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A nova doutrina Trump de controle territorial e a resistência global
Ameaças de anexação da Groenlândia, intervenção na Venezuela com captura de Maduro, guerra no Irã, pressão militar sobre Cuba e coerção econômica contra o Canadá revelam um padrão beligerante que desafia o direito internacional e encontra rejeição unânime dos povos diretamente visados
Analise
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■   Bernardo Cahue, 23/05/2026

Uma série de ações e ameaças do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao longo do primeiro semestre de 2026 reconfigurou o cenário geopolítico global e acendeu um alerta nos cinco continentes. Desde investidas declaradas para anexar a Groenlândia até uma intervenção militar que capturou o presidente venezuelano Nicolás Maduro, passando por uma escalada bélica contra o Irã, pressão crescente sobre Cuba e uma guerra comercial híbrida contra o Canadá, a administração republicana tem demonstrado uma disposição inédita para impor sua vontade por meios diretos, frequentemente à margem da legalidade internacional. Em todos esses fronts, contudo, os povos diretamente afetados — iranianos, venezuelanos, cubanos, canadenses e, de forma particularmente contundente, os groenlandeses dinamarqueses — têm erguido uma barreira firme, rejeitando qualquer forma de controle, exploração ou liquidação de seus direitos históricos e sociais.

A seguir, uma análise detalhada de cada uma dessas frentes de pressão e da resposta organizada das populações que se recusam a trocar soberania por subserviência.

Groenlândia: Entre imagens de IA e a vontade inegociável de um povo

O ponto de partida mais simbólico dessa ofensiva expansionista foi a Groenlândia. Em janeiro de 2026, Trump publicou em suas redes sociais uma montagem gerada por inteligência artificial na qual aparece fincando a bandeira dos Estados Unidos na ilha, ao lado de uma placa com a inscrição "Groenlândia: território dos EUA estabelecido em 2026". Em outra imagem, ele aparece no Salão Oval com um mapa da América Latina em que a Groenlândia, o Canadá e a Venezuela aparecem pintados com as cores americanas. A encenação visual, que mescla propaganda e provocação, faz parte de uma estratégia mais ampla: a Casa Branca confirmou que discute "uma série de opções" para adquirir a ilha, incluindo o uso de força militar, classificando a região como uma "prioridade de segurança nacional" devido à sua posição estratégica no Ártico e às vastas reservas de minerais críticos, elementos essenciais para indústrias de tecnologia e equipamentos militares.

A reação local, no entanto, foi rápida e categórica. O primeiro-ministro groenlandês, Jens-Frederik Nielsen, e outros quatro líderes partidários divulgaram um comunicado enfatizando que "o futuro da Groenlândia deve ser decidido pelo povo groenlandês", acrescentando: "Não queremos ser americanos, não queremos ser dinamarqueses, queremos ser groenlandeses". Nielsen classificou a ideia de anexação como uma "fantasia" e declarou: "Já chega de pressão. Chega de insinuações. Chega de fantasias de anexação". A população local também se manifestou nas ruas e em entrevistas, com uma moradora resumindo o sentimento geral: "Nós não somos uma coisa que você possa ir lá e comprar. Nós somos um povo — esta é a nossa terra". Um climatologista groenlandês, Birger Poppel, expressou a preocupação de muitos: "Olhando para os Estados Unidos e, principalmente, para o que quer Donald Trump, é um outro mundo. Eu não quero isso para mim", fazendo referência direta à defesa dos sistemas públicos de saúde e educação gratuitos, conquistas sociais que a população não está disposta a liquidar em troca de uma integração forçada aos EUA. A primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, por sua vez, foi ainda mais incisiva: uma tomada da Groenlândia pelos EUA significaria o fim da Otan, um alerta que coloca em xeque a própria coesão da aliança.

Venezuela: Captura de Maduro e a fachada da "operação policial"

Se a Groenlândia era um alvo discursivo, a Venezuela foi palco de uma ação concreta de força. Em 3 de janeiro de 2026, os Estados Unidos lançaram a Operation Absolute Resolve, um ataque militar de grande escala que resultou no sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, em Caracas, e sua subsequente transferência para solo americano para julgamento. A operação, que incluiu bombardeios a infraestruturas militares na região da Grande Caracas, foi justificada pela administração Trump como uma "missão de extradição" de agentes da lei com apoio militar, uma caracterização amplamente contestada por especialistas internacionais.

O renomado instituto Chatham House publicou uma análise contundente no dia seguinte, afirmando que o sequestro de Maduro e os ataques associados "não têm justificativa no direito internacional" e constituem uma "violação significativa da soberania venezuelana e da Carta da ONU". A entidade destacou ainda que a retórica de "defesa da democracia" utilizada por Trump não resiste a uma análise jurídica séria, lembrando que os EUA sempre evitaram esse argumento em intervenções passadas (como Granada e Panamá) justamente por temerem criar precedentes desfavoráveis. A Venezuela passou então a ser administrada pela presidente interina, Delcy Rodríguez, sob forte tutela americana, com Trump chegando a sugerir, em março de 2026, a concessão de "status de estado" ao país — uma provocação que escancara a visão de seu governo sobre a região como uma extensão de seu território.

