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Em 48 horas, o México passou do risco de sofrer uma intervenção militar unilateral dos EUA a receber um "presente" geopolítico: a cabeça do narcotraficante mais procurado do mundo. Mas a operação financiada por inteligência americana expõe a fragilidade de uma presidente que, para provar que não é refém dos cartéis, viu o país pegar fogo e a sua autonomia ser colocada à prova por vizinhos que tratam o solo mexicano como extensão do seu teatro de guerra doméstico.
A manhã de domingo, 22 de fevereiro de 2026, entrou para a história do México não apenas como o dia da morte de Nemesio Oseguera Cervantes, "El Mencho", líder do Cártel Jalisco Nueva Geração (CJNG), mas como o momento em que a relação de subordinação entre a Casa Branca e o Palácio Nacional atingiu um novo patamar. O que à primeira vista parece uma vitória retumbante da presidente Claudia Sheinbaum contra o narcotráfico, revela-se, sob análise mais fria, um movimento calculado da administração Trump para testar os limites da soberania mexicana e, de quebra, oferecer um presente que pode se transformar num pesadelo de segurança pública.
Os dois dias que redefiniram a relação bilateral
Para compreender o timing da operação, é preciso recuar 48 horas. Na sexta-feira, 20 de fevereiro, a Suprema Corte dos Estados Unidos desferiu um duro golpe em Donald Trump ao decidir que o presidente excedeu sua autoridade ao usar poderes de emergência para impor tarifas recíprocas e tarifas vinculadas ao combate ao fentanilo. O revés jurídico deixou a Casa Branca sem um dos seus principais instrumentos de coerção econômica contra o México. Dois dias depois, num domingo de operação coordenada, "El Mencho" era abatido em Tapalpa, Jalisco, com apoio de inteligência americana. A coincidência temporal é no mínimo eloquente.
O golpe contra o líder do CJNG devolve a Trump a iniciativa política que a Corte lhe havia tirado. Se antes o republicano estava encurralado no campo comercial, agora pode apresentar-se como o grande articulador da segurança hemisférica, usando a morte do capo como prova de que a sua estratégia de pressão máxima — que incluía ameaças de invasão militar e a designação dos cartéis como organizações terroristas estrangeiras — está a funcionar.
A prova de fogo: "Ponha-nos à prova"
De acordo com a coluna do jornalista Carlos Loret de Mola, no El Informador, a comitiva de segurança mexicana levou a Washington uma mensagem clara da presidente Sheinbaum: "Ponha-nos à prova". A instrução era evitar a todo custo uma ação militar unilateral dos EUA em solo mexicano. O raciocínio mexicano era simples: se os Estados Unidos têm inteligência sobre alvos de alto valor, que a compartilhem e permitam que o México execute a operação.
O êxito tático da operação — matar o inimigo público número um — não pode esconder o fracasso estratégico: o México transformou-se num campo de batalha para provar a Washington que é capaz de resolver os seus próprios problemas, exatamente no momento em que mais precisa de ajuda para conter a crise humanitária que se seguiu.
A Inteligência que salva e a Inteligência que subordina
A Secretaria da Defesa Nacional (Sedena) confirmou que a operação contou com "informação complementar" dos EUA. A Casa Branca foi mais longe: Karoline Leavitt, secretária de imprensa de Trump, declarou que os EUA forneceram "apoio de inteligência" e elogiaram a "cooperação" do Exército mexicano. O vice-secretário de Estado, Christopher Landau, antigo embaixador no México, classificou a morte como "um grande desenvolvimento para o México, os EUA, a América Latina e o mundo".
O que parece cooperação bilateral, no entanto, tem contornos de subordinação operacional. A Reuters revelou que a Joint Interagency Task Force-Counter Cartel (JITF-CC), uma força-tarefa criada em janeiro de 2026 para mapear redes de cartéis na fronteira, esteve envolvida no raid. Um oficial de defesa americano, sob anonimato, admitiu ao Washington Post que a operação foi conduzida "a partir de uma força-tarefa conjunta EUA-México", que coordena regularmente ações com o Comando Norte dos EUA (NORTHCOM). O Pentágono e o NORTHCOM recusaram-se a comentar, limitando-se a dizer que "não têm informação sobre o assunto" e que "foi uma operação militar mexicana".
