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A construção de um "narcoditador"
Enquanto Nicolás Maduro responde a acusações formais em Nova York, um confronto paralelo e feroz segue seu curso: a batalha pelas narrativas
Analise
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■   Bernardo Cahue, 08/01/2026

De um lado, os Estados Unidos e uma ofensiva midiática que, mesmo com o chavismo ainda no poder, já especula e planeja o futuro da Venezuela sem ele. Do outro, um regime que há anos aperfeiçoou a arte de transformar acusações em ferramentas de legitimação discursiva. A criminalização de Maduro não é apenas um processo legal; é um instrumento geopolítico cujo poder reside tanto na sua capacidade de justificar ações quanto na reação que provoca, permitindo ao líder venezuelano forjar sua imagem de vítima de um imperialismo voraz.

O "Cartel de Los Soles": Entre a Acusação Geopolítica e a Realidade Difusa

A principal arma discursiva na criminalização de Maduro tem sido a acusação de que ele lidera um poderoso "Cartel de Los Soles". No entanto, uma análise mais profunda revela uma narrativa muito mais complexa e menos hollywoodiana do que a apresentada. O próprio Departamento de Justiça dos EUA recuou em parte dessa tese: numa nova denúncia, apresentada em 2026, omitiu a acusação direta de que Maduro "liderou" o cartel, mencionando-o apenas duas vezes, contra 33 citações na denúncia original de 2020.

Especialistas apontam que o termo foi cunhado pela mídia na década de 1990 e serve como um rótulo genérico para redes de corrupção e tráfico enraizadas no Estado, muito antes da ascensão de Hugo Chávez. A consultora sênior da UE, Gabriela de Luca, avalia que a mudança na linguagem da acusação americana reflete os "limites para provar essa tese" e busca fortalecer a denúncia focando em condutas individuais comprováveis, em vez de sustentar um conceito amplo e frágil. Organizações como o InSight Crime descrevem não um cartel centralizado, mas uma "governança criminal híbrida" onde o regime aloca concessões e proteção a militares e aliados em troca de lealdade, usando o tráfico como um mecanismo de sustentação do poder, e não necessariamente como um negócio gerido centralmente.

A Doutrina Trump e o Interesse Petroleiro: O Contexto da Criminalização

A ênfase na narrativa criminalizante não ocorre no vácuo. Ela se insere numa estratégia geopolítica renovada da administração Trump, que enxerga o hemisfério ocidental como sua zona de influência prioritária e busca conter a presença de potências como Rússia e China na região. A especialista Fernanda Magnotta aponta que Trump, em seu segundo mandato, busca criar um legado por meio de um reposicionamento global agressivo, tendo a Venezuela como peça central.

Nesse cenário, o petróleo emerge como interesse explícito e declarado. O embaixador dos EUA na OEA, Leandro Rizzuto, admitiu que as maiores reservas do mundo "não podem ficar nas mãos de 'adversários' do Hemisfério Ocidental". Após a captura de Maduro, Trump afirmou que o governo interino entregaria ao país entre 30 e 50 milhões de barris de petróleo, cuja venda seria administrada por ele. Esta franqueza transforma o discurso de "restauração democrática" em uma disputa por recursos, dando munição retórica a Maduro para se apresentar como vítima de uma pilhagem colonial.

A Máquina de Propaganda Chavista: A Resposta ao Cerco Discursivo

Maduro e seu círculo não são passivos diante deste cerco narrativo. Eles desenvolveram uma sofisticada máquina de propaganda que usa a criminalização como combustível para seu próprio relato. As acusações de narcotráfico são sistematicamente rebatidas como "falsas" e parte de um plano imperialista para controlar a Venezuela. Esta postura é meticulosamente encenada. Um vídeo viralizado em 2025 mostrou Maduro lendo, diante da Assembleia Nacional, a proclamação de 1902 do presidente Cipriano Castro, na qual este oferecia renunciar e libertar presos políticos sob bloqueio estrangeiro. Analistas interpretaram o ato como um "globo de ensaio" e uma manobra para se colocar na posição de líder histórico sitiado, disposto ao sacrifício pela pátria.

Até suas aparições públicas são coreografadas para projetar normalidade e controle. Uma crítica veemente nas redes sociais destacou que seu discurso de ano novo foi um "montaje cuidadosamente producido" lido em teleprompter, simulando naturalidade para vender uma imagem de estabilidade inexistente. Este controle narrativo busca manter a coesão interna em um regime que, segundo análises, já não funciona como projeto ideológico, mas como um "holding de proteção patrimonial e penal para uma cúpula acorralada".

O Futuro em Disputa: Transição Incerta e a Erosão Silenciosa

A ofensiva midiática e discursiva acontece sobre um terreno político venezuelano em profunda erosão. O chavismo é descrito como um projeto em esgotamento terminal, administrando "a inercia de seus próprios escombros". A indústria petrolífera, pilar da economia, estaria em "morte biológica", com produção abaixo de 500.000 barris dia e capacidade de recuperação que exigiria uma década de investimentos maciços.

O ataque americano e a captura de Maduro iniciaram uma transição de contornos ainda indeterminados, cujo ritmo dependerá crucialmente da reação das Forças Armadas e da mobilização popular. Enquanto isso, a comunidade internacional se divide. O Conselho de Segurança da ONU realizou uma reunião de emergência, onde a subsecretária-geral alertou para o perigoso precedente criado e defendeu o direito internacional como caminho. Líderes regionais como o chileno Gabriel Boric criticaram abertamente Trump, enquanto outros, como o argentino Javier Milei, apoiaram a ação.

Neste cenário, o futuro da Venezuela é disputado em dois fronts inseparáveis: o campo real do poder, das ruas e dos quartéis, e o campo simbólico das narrativas, onde a criminalização de Maduro serve tanto aos que buscam justificar uma mudança de regime quanto a um líder que há anos aprendeu a sobreviver transformando cada acusação em um novo capítulo de sua saga de resistência.

Com informações de: Agência Brasil, El Nacional, CNN Brasil, G1, Estado de São Paulo, Notícias ONU, Yahoo Noticias, Infobae, Monitor do Oriente ■

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