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Antes de Trump, bolsonarismo também normalizou misoginia
Enquanto conselheiro de Trump é flagrado chamando brasileiras de "raça maldita", análise mostra que ex-presidente Jair Bolsonaro e sua base política já haviam consolidado um padrão de normalização da misoginia no país — com ataques a jornalistas, parlamentares e políticas públicas inteiras
Analise
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■   Bernardo Cahue, 24/04/2026

A indignação global com a fala do conselheiro de Donald Trump Paolo Zampolli, que em abril de 2026 classificou mulheres brasileiras como uma "raça maldita", gerou manchetes em todo o mundo. No Brasil, contudo, a reação foi atravessada por um desconforto familiar: o país já havia assistido, ao longo de décadas, ao mesmo padrão misógino sendo repetido, ampliado e naturalizado — não só por apoiadores anônimos, mas pela própria figura mais alta do Executivo. Antes de Trump, antes do conselheiro, o bolsonarismo já havia transformado a misoginia em ferramenta de governabilidade e discurso cotidiano.

I. Um catálogo de violências verbais: quando misoginia vira rotina parlamentar e presidencial

Jair Bolsonaro construiu ao longo de quase três décadas de vida pública um histórico de falas contra mulheres que extrapola qualquer noção de "excesso de sinceridade" ou "estilo autêntico", como seus auxiliares costumavam justificar. O repertório de ataques começou bem antes de sua chegada à Presidência, mas ganhou contornos institucionais a partir de 2019. Em março de 2025, já fora do poder, o ex-presidente foi flagrado em vídeo durante o Carnaval, em Angra dos Reis (RJ), chamando mulheres petistas de "feias" e "incomíveis". Nos registros publicados por seu filho Jair Renan, Bolsonaro declarou: "Você pode ver, não tem mulher bonita petista. Só tem feia. Às vezes acontece quando estou no aeroporto alguém me xinga. Mulher, né? Olho para ela: 'Nossa, mãe, incomível'". As falas provocaram risadas entre aliados presentes e ocorreram a apenas dois dias do Dia Internacional da Mulher. A ministra das Mulheres, Cida Gonçalves, classificou o episódio como "uma tentativa de desumanizar e silenciar mulheres que pensam diferente".

A fala mais emblemática e sistematicamente condenada pela Justiça, no entanto, remonta a 2014, quando Bolsonaro, então deputado, disse à deputada Maria do Rosário (PT-RS): "Eu não sou estuprador, mas, se fosse, não iria estuprar, porque não merece". A frase não foi um acaso isolado, mas parte de uma escalada de violência verbal institucional: em 2003, em plenário, Bolsonaro já havia afirmado "Jamais iria estuprar você, porque você não merece" após a deputada ter denunciado sua defesa da tortura. O Superior Tribunal de Justiça (STJ) condenou Bolsonaro a indenizar Maria do Rosário por danos morais, reconhecendo que a fala reforçava a ideia de que "algumas mulheres merecem ser estupradas e que ele é potencial estuprador".

O presidente avançou ainda mais: em 2020, chamou a jornalista Patrícia Campos Mello, da Folha de S.Paulo, de "insinuante" e sugeriu que ela teria se oferecido sexualmente para conseguir informações de uma fonte. Em 2022, no debate presidencial da Band, o então candidato atacou a jornalista Vera Magalhães chamando-a de "vergonha do jornalismo brasileiro" e acusando-a de ter preferência pelo oponente. Em uma live posterior, afirmou que "notícia boa para as mulheres é beijinho, rosas, presentes e férias", reduzindo sistematicamente as pautas femininas a um universo banal e de consumo afetivo superficial.

Filhos de Bolsonaro seguiram o padrão: o deputado Eduardo Bolsonaro associou a contratação de mulheres ao acidente da obra da linha 6 do Metrô de São Paulo; o senador Flávio Bolsonaro declarou que as colegas mulheres tinham menos interesse em participar da CPI da Covid porque "não gostam de enfrentar" temas difíceis; e Jair Renan, ao compartilhar o vídeo em que o pai chama mulheres petistas de "incomíveis", legendou o conteúdo com "Bolsonaro sempre tem razão".

II. Misoginia como política pública: desmonte institucional e orçamentário

A normalização da misoginia no bolsonarismo não se restringiu a palavras. Estudos e levantamentos mostram que o governo Bolsonaro desmontou estruturas inteiras de proteção e promoção dos direitos das mulheres. Uma pesquisa do IPEA divulgada em julho de 2022 comprovou que, desde 2019, o governo cortou recursos e esvaziou políticas para mulheres, com um desmonte "acentuado" das principais políticas. De acordo com análise da UOL, em dois anos de gestão, 85% dos gastos destinados ao público feminino concentraram-se no Disque 180 — uma linha de apoio para denúncias — enquanto programas estruturantes como a Casa da Mulher Brasileira e políticas de enfrentamento à violência sofreram cortes drásticos.

O Ministério Público Federal de São Paulo ajuizou, em agosto de 2020, uma ação civil pública contra a União, processando o governo por "postura desrespeitosa" e declarações discriminatórias do presidente e seus ministros. O processo listou frases misóginas de Bolsonaro, Damares Alves, Paulo Guedes, Sergio Moro e do então chanceler Ernesto Araújo, que afirmou: "Hoje um homem olhar para uma mulher já é tentativa de estupro". A ação exigia uma indenização de R$ 5 milhões ao Fundo de Direitos Difusos por danos sociais e morais coletivos. Embora extinta pelo TRF-3 em 2021, a ação foi um marco jurídico ao reconhecer — mesmo que tardiamente — que a misoginia ganhara status de prática institucional.

