Violência entre exército sírio e Forças Democráticas Sírias (FDS) representa o mais grave retrocesso desde acordo de integração de março e desloca dezenas de milhares de civis
Os bairros de Sheikh Maqsoud e Ashrafiyeh, em Aleppo, norte da Síria, tornaram-se o epicentro de um violento confronto entre o exército do governo sírio e as Forças Democráticas Sírias (FDS), de maioria curda. Os combates, que começaram na terça-feira, 6 de janeiro de 2026, já resultaram em múltiplas vítimas civis e na fuga de dezenas de milhares de residentes. Esta escalada marca o colapso de um frágil cessar-fogo e ameaça reacender um conflito mais amplo no país, que tenta se reconstruir após 14 anos de guerra.
O Acordo Quebrado: A Raiz do Conflito
O pano de fundo desta violência é o fracasso na implementação de um acordo histórico assinado em março de 2025. O pacto, intermediado pelos Estados Unidos, previa a integração das instituições civis e militares administradas pelas FDS ao Estado sírio central até o final daquele ano, incluindo o controle de campos de petróleo, passagens de fronteira e aeroportos. No entanto, as negociações estagnaram, com cada lado acusando o outro de agir de má fé e sabotar o processo. As FDS, que atuaram como principal aliado terrestre dos EUA na luta contra o Estado Islâmico, relutam em abrir mão da autonomia duramente conquistada no nordeste do país.
A Escalada Militar e a Tomada de Bairros
A sequência dos eventos mostra uma rápida deterioração:
- 6 de Janeiro: Início dos confrontos. As FDS acusam facções pró-governo de atacar Sheikh Maqsoud com drones e artilharia, matando civis. O Ministério da Defesa sírio, por sua vez, acusa as FDS de bombardear bairros adjacentes, causando mortes.
- 7 de Janeiro: O governo declara os bairros de maioria curda como "zonas militares fechadas", impõe toque de recolher e ordena a evacuação civil enquanto lança "operações direcionadas". O exército sírio divulga mapas identificando alvos e abre corredores humanitários.
- 8 de Janeiro: Fontes militares sírias e o governador de Aleppo afirmam que o exército tomou o controle da maior parte do bairro de Ashrafiyeh, citando deserções nas fileiras das FDS. Combates pesados, no entanto, continuam em partes de Ashrafiyeh e na frente de Sheikh Maqsoud.
Crise Humanitária em Desenvolvimento
O custo humano é severo e crescente:
- Vítimas: Os números divergem conforme a fonte. As FDS relatam pelo menos oito civis mortos por bombardeios governamentais, enquanto a mídia estatal síria culpa as FDS por ataques que mataram civis. A ONU confirma pelo menos cinco mortes de civis.
- Deslocamento em Massa: É a consequência mais dramática. Autoridades locais estimam que mais de 138.000 pessoas já fugiram de Sheikh Maqsoud e Ashrafiyeh. A ONU estima cerca de 30.000 deslocados, muitos abrigados em centros coletivos ou com famílias anfitriãs.
- Infraestrutura Crítica Atingida: Hospitais, como o al-Razi, foram atingidos, e pelo menos três grandes unidades de saúde interromperam operações. O aeroporto internacional de Aleppo teve seus voos suspensos.
Reações Políticas e Risco de Conflito Ampliado
A crise transcende o cenário local, atraindo a atenção regional e internacional:
- Posições Irreconciliáveis: O governo sírio justifica a operação como necessária para "restaurar a ordem" e proteger civis de ataques das FDS. As FDS negam ter posições militares nos bairros e acusam Damasco de tentar um "deslocamento forçado" que poderia configurar crimes de guerra.
- Alerta Internacional: O Secretário-Geral da ONU, António Guterres, pediu desescala imediata e o retorno às negociações. O Primeiro-Ministro do Governo Regional do Curdistão, Masrour Barzani, expressou profunda preocupação, alertando que os eventos podem equivaler a uma "limpeza étnica".
- Fator Turquia: Ancara, que considera as FDS e sua espinha dorsal curda (YPG) uma extensão do grupo terrorista PKK, declarou-se pronta para ajudar a Síria se solicitada. Sua potencial intervenção é um dos maiores riscos de expansão do conflito.
Um Futuro Incerto para a Síria
Os confrontos em Aleppo são um sinal alarmante do fracasso do processo político pós-guerra. Analistas enxergam a violência como uma "corrida entre integração e desintegração" para o frágil Estado sírio. A implementação do acordo de março, que prometia curar a fratura mais profunda do país, parece mais distante do que nunca. Enquanto as partes não retomarem a boa-fé nas negociações, o cenário continuará sendo o de civis pagando o preço, entre bombardeios e deslocamentos, em um capítulo trágico que se recusa a terminar.
Com informações de: CartaCapital, Reuters, Daily Sabah, Al Jazeera, United Nations, Kurdistan24, Asharq Al-Awsat, TRT Português
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