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Não foi apenas uma fake news. Foi um teste de corrosão ética para a grande imprensa brasileira. Quando o senador Flávio Bolsonaro publicou a foto ao lado de Donald Trump, dentro do que simulava ser um encontro na Casa Branca, os principais veículos do país reproduziram a imagem como se fosse um fato consumado. Manchetes foram ao ar. Colunistas comentaram o “diálogo com o trumpismo”. A oposição comemorou. Horas depois, a farsa veio à tona: a foto era um souvenir de US$ 15 vendido na loja de lembranças do museu da Casa Branca, a agenda oficial de Trump não registrava qualquer reunião, e a imagem havia sido apontada como montagem por inteligência artificial (ChatGPT e Grok). O problema, contudo, não é apenas a mentira dos políticos — é o comportamento da imprensa que a amplificou.
O episódio expõe duas possibilidades igualmente condenáveis: (i) a imprensa brasileira, movida pela busca incessante pelo furo jornalístico, deixou de fazer o mínimo de verificação cruzada; ou (ii) houve, em alguns setores, uma deliberada disposição a validar a narrativa bolsonarista para desviar o foco de escândalos maiores — como o desvio de R$ 62 milhões do Banco Master e as investigações nos Estados Unidos sobre paraísos fiscais em Delaware. Em qualquer dos casos, o resultado é o mesmo: a credibilidade jornalística saiu mais arranhada do que a foto encenada com Trump e a medalha de US$ 19 comprada na mesma lojinha.
Vamos aos fatos brutos, que já estavam disponíveis a qualquer editor minimamente diligente:
Diante desse quadro, a reação da imprensa deveria ser investigar, contestar, levantar dúvidas. Em vez disso, manchetes como “Flávio Bolsonaro encontra Trump na Casa Branca” correram o país. A CNN Brasil chegou a noticiar que a reunião poderia ser com o vice-presidente (J.D. Vance) ou com o alto escalão do Departamento de Estado, criando uma cortina de fumaça adicional. O factoide serviu perfeitamente ao propósito político: enterrar por algumas horas o noticiário sobre o desvio de dinheiro público, a tornozeleira eletrônica de Vorcaro e as ordens de bloqueio judicial nos EUA.
Mas o que torna o caso verdadeiramente grave — e digno de uma nota analítica — é a falta de apuração sistemática. Ora, se o veículo tivesse pegado o telefone e ligado para a assessoria de imprensa da Casa Branca, ou consultado a agenda pública, teria evitado o vexame. Se tivesse submetido a foto a uma análise de metadados ou a uma ferramenta de detecção de deepfake, teria descoberto a montagem em segundos. Não o fez. E a pergunta que fica é: isso foi incompetência ou conivência? No jornalismo, a primeira hipótese já é vergonhosa; a segunda, criminosa.
O caso força um doloroso paralelo com a história de Stephen Glass, o jovem repórter da The New Republic que, nos anos 1990, fabricou dezenas de reportagens. Glass criava fontes inexistentes, eventos imaginários e citações falsas — tudo com um talento narrativo que enganou seus editores por anos. A diferença é que Glass agia sozinho e sob o crivo de uma redação que, quando desconfiou, investigou e o expôs. Aqui, a impressão é que parte da imprensa brasileira não foi enganada pelos Bolsonaro — abraçou a farsa. Se Glass era o “mentiroso solitário”, a atual postura de alguns veículos é a de uma “fantasia coletiva”, onde o fato jornalístico é moldado para atender a uma agenda de pauta, muitas vezes alinhada a interesses políticos ou econômicos.
Vale lembrar que não é a primeira vez. O vídeo analisado lembra outro episódio: a viagem de Eduardo Bolsonaro ao Qatar, vendida pela imprensa como uma missão para entregar um pen drive com provas de fraude eleitoral. Mais tarde, soube-se que o objetivo real era outro — possivelmente relacionado ao dinheiro desviado. Mas a imprensa engoliu a narrativa do pen drive sem questionar. No mínimo, há um padrão de credulidade seletiva quando o assunto é a família Bolsonaro: tudo o que publicam vira manchete; tudo o que os acusa vira “oposição radical”.
Os efeitos dessa dinâmica perversa são medidos em números: enquanto a farsa da foto com Trump tomava as capas, as investigações sobre os R$ 62 milhões do Banco Master — dinheiro público enviado ao exterior, com ramificações em Delaware — ficaram em segundo plano. O vídeo revela que Flávio Bolsonaro, mesmo depois de demitir toda a equipe de campanha, viajou aos EUA “para tentar esconder esse dinheiro público roubado”. A Justiça americana já teria ordens de rastrear e bloquear os valores. E a imprensa, ocupada em repercutir a foto de US$ 15, falhou em sua função de watchdog.
Para que não paire dúvida sobre o que se poderia ter feito, listamos os passos básicos que qualquer redação deveria ter adotado — e que, se adotados, teriam evitado o constrangimento:
Nenhum desses procedimentos foi adotado de forma preventiva. E mais: quando o desmentido começou a circular nas redes sociais (inclusive com testes de IA), a reação da grande imprensa foi tímida, muitas vezes enterrando a correção em notas de rodapé ou em atualizações no fim das matérias originais. O dano já estava feito. A imagem de Trump ao lado dos Bolsonaro continuou sendo compartilhada por apoiadores como “prova de legitimidade internacional”, enquanto a correção não alcançou a mesma capilaridade.
Este artigo não defende a tese da conspiração geral. É plausível que parte do noticiário tenha sido apenas produto da aceleração pelo furo — a necessidade de ser o primeiro a publicar, típica de um jornalismo digital faminto por cliques. No entanto, quando o erro se repete sistematicamente (Qatar, agora Casa Branca), quando favorece sempre o mesmo lado político, e quando as correções vêm com menos força que as mentiras iniciais, a desconfiança sobre a intencionalidade torna-se legítima.
Comparação final com Stephen Glass: o repórter americano criava personagens e citações inteiramente fictícias, mas suas matérias eram tão bem escritas que enganavam leitores e colegas. A imprensa brasileira de hoje, em sua fração mais alinhada à direita ou simplesmente mais negligente, não precisa inventar personagens — basta reproduzir sem critério o que a família Bolsonaro publica. É uma forma de terceirização da fabulação: eles mentem, a imprensa valida. O resultado é pior que a foto de 15 dólares: é uma erosão sistemática da confiança pública. A medalha de 19 dólares, ao menos, é honesta sobre ser uma lembrança. Já a cobertura jornalística que se presta a esse papel não tem preço — mas tem um custo altíssimo para a democracia.
Ao final, fica a lição clássica, mas cada vez mais urgente: jornalismo sem verificação não é jornalismo, é propaganda. E quando a propaganda se disfarça de notícia, o risco é o de que toda a imprensa seja tratada como a própria farsa. Os veículos que caíram na armação do souvenir têm uma dívida com seus leitores. E os que o fizeram de forma deliberada têm uma dívida com a Justiça. O episódio da foto com Trump é, no fim, um espelho cruel: a imagem mais ridícula não é a dos políticos posando ao lado de um recorte do ex-presidente; é a dos jornalistas que publicaram aquilo como se fosse verdade.
Com informações de análise de White House Gift Shop, ChatGPT, Grok, CNN Brasil, G1, Casa Branca ■