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A recente assinatura de um cessar-fogo indefinido entre Israel e o Hamas, mediado pelo Egito, Catar, Turquia e Estados Unidos, trouxe um frágil alívio à Faixa de Gaza após dois anos de um conflito que matou dezenas de milhares de pessoas. No entanto, especialistas alertam que a paz está longe de ser alcançada. Enquanto os holofotes internacionais se concentram na complexa implementação do acordo – que prevê a libertação de reféns, a retirada escalonada de tropas israelenses e o desarmamento do Hamas –, outras dinâmicas explosivas continuam a se intensificar nos territórios palestinos, particularmente na Cisjordânia invadida por israelenses.
O fogo sob as cinzas não está em Gaza, mas na Cisjordânia, onde a combinação de operações militares israelenses de larga escala, a violência de colonos e o surgimento de novas milícias palestinas "jovens e raivosas" criam um cenário propício para uma nova e ampliada escalada de violência.
Em agosto de 2024, Israel lançou a "Operação Acampamentos de Verão", a maior operação militar na Cisjordânia em mais de 20 anos. O governo israelense, sob a liderança de Benjamin Netanyahu, descreveu a ação como uma "guerra completa" contra infraestruturas terroristas, acusando o Irã de fomentar uma "frente terrorista oriental" na região. Esta ofensiva, no entanto, não suprimiu a militância palestina; pelo contrário, parece tê-la inflamado.
Em resposta, surgiu uma nova geração de grupos armados, como a "Cova dos Leões", originária de Nablus. Diferente das facções tradicionais, estes grupos são hiperlocalizados, apartidários e compostos majoritariamente por jovens palestinos que rejeitam a autoridade tanto de Israel quanto da idosa liderança da Autoridade Palestina. Uma pesquisa de dezembro de 2022 mostrou que mais de 70% dos palestinos na Cisjordânia e Gaza apoiam a formação de grupos armados independentes como este, sinalizando uma profunda mudança no cenário da resistência.
Paralelamente às operações militares, o movimento de colonos israelenses em território palestino continua a ser um dos maiores obstáculos para uma paz duradoura. Os assentamentos israelenses na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental são considerados ilegais pelo direito internacional e pela maioria das nações, representando uma anexação gradual de terras palestinas. Este não é um fenômeno novo, mas sua persistência e expansão, mesmo sob governos americanos diferentes, alimentam a desconfiança e o ressentimento.
Recentemente, a violência associada a esses assentamentos atingiu níveis alarmantes. Dados de 2025 mostram que colonos israelenses atacaram 27 comunidades palestinas apenas no início do ano, causando danos generalizados a propriedades e forçando o deslocamento de famílias palestinas, como as do área de Barriyyet Kisan, em Belém. Esta violência, muitas vezes com conotações nacionalistas-religiosas, atua como um gatilho imediato para a retaliação e o recrutamento por parte dos grupos militantes palestinos.
A interação entre esses fatores cria um ciclo aparentemente interminável:
Este ciclo ameaça não apenas a frágil calma em Gaza, mas também a possibilidade de uma solução de dois Estados, já que a presença e expansão de assentamentos fragmentam o território palestino de forma irreversível. Enquanto isso, a comunidade internacional assiste, com a ONU tendo perdido muita de sua força para fiscalizar grupos armados e mediar conflitos, em um cenário de enfraquecimento do multilateralismo.
O cessar-fogo em Gaza é um passo necessário, mas tremendamente insuficiente. A guerra entre nações pode dar sinais de tréguas, mas as guerras internas, alimentadas por ocupação, expansionismo territorial e uma nova geração de combatentes desiludidos, estão longe de acabar. A menos que as potências mediadoras enfrentem diretamente a questão dos assentamentos e a violência na Cisjordânia com a mesma urgência dedicada a Gaza, qualquer acordo será apenas um paliativo temporário. O barril de pólvora permanece armado, e seu pavio, aceso.
Com informações de Valor Econômico, Wikipedia, BBC News, UOL, Deutsche Welle, Agência Brasil, Al Jazeera. ■