A ambiguidade das declarações oficiais esconde uma realidade incômoda: o México aceitou partilhar a condução da sua guerra interna com uma estrutura militar estrangeira. E fê-lo porque a alternativa — uma invasão unilateral de Trump — seria politicamente ainda mais devastadora.
Sheinbaum entre o abraço e o tiro
Há um elemento de política interna que não pode ser ignorado. Durante o governo de Andrés Manuel López Obrador, a estratégia de "abrazos, no balazos" permitiu que o CJNG se consolidasse como a organização criminosa mais poderosa do México, sem que houvesse operações de grande envergadura contra as suas lideranças. Sheinbaum rompeu com essa herança de forma espetacular.
O colunista Salvador García Soto, no El Universal, sublinha que a decisão de ir atrás dos grandes capos "marca uma distância visível e inegável com a política do seu antecessor" e serve para "frear as ameaças intervencionistas da administração trumpista". Mas a decisão também expõe a presidente a um escrutínio feroz: se a violência se prolongar, se o CJNG se fragmentar numa guerra interna sangrenta, se a crise humanitária se agravar, a responsabilidade política recairá sobre ela, não sobre Washington.
O consultor Eduardo Guerrero, da Lantia Intelligence, adverte: "o risco é que esta guerra se prolongue por vários anos" e que a atomização do cartel "provoque epidemias de violência em várias regiões". O cenário mais provável, segundo analistas, é uma luta interna pela sucessão entre herdeiros de "El Mencho" e operadores históricos do cartel, o que poderá gerar um banho de sangue superior ao que se seguiu à queda dos Beltrán Leyva ou dos Zetas.
O paradoxo geopolítico do "presente"
Há quem veja na morte de "El Mencho" um presente de Trump a Sheinbaum. A presidente ganha "oxigênio" político e "margem de manobra" nas negociações bilaterais, especialmente na revisão do T-MEC. A própria Suprema Corte americana, ao travar as tarifas unilaterais, reforçou a posição mexicana, deixando claro que o tratado comercial é o único instrumento válido para regular o comércio entre os dois países.
Mas o presente é envenenado. Ao aceitar a inteligência americana e executar a operação nos termos impostos por Washington, Sheinbaum validou a premissa trumpista de que os cartéis são uma ameaça terrorista que justifica uma resposta militarizada. E, ao fazê-lo, abriu um precedente perigoso: se amanhã Trump exigir uma nova operação, contra outro alvo, em outro estado, o México terá condições de recusar? Ou estará agora refém da sua própria demonstração de eficácia?
A resposta a esta pergunta será dada nas próximas semanas, à medida que a violência do CJNG se expande e que a administração Trump avalia se o México passou no teste ou se ainda precisa de "ajuda" mais direta.
Conclusão: o Estado mexicano contra-ataca, mas a que preço?
O que se viu no último fim de semana foi o Estado mexicano a fazer o que dele se espera: usar a força legítima para eliminar uma ameaça criminosa. O problema é que o fez sob o olhar atento e a mão pesada do vizinho do norte, num contexto em que a soberania se negocia ao preço da inteligência partilhada.
Os bloqueios nas estradas de Jalisco, os incêndios em Puerto Vallarta, os corredores do aeroporto de Guadalajara transformados em cenário de filme de terror, são a imagem mais vívida do custo imediato desta aposta. O custo de longo prazo — a dependência operacional da máquina de guerra americana, a legitimação da doutrina de terrorismo aplicada ao crime organizado, a fragilização da autoridade civil sobre a segurança nacional — esse, só o tempo dirá.
Por enquanto, o México queima. E a pergunta que fica é: a quem serve o fogo?
Cenários prováveis para as próximas semanas
Com informações de: Bloomberg Línea, Reuters, The Vibes, Joyn, Hindustan Times, El Universal, El Informador, Sohu (Observers), Tehran Times, Yerepouni Daily News ■