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Os últimos meses assistiram a um fenômeno peculiar no jornalismo político brasileiro. Uma mesma colunista, repetidas vezes, estabeleceu narrativas que, sob escrutínio dos fatos, revelaram-se inconsistentes, desmentidas pelos próprios protagonistas ou simplesmente abandonadas na edição seguinte. Malu Gaspar, do jornal O Globo, tem construído um estilo no qual a aposta em "fontes" e a construção de tramas nos bastidores frequentemente entram em choque com a realidade dos acontecimentos.
A seguir, uma análise detalhada de suas principais teses recentes, todas elas refutadas pelos desdobramentos posteriores.
A farsa da dosimetria: quando a informação não se confirma
Em maio de 2026, Gaspar noticiou que ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) teriam sinalizado que a Corte "não deve interferir" na decisão do Congresso que derrubou o veto presidencial ao projeto da dosimetria, o qual beneficia condenados pelos atos de 8 de janeiro. Segundo a coluna, a articulação nos bastidores contara com a atuação do ministro Alexandre de Moraes, que teria inclusive participado de ajustes na minuta final consolidada com senadores.
A narrativa, no entanto, ruiu em menos de uma semana. No final do mesmo mês, a própria Gaspar informava que o ministro Alexandre de Moraes negara pedido de redução da pena de Débora Rodrigues dos Santos, conhecida como Débora do Batom, justificando que a lei sequer havia sido publicada e que ainda nem se sabia se seria considerada válida. Mais grave: o Estadão rotulou a versão de arranjo entre poderes de "literatura fantástica" e "lorotas". Vale lembrar que o ex-presidente Jair Bolsonaro permaneceu preso, sem qualquer efeito prático da tal "dosimetria acordada".
O mito da articulação de Moraes contra Jorge Messias: uma narrativa que ruiu
A colunista foi além. Em uma de suas peças mais audaciosas, atribuiu ao ministro Alexandre de Moraes a orquestração, nos bastidores, da rejeição do nome de Jorge Messias para uma vaga no STF. De acordo com seis fontes ouvidas, Moraes teria atuado diretamente para barrar a indicação de Lula, reunindo-se com integrantes do STF, do Congresso e agentes do meio político e jurídico para reforçar a campanha pelo "não".
A tese, no entanto, nunca se sustentou. O senador Flávio Bolsonaro, citado nas apurações, categoricamente desmentiu qualquer aliança: "Não tem acordo nenhum com ele, não vai ter nenhum acordo com ele", afirmou, referindo-se a Moraes. Flávio foi além ao sugerir que a jornalista ouvira "fontes erradas". Mais uma vez, a construção de uma complexa trama de bastidores não resistiu ao confronto com a realidade.
Banco Master: o recuo que expôs a fragilidade da denúncia
O caso mais emblemático das inconsistências de Gaspar, no entanto, é o do Banco Master. Em dezembro de 2025, a colunista disparou uma bomba: de acordo com seis fontes, o ministro Alexandre de Moraes teria ligado para o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, pelo menos quatro vezes para fazer "pressão em favor do Banco Master", cujo dono, Daniel Vorcaro, mantinha um contrato milionário com o escritório de advocacia da esposa de Moraes, Viviane Barci.
Moraes e Galípolo negaram imediatamente a informação, alegando que as reuniões trataram das sanções da Lei Magnitsky contra o ministro. Diante da reação, Gaspar foi obrigada a recuar publicamente. No dia 29 de dezembro de 2025, em novo artigo, ela admitiu que Moraes não fez "pressão". A nova versão: o ministro teria apenas mencionado "gostar de Vorcaro" e dito que o banqueiro sofria perseguição, mas, ao ser informado sobre as fraudes descobertas pelo Banco Central, teria mudado de postura.
A sequência foi reveladora. Primeiro, a notícia bombástica. Depois, a escalada do conflito. E, por fim, o recuo sorrateiro. O Observatório da Imprensa anotou que "sobram lacunas e questionamentos nas reportagens", e que o que se espera em revelações desse teor são "indícios que levem mais cedo ou mais tarde à confirmação da denúncia", o que não ocorreu. A Revista Fórum registrou que Gaspar admitiu que suas fontes teriam "secado".
Débora do Batom: a simplificação enganosa de um caso complexo
Outro exemplo gritante de desinformação foi a cobertura do caso Débora Rodrigues dos Santos, a "Débora do Batom". A imprensa, liderada por Gaspar, apresentou a ré como uma simples "pichadora" presa por ter escrito "Perdeu, mané" com batom na estátua da Justiça em frente ao STF, construindo uma campanha pela sua soltura.
O que a colunista omitiu intencionalmente é que Débora foi condenada por crimes muito mais graves: associação criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado de Direito, golpe de Estado, dano qualificado e deterioração de patrimônio tombado, em razão de sua participação nos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023. A pena de 14 anos, defendida por Moraes, era por esses crimes, não por pichar uma estátua. O próprio ministro Luiz Fux, em voto divergente, reconheceu a gravidade e ofereceu uma pena alternativa menor, de 1 ano e 6 meses, justamente por entender que, no caso concreto, apenas o crime de deterioração do patrimônio tombado teria sido configurado. A manipulação da narrativa com meias-verdades foi deliberada.
Flávio Bolsonaro e as estratégias da direita: entre a análise e a confusão
A colunista também se aventurou na análise da pré-campanha de Flávio Bolsonaro. Em fevereiro de 2026, escreveu sobre o "primeiro dilema da pré-campanha de Flávio Bolsonaro à presidência". A peça, embora menos polêmica, trouxe à tona as contradições internas da direita, como a disputa pelo marqueteiro ideal e a relação com outros pré-candidatos.
O problema central da análise de Gaspar é sua constante flutuação. Em uma semana, Moraes é o algoz implacável do bolsonarismo. Na semana seguinte, ele é o grande articulador que faz acordos com o mesmo bolsonarismo. É uma colunista que, a cada novo episódio, corrige a rota do episódio anterior, num processo que mina qualquer credibilidade analítica.
Conclusão: Os custos do sensacionalismo jornalístico
O que se observa é um padrão preocupante. A busca pelo "furo" e a necessidade de alimentar uma torrente diária de informações conduzem a um jornalismo que privilegia a especulação em detrimento da apuração robusta. As "fontes" anônimas e convergentes, que deveriam ser um instrumento para desvendar fatos complexos, tornam-se, nas mãos de Malu Gaspar, uma ferramenta para construir narrativas frágeis e, não raro, equivocadas.
A consequência é um debate público intoxicado. A cada nova "revelação", os ânimos se acirram, os adversários políticos são enquadrados e a confiança nas instituições é corroída. Quando a informação se revela falsa ou imprecisa, o estrago já está feito. A correção, publicada em meio a outras manchetes, não alcança a mesma repercussão.
Mais do que nunca, o Brasil precisa de um jornalismo que busque a verdade com responsabilidade, que questione o poder sem recorrer a atalhos e que preze pela credibilidade que sustenta a democracia. O que Malu Gaspar tem oferecido é um fast-food informativo: saboroso no primeiro impacto, mas que deixa um gosto amargo de desinformação e incerteza.
Com informações de Brasil 247, O Globo, Revista Fórum, Observatório da Imprensa, Folha de S.Paulo, Diário do Centro do Mundo, Brasil Paralelo, Urbs Magna, Poder 360 ■