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A história, com seu senso de ironia, tece paralelos que a imaginação mais ousada hesitaria em criar. Dois momentos cruciais na trajetória de Jair Bolsonaro, separados por anos, colidem em uma questão que beira o absurdo: para o ex-presidente, o que representaria um mal maior: a COVID-19, que certa vez chamou de "gripezinha", ou uma temporada na Papuda? A busca pela resposta desnuda uma coreografia de negacionismo, contradições e um súbito interesse por laudos médicos quando as grades do sistema prisional se anunciam no horizonte.
Em março de 2020, quando o mundo se fechava diante de um vírus desconhecido e letal, a retórica do então presidente Jair Bolsonaro seguia na contramão da ciência e da cautela. Em pronunciamento nacional, ele buscou tranquilizar a população, ainda que às custas da subestimação da doença: "No meu caso particular, pelo meu histórico de atleta, caso fosse contaminado pelo vírus, não precisaria me preocupar. Nada sentiria, ou seria, quando muito, acometido de uma gripezinha ou resfriadinho". Dias antes, em uma coletiva de imprensa, já havia usado o mesmo termo, associando-o à sua resistência: "Depois da facada, não vai ser uma gripezinha que vai me derrubar".
Essas declarações, que mais tarde ele tentaria negar publicamente afirmando que não existiam vídeos ou áudios que as comprovassem , ecoavam um discurso que ele já vinha construindo. No início daquele mês, em Miami, classificou a "questão do coronavírus" como "muito mais fantasia" do que aquilo que a mídia propagava pelo mundo. Essa postura se manteve mesmo quando as comparações se tornaram internacionais. Ao compartilhar um vídeo do papa Francisco sem máscara, Bolsonaro buscava um suposto "duplo padrão" da mídia, ignorando solenemente os contextos radicalmente diferentes: a Itália e o Vaticano viviam um estágio avançado de vacinação e baixa circulação viral, enquanto o Brasil registrava milhares de mortes diárias e uma vacinação incipiente.
Avancemos para o presente. Condenado a 27 anos e 3 meses de prisão por crimes como tentativa de golpe de Estado, Bolsonaro se vê diante da possibilidade concreta de trocar a atual prisão domiciliar por uma cela no Complexo Penitenciário da Papuda. O governo do Distrito Federal, por meio de ofício ao ministro Alexandre de Moraes, do STF, solicitou que o ex-presidente seja submetido a uma avaliação médica para verificar a "compatibilidade" de seu estado de saúde com o cumprimento da pena no presídio. O documento cita os "procedimentos cirúrgicos" aos quais Bolsonaro foi submetido e uma internação hospitalar emergencial em setembro de 2025.
Nos bastidores, a movimentação é intensa. Analistas e aliados avaliam que, por trás do pedido do laudo médico, há uma estratégia para evitar a prisão em regime fechado. A aposta, segundo veículos de imprensa, é que Bolsonaro tenha uma passagem breve pela Papuda – talvez apenas 15 dias – antes de retornar à prisão domiciliar, invocando suas condições de saúde e seguindo um precedente aberto por outras figuras políticas, como Fernando Collor. O cenário é tratado com apreensão pelo entorno do ex-presidente, que teme o desgaste político e o impacto simbólico da imagem de seu líder atrás das grades de um presídio de segurança máxima.
Aqui reside o cerne da crônica. Como compreender a mesma pessoa que, outrora, desdenhou de um vírus que matou milhões, agora invocar supostas fragilidades para se esquivar das consequências de seus atos? A resposta parece residir na percepção imediata da ameaça.
O "histórico de atleta", outrora usado como escudo contra um patógeno mortal, parece insuficiente diante da burocracia penitenciária. A saúde de ferro, que supostamente o imunizaria de uma mera "gripezinha", agora é posta sob escrutinio para avaliar se é compatível com as instalações da Papuda, que, embora possuam alas para presos vulneráveis, representam um mundo apartado do conforto doméstico.
A pergunta principal das redes sociais, "A Papuda é melhor ou pior que a COVID-19?", não busca uma resposta literal – seria obsceno equiparar uma doença global a uma instituição carcerária. Ela serve, na verdade, para iluminar a seletividade do discurso e a hierarquia peculiar de medos. Ilustra como o percebido, quando é iminente e capaz de ceifar a liberdade, mobiliza mais recursos e desespero do que o perigo real, porém inicialmente distante, que ceifou vidas.
A crônica que a ironia nos escreve é amarga. O homem que minimizou a dor alheia e a luta contra um vírus real, agora se apoia na potencialidade de sua própria dor para evitar um confinamento que, em suas próprias palavras passadas, talvez fosse menos assustador que uma "gripezinha". No fim, o paralelo revela menos sobre os perigos da doença ou da prisão, e mais sobre a elasticidade da verdade e a profunda solidão de quem, encurralado pelas próprias escolhas, descobre que algumas grades são mais difíceis de derrubar que outras.
Com informações de BBC, G1, CNN Brasil, Veja, AFP e Metrópoles. ■