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Bruxelas foi palco de conflitos violentos nesta quinta-feira (18), quando milhares de agricultores europeus, mobilizados com centenas de tratores, protestaram contra o acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul. Os manifestantes queimaram pneus e lançaram ovos, batatas e pedras contra a polícia, que respondeu com gás lacrimogêneo e canhões de água para conter os distúrbios que bloquearam o Bairro Europeu. Os protestos ocorrem às portas da última cúpula do ano dos líderes dos 27 países da UE, que devem discutir a ratificação do tratado.
Os agricultores afirmam que o acordo, negociado por mais de 25 anos, prejudicará setores sensíveis ao permitir a entrada sem tarifas de produtos sul-americanos no mercado comum. Os setores mais preocupados são os de carne bovina, aves, açúcar e soja. "Estamos aqui para dizer não ao Mercosul", declarou o pecuarista belga Maxime Mabille, acusando a Comissão Europeia de tentar "impor o acordo à força".
O protesto em Bruxelas é a ponta de um iceberg de descontentamento generalizado no campo europeu. Na França, o setor agrícola enfrenta uma crise estrutural, com a previsão de registrar seu primeiro déficit comercial em 50 anos em 2025. Problemas como um surto de dermatose nodular contagiosa no gado e da gripe aviária avolumam-se a dificuldades crônicas de competitividade e renda estagnada.
Uma preocupação central é a futura Política Agrícola Comum (PAC). A Comissão Europeia propõe uma redução de mais de 20% no orçamento para o período 2028-2034. "Você não pode cortar os fundos por 20% literalmente e por 40% se você incluir a inflação e sacrificar os agricultores apenas para o lucro de algumas empresas", criticou o eurodeputado austríaco Thomas Waitz. Para muitos agricultores, o acordo com o Mercosul, somado a esse corte, representa uma dupla ameaça existencial.
Na tentativa de viabilizar o acordo, o Parlamento Europeu aprovou, na terça-feira (16), medidas de salvaguarda reforçadas. O mecanismo permite que a Comissão Europeia investigue e atue caso:
Se comprovado prejuízo, a UE poderá reintroduzir tarifas temporariamente sobre o produto em questão. Apesar dessas cláusulas, sindicatos e governos céticos, como o francês, consideram as proteções insuficientes.
A aprovação final do acordo depende de uma maioria qualificada dos 27 países da UE. Enquanto a presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, e países como Alemanha e Espanha pressionam pela assinatura, um bloco de nações se opõe ou pede adiamento.
A posição da Itália é considerada decisiva. Se Roma se juntar a Paris, elas teriam, com Polônia e Hungria, votos suficientes para bloquear o acordo no Conselho.
Do outro lado do Atlântico, há expectativa e impaciência. O presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, que exerce a presidência rotativa do Mercosul, fez um ultimato: "Se a gente não fizer agora, o Brasil não fará mais acordo enquanto eu for presidente". Lula e a presidente da Comissão Europeia esperavam assinar o tratado no próximo sábado (20), durante a cúpula do Mercosul em Foz do Iguaçu.
O acordo é visto pelo bloco sul-americano (Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai) como uma oportunidade histórica. Ele criaria a maior zona de livre-comércio do mundo, abrangendo um mercado de 780 milhões de pessoas e um quarto do PIB global.
As negociações transcendem a pauta comercial. Para a UE, o tratado é uma peça estratégica para diversificar parceiros e reduzir dependências, em um contexto de tensões com China e EUA. "Se a União Europeia quer continuar sendo confiável na política comercial global, as decisões devem ser tomadas agora", defendeu o chanceler alemão Friedrich Merz.
Analistas alertam que a falha em fechar o acordo pode ter consequências geopolíticas. "O fracasso em assinar o acordo de livre-comércio UE-Mercosul arrisca empurrar as economias latino-americanas para mais perto da órbita de Pequim", avaliou Agathe Demarais, do Conselho Europeu de Relações Exteriores.
Com informações de: RFI, CBN Global, G1, The Globe and Mail, The Independent, Brasil 247, IstoÉ Dinheiro, Times Brasil, Euronews ■