Bolsonaro também vetou projetos com impacto direto sobre a vida de mulheres. O mais emblemático foi o veto à distribuição de absorventes higiênicos para estudantes de baixa renda, mulheres em situação de vulnerabilidade e presidiárias — proposta da deputada Marília Arraes (PT-PE). A justificativa do presidente foi de que o programa "poderia incentivar a promiscuidade" entre adolescentes. O veto só foi derrubado pelo Congresso após forte pressão social e midiática. Posteriormente, Bolsonaro sancionou a distribuição de absorventes para mulheres presas — mas apenas depois de o governo encaminhar seu próprio projeto que excluía mulheres de baixa renda em geral.

III. O contágio do bolsonarismo: quando o ódio às mulheres se torna patrimônio de uma base

Mas o fenômeno ultrapassou o discurso presidencial. O bolsonarismo produziu um ambiente em que a misoginia passou a ser encarada como qualidade, não defeito. Pesquisa de 2018, durante as eleições presidenciais, mostrou que mais de 70% dos casos relatados de ameaças físicas e estupros virtuais contra mulheres tinham origem em ataques com conotação política relacionados à campanha de Bolsonaro. A antropóloga Letícia Cesarino, em artigo na CartaCapital, descreveu o bolsonarismo como parte de um fenômeno maior: a ascensão de uma "misoginia contemporânea" financiada por ecossistemas de ódio online, incluindo comunidades incels, red pills, MGTOWs e outros braços da "machosfera" que encontraram no bolsonarismo um aliado institucional: "Erigido sobre as bases da nossa cultura machista e patriarcal, o bolsonarismo passou a se diferenciar dela enquanto uma forma de radicalização".

A naturalização do discurso de ódio contra mulheres tornou-se tão evidente que, em 2021, o Tribunal de Justiça de São Paulo condenou Bolsonaro a pagar R$ 35 mil à jornalista Patrícia Campos Mello, reconhecendo que suas declarações violavam a dignidade da profissional. Na ação, a juíza afirmou que o então presidente "abusou do direito de liberdade de expressão ao proferir ofensas de cunho sexual e misógino".

IV. Bolsonaro, Trump e a misoginia globalizada: um mesmo manual em idiomas diferentes

O episódio envolvendo o conselheiro de Trump e suas declarações contra mulheres brasileiras não ocorre no vácuo. Donald Trump também construiu uma carreira pública marcada por declarações misóginas, incluindo a famosa gravação de 2005 em que se gabava de agarrar mulheres pelos genitais sem consentimento. O paralelo com Bolsonaro é explícito e já foi explorado pela imprensa internacional. Em fevereiro de 2025, após denúncia da Procuradoria-Geral da República contra o ex-presidente brasileiro, veículos estrangeiros repetiram as comparações: ambos se valem de misoginia como ferramenta de mobilização de base, ambos atacam jornalistas mulheres e ambos transformam as ofensas à dignidade feminina em espetáculo político para consumo de seus eleitorados.

Em abril de 2020, a BBC já listava as semelhanças entre Bolsonaro e Trump — especialmente em tempos de pandemia, quando ambos minimizaram a gravidade da covid-19, atacaram governadores e criticaram o isolamento social. Embora o artigo não destacasse exclusivamente a misoginia, ambos compartilhavam um mesmo estilo de confronto com a imprensa e com críticas femininas ao seu governo. Analistas políticos e historiadores apontam que a misoginia de ambos não é acessória, mas estruturante de seus projetos de poder: serve para demarcar território, humilhar adversárias, deslegitimar críticas e manter uma base eleitoral majoritariamente masculinizada e avessa às pautas feministas. Como escreveu a deputada Marília Arraes em 2020, ainda em pleno governo Bolsonaro: "Quando contrariado por uma mulher, o presidente ataca com machismo, sexismo e misoginia".

V. Considerações finais: a normalização não foi acidente, foi projeto

A fala de Zampolli sobre as mulheres brasileiras é repugnante, mas encontra terreno fértil justamente porque, no Brasil, durante quatro anos, foi normalizado que um presidente da República chamasse uma parlamentar de "feia demais para ser estuprada", que um ministro da Economia chamasse empregadas domésticas de "mão de obra barata" (em referência à alta do dólar) e que o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos fosse comandado por uma pastora que associava feminismo à destruição da família. As medidas práticas também foram avassaladoras: menos creches, menos casas de acolhimento, menos orçamento para saúde da mulher e mais discurso de ódio nas ruas.

O general John Kelly, ex-chefe de gabinete de Donald Trump, afirmou em 2024 que Trump "certamente se enquadra na definição geral de fascista". No Brasil, a pergunta que fica é: será que, antes de qualquer comparação internacional, o país já não naturalizou sua própria versão de normalização do ódio às mulheres? A resposta, infelizmente, está registrada em inúmeras falas, condenações judiciais e políticas públicas desmontadas. O bolsonarismo pode ter perdido a eleição, mas a semente misógina que ajudou a plantar continua frutificando — e, como o episódio Zampolli demonstra, o mundo está de olho.

Com informações de O Globo, Folha de S.Paulo, UOL, CartaCapital, Brasil de Fato, El País, Congresso em Foco, Gênero e Número, BBC News Brasil, IHU Unisinos, Nexo Jornal, PT.org.br, Gazeta do Povo, Jacobin Brasil, SciELO, UERJ, Lume UFRGS, BdTD, Universidade Federal da Paraíba, Universidade Estadual do Ceará, Partido dos Trabalhadores (PT), CUT Brasil, Revista Piauí, Diário de Cuiabá, CBN, Estadão, O Imparcial, Bem Paraná, O Povo, DW Brasil, Terra, Valor Econômico, Correio Braziliense, Agência Lupa, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), Fundação Heinrich Böll, Repórteres Sem Fronteiras (RSF) ■

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