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O ataque realizado em 2 de setembro pela Marinha dos EUA a um barco suspeito no Caribe foi apresentado pelo presidente Donald Trump como um sucesso na guerra aos cartéis de drogas. No entanto, revelações posteriores de que um segundo ataque foi realizado para matar sobreviventes que estavam agarrados aos destroços inflamou um debate sobre a legalidade das operações e, principalmente, sobre quem deve ser responsabilizado – do presidente aos comandantes militares que executaram as ordens .
Questionado se o Secretário da Defesa, Pete Hegseth, ou o Almirante Mitch Bradley deveriam enfrentar consequências, Trump evitou responder diretamente, justificando: "Acho que vocês vão descobrir que isso é guerra" . Essa postura presidencial, de enquadrar as ações como um conflito armado e, portanto, acima de escrutínio comum, coloca os subordinados em uma zona cinzenta: protegidos pela retórica do comandante-chefe, mas potencialmente expostos a processos por violações do direito internacional.
A administração Trump construiu um argumento legal ambivalente para justificar os mais de 80 ataques letais realizados desde setembro:
Especialistas veem essa dupla narrativa como uma manobra para operar sem freios. "Este memorando... é fascinante, porque metade dele diz... 'é uma guerra'... e a outra metade diz, 'não, não é uma guerra, portanto não temos que pedir permissão ao Congresso'", criticou o deputado democrata Adam Smith .
A confusão sobre quem deu a ordem final para o polêmico segundo ataque de 2 de setembro ilustra o problema da prestação de contas:
Para o deputado Adam Smith, a atitude de Hegseth foi clara: "Foi um momento de 'CYA' [proteger-se]... Ele é o secretário da Defesa... colocando-os [os militares] em uma posição terrível ao dar essas ordens altamente questionáveis. E depois disso, sair e dizer: 'ei, foi aquele cara, não eu'. Isso não é liderança" .
Juristas internacionais contestam radicalmente a base legal das operações. William Burke-White, professor de Direito, argumenta que os ataques são ilegais tanto pelo direito internacional quanto pelo doméstico americano .
Sarah Yager, da Human Rights Watch, é direta: "Não é uma questão de crime de guerra porque não há guerra, não há conflito armado, então não pode ser um crime de guerra. É literalmente assassinato" . Ainda no marco do direito internacional, matar sobreviventes incapacitados pode violar o princípio que protege combatentes "hors de combat" (fora de combate) .
Analistas enxergam os ataques como parte de uma estratégia mais ampla de pressão sobre a Venezuela e reafirmação da hegemonia dos EUA na América Latina. O envio de porta-aviões, a autorização para operações secretas da CIA no país e a imposição de sanções a governos da região são vistos como elementos de uma "guerra híbrida" .
O alvo declarado são os cartéis, mas a retórica e as ações apontam para uma tentativa de mudança de regime em Caracas. "Pensei imediatamente: 'Isso não é sobre terroristas. É sobre a Venezuela e mudança de regime', disse um alto funcionário de segurança nacional dos EUA ao ver um documento interno sobre os ataques . A tensão causou até a renúncia do almirante chefe do Comando Sul, Alvin Holsey, após discordar da legalidade das operações .
Com a justificativa legal sob fogo e a cadeia de comandos obscura, a responsabilização recai sobre a fiscalização política do Congresso. Os comitês de serviços armados de ambas as casas, incluindo republicanos, anunciaram "vigorosa fiscalização" sobre o ataque duplo de setembro .
No entanto, a capacidade de impor consequências reais é limitada. Enquanto isso, o governo segue defendendo as operações. Hegseth declarou que os ataques "são legais tanto sob a lei dos EUA quanto internacional" e que "cada traficante que matamos é afiliado a uma Organização Terrorista Designada" . Trump, por sua vez, prometeu expandir as ações: "Muito em breve vamos começar a fazê-lo em terra também" .
A questão central permanece: em uma campanha militar não declarada, justificada por uma definição flexível de "guerra" e com ordens cuja origem se dissipa na cadeia de comando, quem, efetivamente, pode ser responsabilizado? Por enquanto, a imunidade do topo parece se estender como um manto protetor, mas frágil, sobre todos os envolvidos, enquanto o Congresso e a comunidade internacional buscam respostas .
Com informações de: ABC News, Euronews, CNN, IHU Unisinos, Perry World House, CBN, NPR, Brasil 247■