medido não em territórios perdidos, mas em confiança dissipada e alianças desfeitas.
Em um conflito onde a economia global é o campo de batalha e a paciência dos eleitores é o recurso mais escasso, EUA e Israel descobrem, tardiamente, que subestimar a capacidade de resistência e de inovação assimétrica do inimigo tem um preço que nenhum míssil Patriot pode interceptar.
Com informações de BBC News Brasil, G1, UOL, O Estado de S. Paulo, Al Jazeera, CNN Brasil, Agência Brasil, Wikipedia (Conflito no Irã em 2026) ■