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A Justiça italiana deu um passo concreto na investigação de um dos episódios mais macabros da Guerra da Bósnia (1992-1995). Pela primeira vez, um suspeito foi identificado no inquérito sobre o suposto "safári humano" em Sarajevo. Trata-se de um homem de 80 anos, ex-motorista de caminhão, que vive próximo a Pordenone, no norte da Itália. Ele foi formalmente notificado pelas autoridades e responderá por crimes de homicídio doloso. As fontes ainda não esclareceram se o suspeito teria efetuado tiros diretamente ou atuado na logística das operações.
O caso veio à tona após denúncias de que estrangeiros, incluindo italianos, pagaram grandes somas para atirar em civis indefesos durante o cerco à capital bósnia. A investigação, aberta em 2025 pelo Ministério Público de Milão, se baseia num dossiê de 17 páginas apresentado pelo jornalista e escritor italiano Ezio Gavazzeni. Segundo ele, os participantes eram "pessoas muito ricas" com paixão por armas, que viajavam para a zona de guerra como se fosse um "passeio de caça".
Os relatos descrevem uma operação logística sinistra. Os "turistas de guerra" se reuniam às sextas-feiras na cidade italiana de Trieste, na fronteira com a ex-Iugoslávia. De lá, pegavam voos charter da companhia aérea iugoslava Aviogenex com destino a Belgrado, na Sérvia. Em território sérvio, eram escoltados por militares sérvio-bósnios até as colinas que cercam Sarajevo. Lá, armados com rifles de precisão, podiam escolher seus alvos entre a população civil que tentava sobreviver na cidade sitiada.
O preço por participar desta "caçada humana" era exorbitante: até €100 mil (cerca de R$ 610 mil) em valores atuais. Testemunhas e o próprio Gavazzeni afirmam que existia até uma tabela de preços diferenciada por tipo de vítima: atirar em crianças custava mais caro, seguido por homens, mulheres, e os idosos, que poderiam ser mortos "gratuitamente". Após o fim de semana de violência, os participantes retornavam à Itália para retomar suas vidas normais na segunda-feira.
Além de italianos, há indícios de que cidadãos de outros países, como Estados Unidos, Rússia e Canadá, também participaram do esquema. Um caso famoso documentado é o do escritor e político ultranacionalista russo Eduard Limonov, filmado em 1992 atirando com uma metralhadora contra Sarajevo, acompanhado pelo líder sérvio-bósnio Radovan Karadži?. Embora Limonov não tenha pago pela experiência, sua presença ilustra o ambiente que permitia tais atrocidades.
A investigação italiana ganhou corpo após a ex-prefeita de Sarajevo, Benjamina Karic, assistir ao documentário "Sarajevo Safari" (2022), do diretor esloveno Miran Zupanic, e levar o caso às autoridades. A Bósnia abriu uma investigação preliminar em 2022, mas o processo estagnou devido às dificuldades legais e políticas em um país ainda dividido pelos conflitos do passado. Enquanto isso, a Sérvia nega qualquer envolvimento oficial, classificando os relatos como "lenda urbana".
O "safári" ocorreu durante um dos episódios mais brutais da história europeia recente. O Cerco de Sarajevo durou de abril de 1992 a fevereiro de 1996 — quase quatro anos — e é considerado o cerco mais longo a uma capital na história moderna.
O promotor antiterrorismo de Milão, Alessandro Gobbis, lidera as investigações. Um testemunho crucial é o de Edin Subasic, um ex-oficial da inteligência militar bósnia que afirma ter alertado os serviços secretos italianos (SISMI) sobre os "safáris" já em 1994. Segundo ele, a inteligência italiana teria dito que "pôs um fim nisso", e as viagens cessaram alguns meses depois.
Para sobreviventes como Dzemil Hodzic, fundador do projeto Sniper Alley Photo, as notícias da investigação trazem um misto de validação e dor. "Sempre houve informações circulando sobre pessoas de fora vindo para atirar em nós", disse ele à Al Jazeera, relembrando que os fins de semana em Sarajevo eram especialmente perigosos. Hodzic perdeu o irmão, morto por um franco-atirador enquanto jogava tênis.
O primeiro interrogatório do suspeito de 80 anos está marcado para 9 de fevereiro de 2026. Enquanto isso, promotores trabalham para identificar e localizar outros possíveis envolvidos, na tentativa de oferecer, mesmo que décadas depois, um mínimo de justiça e accountability por crimes que encapsulam a crueldade extrema da guerra.
Com informações de: BBC, La Repubblica, El País, G1, Al Jazeera, Swissinfo ■