Irã: Guerra por procuração e o preço da independência

Em outro front, Trump conduziu os Estados Unidos a um conflito direto com o Irã. A Guerra do Irã de 2026, iniciada em 28 de fevereiro, envolveu ataques coordenados dos EUA e de Israel contra alvos militares iranianos, com um saldo de pelo menos 15 militares americanos mortos, centenas de feridos e um número desconhecido de baixas iranianas. A escalada incluiu o assassinato do Aiatolá Khamenei, a eleição de um novo Líder Supremo e o fechamento do Estreito de Ormuz, gerando uma crise de combustíveis global.

A resistência iraniana, no entanto, não se limitou ao campo de batalha. O povo iraniano, sujeito a décadas de sanções e intervenções externas, reafirmou por meio de protestos e da atuação de suas milícias aliadas que não aceitará um governo fantoche imposto por Washington. A população civil, que já sofria com as consequências do embargo, também deixou claro que qualquer transição política patrocinada pelos EUA não teria legitimidade, rejeitando o que veem como mais uma tentativa de pilhagem de recursos nacionais, especialmente na área de energia, sob o disfarce de uma "libertação".

Cuba: Cerco e ameaças de intervenção militar

A pressão sobre Cuba também atingiu seu ponto mais alto em décadas. Em maio de 2026, Trump e seu secretário de Estado, Marco Rubio, reforçaram as ameaças de uma "intervenção militar" na ilha, sustentadas por uma série de medidas que incluem o indiciamento criminal do ex-presidente Raúl Castro, a presença de um porta-aviões na região do Caribe, voos de inteligência sobre o território cubano e novas sanções contra executivos e empresas do governo cubano. Rubio afirmou que, embora a "preferência de Trump" seja por um acordo negociado, a "probabilidade de isso acontecer não é grande", abrindo caminho para uma ação unilateral.

O governo cubano, na voz do presidente Miguel Díaz-Canel, classificou as acusações contra Raúl Castro como uma "manobra política" que visa "justificar a loucura de uma agressão militar contra Cuba". A população cubana, que já vive sob um embargo econômico severo há mais de seis décadas, demonstrou nas ruas e em manifestações oficiais sua rejeição à interferência estrangeira. Analistas apontam que a estratégia de Trump segue um padrão já testado na Venezuela: usar o sistema judiciário para dar um "verniz de legalidade" a uma eventual operação, ao mesmo tempo em que sufoca a economia local para forçar uma mudança de regime. Até o momento, contudo, a resistência cubana tem se mantido coesa, rejeitando qualquer negociação que implique a liquidação de suas conquistas sociais.

Canadá: O vizinho sob ameaça de anexação econômica

Por fim, a relação com o Canadá, historicamente o aliado mais próximo dos EUA, também foi drasticamente alterada. Trump voltou a ameaçar anexar o país, transformando-o no "51º estado", e aplicou uma série de medidas coercitivas, incluindo a ameaça de tarifas de 100% sobre todos os produtos canadenses caso Ottawa avançasse em um acordo comercial com a China. O presidente americano tem se referido ao primeiro-ministro canadense, Mark Carney, como "governador", numa tentativa deliberada de minar sua autoridade e sugerir subordinação.

O Canadá, no entanto, não apenas resistiu como respondeu com firmeza. Carney, que venceu as eleições prometendo enfrentar Trump, classificou as ações do republicano como uma tentativa de "nos destruir para que os Estados Unidos possam nos dominar". O medo de uma coerção militar que se estenda além do campo comercial tem mobilizado a sociedade canadense: uma coluna no maior jornal do país alertou para a possibilidade de Trump usar "coerção militar", sugerindo que o país aprenda com as defesas da Finlândia contra a Rússia e expanda sua defesa civil. A população canadense, em grande parte, vê com incredulidade a virada do seu aliado histórico, mas demonstra disposição para defender sua soberania.

A rejeição comum: soberania e direitos em primeiro lugar

O que unifica os cinco cenários — Groenlândia, Venezuela, Irã, Cuba e Canadá — é a clara rejeição, por parte de suas populações, a qualquer forma de controle ou subserviência aos Estados Unidos. Seja por motivos estratégicos (caso da Groenlândia), econômicos (Cuba e Irã) ou por princípios democráticos (Canadá e Venezuela), os povos desses países têm demonstrado que não aceitarão a liquidação de seus direitos adquiridos. Como disseram os líderes groenlandeses, o futuro de uma nação "deve ser decidido pelo seu próprio povo", não imposto pelo poderio militar ou pela chantagem econômica de uma potência estrangeira. A "doutrina Trump" de controle territorial, portanto, encontra seu limite mais intransponível na vontade soberana dos cidadãos que se recusam a viver sob um regime de ocupação.

Com informações de G1 Globo, UOL Notícias, BBC News Brasil, Wikipedia, Chatham House, RTP, CNN Brasil, Folha de S.Paulo, InfoMoney, RFI Brasil ■

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