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O Mercenário e o Presidente: uma história de drogas, armas e dupla personalidade
Enquanto Trump anuncia ataques "antidrogas" no Caribe, ex-militar alega que o mesmo governo que hoje se faz de justiceiro uma vez autorizou sua operação clandestina para derrubar Maduro
Analise
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■   Bernardo Cahue, 24/10/2025

Em uma dessas ironias que só a geopolítica é capaz de produzir, a mesma administração que hoje justifica uma escalada militar no Caribe com o discurso de combate ao narcotráfico é acusada de ter autorizado, nos bastidores, uma operação mercenária para invadir a Venezuela. De um lado, o presidente Donald Trump anuncia com estardalhaço ataques letais a embarcações suspeitas. Do outro, Jordan Goudreau, um ex-boi na verde, emerge das sombras para contar uma versão muito diferente dessa história.

Os Ataques "Antidrogas" e a Justificativa Conveniente

Em setembro, o presidente Donald Trump anunciou uma série de ataques militares no Caribe contra embarcações que, segundo ele, transportavam drogas da Venezuela para os Estados Unidos. Ele confirmou pessoalmente o primeiro ataque, que resultou na morte de 11 pessoas, declarando que a ação foi uma medida necessária contra o "narcoterrorismo" . Poucos dias depois, Trump anunciou um segundo ataque, que deixou três mortos, e surpreendeu ao revelar um terceiro ataque não divulgado anteriormente, elevando o total de mortos para pelo menos 14 .

Em suas declarações, Trump foi direto ao seu suposto alvo: "Parem de enviar drogas para os Estados Unidos", alertou ao presidente venezuelano, Nicolás Maduro . Para embasar sua retórica, o governo Trump vinculou as embarcações atacadas ao grupo criminoso venezuelano Tren de Aragua, classificado como organização terrorista . A operação é sustentada por um impressionante despliegue naval, que inclui destructores Aegis, submarinos e aviões de espionagem P-8 .

A Outra Face da Moeda: A Confissão do Mercenário

Enquanto a Casa Branca monta seu espetáculo de "guerra às drogas", um personagem inesperado decidiu que não ficaria em silêncio. Jordan Goudreau, um ex-boi na verde das Forças Especiais dos EUA, está enfrentando acusações federais de tráfico de armas, e sua defesa é uma bomba política: ele alega que sua fracassada operação para derrubar Maduro em 2020 foi autorizada pelos mais altos escalões do Poder Executivo norte-americano, então sob o comando de Donald Trump .

Em janeiro de 2025, Goudreau reapareceu em um vídeo nas redes sociais com um recurso carregado de ironia amarga: "Quero felicitar a CIA e o FBI por um trabalho bem feito. Devido a seus esforços na Venezuela em 2020 para sabotear minha operação instruída pelo poder executivo, Nicolás Maduro está sendo investido hoje" . Seus advogados formalizaram a alegação em documentos judiciais, afirmando que o veterano de combate tinha "autoridade dos níveis mais altos do poder executivo" para a incursão anfíbia, batizada de "Operação Gideon" .

Operação Gideon: A Invasão que Terminou em Fiasco

O plano, que se desenrolou em maio de 2020, era audacioso e profundamente amador. Goudreau, através de sua empresa de segurança Silvercorp USA, recrutou um grupo heterogêneo de desertores do exército venezuelano e treinou-os em campos clandestinos na Colômbia . O objetivo declarado era capturar o presidente Maduro e derrubar seu governo.

A operação, no entanto, foi um desastre completo. As forças de segurança venezuelanas, que haviam infiltrado o grupo, interceptaram os mercenários. Vários deles morreram no confronto, e dois ex-colegas boinas verdes de Goudreau, Luke Denman e Airan Berry, foram capturados e passaram anos em prisões venezolanas até serem libertados em uma troca de prisioneiros no final de 2023 . O episódio foi amplamente ridicularizado na imprensa internacional como o "fiasco da Bahia dos Porquinhos" .

As Conexões que Ligam o Mercenário ao Poder

As alegações de Goudreau ganham certa credibilidade quando se examinam seus contatos. Seus advogados afirmam que ele foi recrutado para a "Operação Gideon" por Keith Schiller, que foi durante anos o guarda-costas pessoal de Donald Trump . Schiller teria levado Goudreau a uma reunião com assessores do então líder opositor venezuelano Juan Guaidó .

Além disso, Goudreau alega ter se reunido em Washington com dois funcionários estadunidenses, um dos quais teria trabalhado brevemente no escritório do vice-presidente Mike Pence . O contrato de sua empresa, a Silvercorp, com representantes de Guaidó para explorar uma missão de captura de Maduro foi amplamente documentado .

A Guerra Psicológica e os Reais Objetivos

Analistas venezuelanos enxergam a narrativa de "guerra às drogas" como uma construção frágil. Para Henry Navas Nieves, professor da Universidade Militar Bolivariana da Venezuela, o suposto ataque à embarcação é uma narrativa "mal feita" dos EUA para justificar uma escalada contra o governo de seu país . Ele e outros especialistas veem a movimentação estadunidense como uma forma de guerra psicológica, destinada a intimidar o governo e a população venezuelana e criar um pretexto para intervenções mais agressivas .

O próprio presidente Maduro respondeu às ameaças convocando um alistamento em massa para a Milícia Nacional Bolivariana, que, segundo ele, viu seus números saltarem de 4,5 milhões para 8,2 milhões de voluntários . Maduro chegou a afirmar que há "1.200 mísseis apontados para a cabeça dos venezuelanos" .

Um Acusado que Promete Mais Revelações

Enquanto aguarda julgamento, Goudreau transformou-se em uma figura imprevisível. Ele não apenas mantém suas acusações contra as agências de inteligência dos EUA, mas também mergulhou em disputas públicas com figuras da oposição venezuelana, acusando-os de corrupção e mau uso de fundos . Em entrevistas, ele sugeriu que a operação falhou porque "Trump tinha inimigos muito poderosos dentro da CIA" que impediram o sucesso da missão para que o presidente não pudesse levantar o "troféu" que a Venezuela representaria .

Seu caso judicial promete ser um palco onde os segredos sujos da política externa dos EUA para a Venezuela podem vir à tona. Preso e acusado, Goudreau parece determinado a não afundar sozinho, arrastando consigo para o banco dos réus a veracidade do discurso oficial de seu próprio governo.

Com informações de: BBC, La Jornada, Voz de América, El País, O Globo, Orinoco Tribune, Daily Mail, Libya360. ■

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