Siga nossas redes sociais
Logo     
Siga nossos canais
   
Agricultores europeus entram em confronto com polícia em Bruxelas em protesto histórico
Manifestação com milhares de produtores e centenas de tratores tenta pressionar cúpula da UE, em meio a temores sobre o futuro da agricultura no bloco com acordo envolvendo Mercosul
Europa
Foto: https://s2-g1.glbimg.com/T6pM80a9QSWpqVtpxPBcSOtr6-w=/2529x0/filters:format(jpeg)/https://i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2025/F/e/ytoV6rQSKj906na5hcsg/2025-12-18t124345z-2035323995-rc2ziia4cmv7-rtrmadp-3-eu-summit-farmers-protest.jpg
Compartilhar:
■   Bernardo Cahue, 18/12/2025

Bruxelas foi palco de conflitos violentos nesta quinta-feira (18), quando milhares de agricultores europeus, mobilizados com centenas de tratores, protestaram contra o acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul. Os manifestantes queimaram pneus e lançaram ovos, batatas e pedras contra a polícia, que respondeu com gás lacrimogêneo e canhões de água para conter os distúrbios que bloquearam o Bairro Europeu. Os protestos ocorrem às portas da última cúpula do ano dos líderes dos 27 países da UE, que devem discutir a ratificação do tratado.

Os agricultores afirmam que o acordo, negociado por mais de 25 anos, prejudicará setores sensíveis ao permitir a entrada sem tarifas de produtos sul-americanos no mercado comum. Os setores mais preocupados são os de carne bovina, aves, açúcar e soja. "Estamos aqui para dizer não ao Mercosul", declarou o pecuarista belga Maxime Mabille, acusando a Comissão Europeia de tentar "impor o acordo à força".

Raízes do descontentamento: crise estrutural e cortes nos subsídios

O protesto em Bruxelas é a ponta de um iceberg de descontentamento generalizado no campo europeu. Na França, o setor agrícola enfrenta uma crise estrutural, com a previsão de registrar seu primeiro déficit comercial em 50 anos em 2025. Problemas como um surto de dermatose nodular contagiosa no gado e da gripe aviária avolumam-se a dificuldades crônicas de competitividade e renda estagnada.

Uma preocupação central é a futura Política Agrícola Comum (PAC). A Comissão Europeia propõe uma redução de mais de 20% no orçamento para o período 2028-2034. "Você não pode cortar os fundos por 20% literalmente e por 40% se você incluir a inflação e sacrificar os agricultores apenas para o lucro de algumas empresas", criticou o eurodeputado austríaco Thomas Waitz. Para muitos agricultores, o acordo com o Mercosul, somado a esse corte, representa uma dupla ameaça existencial.

Salvaguardas aprovadas não aplacam os temores

Na tentativa de viabilizar o acordo, o Parlamento Europeu aprovou, na terça-feira (16), medidas de salvaguarda reforçadas. O mecanismo permite que a Comissão Europeia investigue e atue caso:

  • O preço de um produto do Mercosul seja pelo menos 5% inferior ao preço médio praticado na UE.
  • O volume de importações isentas de tarifas de um produto sensível aumente mais de 5% em um ano.

Se comprovado prejuízo, a UE poderá reintroduzir tarifas temporariamente sobre o produto em questão. Apesar dessas cláusulas, sindicatos e governos céticos, como o francês, consideram as proteções insuficientes.

Divisão política entre os Estados-membros da UE

A aprovação final do acordo depende de uma maioria qualificada dos 27 países da UE. Enquanto a presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, e países como Alemanha e Espanha pressionam pela assinatura, um bloco de nações se opõe ou pede adiamento.

  • França: O presidente Emmanuel Macron declarou que "as contas não fecham" e que o acordo "não pode ser assinado". Ele busca formar uma coalizão para adiar a decisão para janeiro.
  • Itália: A primeira-ministra Giorgia Meloni afirmou que seria "prematuro" assinar o texto agora, exigindo garantias adicionais para o setor agrícola italiano.
  • Polônia e Hungria: Também se alinharam aos pedidos de adiamento.

A posição da Itália é considerada decisiva. Se Roma se juntar a Paris, elas teriam, com Polônia e Hungria, votos suficientes para bloquear o acordo no Conselho.

Pressão e expectativa do lado sul-americano

Do outro lado do Atlântico, há expectativa e impaciência. O presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, que exerce a presidência rotativa do Mercosul, fez um ultimato: "Se a gente não fizer agora, o Brasil não fará mais acordo enquanto eu for presidente". Lula e a presidente da Comissão Europeia esperavam assinar o tratado no próximo sábado (20), durante a cúpula do Mercosul em Foz do Iguaçu.

O acordo é visto pelo bloco sul-americano (Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai) como uma oportunidade histórica. Ele criaria a maior zona de livre-comércio do mundo, abrangendo um mercado de 780 milhões de pessoas e um quarto do PIB global.

Mais do que comércio: um jogo geopolítico

As negociações transcendem a pauta comercial. Para a UE, o tratado é uma peça estratégica para diversificar parceiros e reduzir dependências, em um contexto de tensões com China e EUA. "Se a União Europeia quer continuar sendo confiável na política comercial global, as decisões devem ser tomadas agora", defendeu o chanceler alemão Friedrich Merz.

Analistas alertam que a falha em fechar o acordo pode ter consequências geopolíticas. "O fracasso em assinar o acordo de livre-comércio UE-Mercosul arrisca empurrar as economias latino-americanas para mais perto da órbita de Pequim", avaliou Agathe Demarais, do Conselho Europeu de Relações Exteriores.

Com informações de: RFI, CBN Global, G1, The Globe and Mail, The Independent, Brasil 247, IstoÉ Dinheiro, Times Brasil, Euronews ■

Mais Notícias