Siga nossas redes sociais | ![]() | Siga nossos canais |
Na madrugada de quinta-feira, 23 de abril de 2026, o ministro Gilmar Mendes, decano do Supremo Tribunal Federal (STF), concedeu uma entrevista à jornalista Renata Lo Prete no Jornal da Globo. A conversa, que abordou temas sensíveis do cenário político-jurídico brasileiro, rapidamente se tornou viral, não apenas pelas provocações direcionadas ao ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), mas, fundamentalmente, por uma série de críticas contundentes que o ministro dirigiu à própria imprensa e, em especial, à emissora que o entrevistava. O episódio expôs as tensões históricas entre o Judiciário e a mídia, levantando um debate sobre responsabilidade, memória institucional e a necessidade (ou a falta dela) de uma autocrítica pública.
O acontecimento central do noticiário não foi apenas a defesa do inquérito das fake news, mas a forma como Gilmar Mendes utilizou o espaço na Globo para fazer um contraponto direto à cobertura da imprensa durante a Operação Lava Jato. O ministro criticou veementemente o que chamou de conluio entre setores da mídia e a força-tarefa da Lava Jato, afirmando que jornalistas teriam atuado como "ghostwriters" (escritores fantasmas) de figuras centrais da operação, como o ex-juiz Sergio Moro e o ex-procurador Deltan Dallagnol. Ele descreveu essa atuação como um flerte com o abismo, em que se atacava quem ousasse criticar a Lava Jato e se apoiaram medidas que, segundo ele, restringiam garantias fundamentais, como a possibilidade de habeas corpus.
Mais do que uma crítica retrospectiva, a fala de Gilmar Mendes continha uma cobrança direta: assim como o STF tem o dever de fazer um balanço reflexivo sobre suas decisões, a imprensa também deveria realizar uma autocrítica, citando como exemplo o amplo apoio dado pela própria mídia à Operação Lava Jato. Para Mendes, a grande mídia “não aprendeu nada” com seus erros, desde o impeachment da presidente Dilma Rousseff até os abusos da Lava Jato que, em seu diagnóstico, culminaram na eleição de Jair Bolsonaro em 2018. O ministro foi além ao lembrar que o STF salvou a Globo de ter sua concessão cassada durante o governo anterior, por meio de mandados de segurança, indicando que a liberdade de imprensa foi mantida graças à atuação do Supremo, e não apesar dela.
Renata Lo Prete, do outro lado da bancada, conduziu a entrevista com o estilo sóbrio e firme que lhe é característico. Em certo momento, ao abordar as delações do Banco Master, que envolvem os ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, e a suposta coincidência temporal com a movimentação de uma ação antiga sobre colaborações premiadas, Gilmar Mendes respondeu ironizando os "200 milhões de juristas" que, segundo ele, opinam sobre tudo no país. No entanto, o ponto de maior tensão ocorreu quando o ministro sugeriu uma relação do senador Alessandro Vieira (MDB-SE) com o crime organizado. Renata Lo Prete prontamente interrompeu a declaração, argumentando que não seria possível, dentro do programa, "investigar essas conjecturas", numa demonstração de controle editorial sobre a fala do entrevistado.
A reação do senador Alessandro Vieira não tardou. Ao ser procurado pela CartaCapital, Vieira classificou a fala do ministro como "patética" e afirmou que o decano do STF adota "a ameaça e a ofensa" como método, em vez de apresentar defesa técnica sobre os fatos. O episódio ilustra o alto grau de acirramento entre os Poderes e a disposição do ministro em usar a tribuna midiática para contra-atacar seus críticos.
As reações na imprensa e entre analistas políticos foram polarizadas. Veículos como a Gazeta do Povo interpretaram a fala de Gilmar Mendes como uma confissão de que o "inquérito das fake news" será uma ferramenta de perseguição política até as eleições. Por outro lado, sites alternativos e blogs alinhados à esquerda elogiaram a coragem do ministro em expor o que chamam de "rachadinha" entre a grande mídia e setores golpistas. O portal Diário do Centro do Mundo, por exemplo, destacou que Gilmar "fez picadinho da demagogia da interlocutora" ao lembrar do evento patrocinado por Daniel Vorcaro em Nova York, do qual participaram jornalistas e executivos da Globo.
Análise e contexto: a cultura do mea-culpa e a memória institucional
A entrevista de Gilmar Mendes a Renata Lo Prete revela um ponto central do debate público brasileiro: a dificuldade das instituições em admitir erros passados. Ao cobrar uma autocrítica da imprensa, o ministro toca em uma ferida ainda aberta. Houve, de fato, um apoio majoritário da grande mídia à Operação Lava Jato, que, anos depois, foi alvo de investigações que revelaram abusos, como os vazamentos da Vaza Jato. A pergunta que fica é se a imprensa brasileira avançou em algum código de conduta ou revisão editorial sobre a cobertura daquele período, ou se ainda prevalece o "flerte com o abismo" descrito pelo magistrado.
Por outro lado, o ministro também caminha em terreno pantanoso. O STF, sob seu comando em diversas ocasiões, também enfrenta críticas sobre a falta de transparência e a extensão de seus poderes, especialmente em relação ao inquérito das fake news, que completa sete anos sem previsão de término. Ao dizer que o inquérito "vai acabar quando terminar", Gilmar Mendes pode ter dado munição para aqueles que acusam o tribunal de atuar sem freios e contrapesos.
Desdobramentos e o que esperar
O bate-boca entre o STF e a imprensa promete se intensificar. Políticos de oposição já articulam novos pedidos de impeachment contra o ministro, e o caso Master continua rendendo desdobramentos jurídicos. A fala de Gilmar Mendes, ao confrontar uma das maiores emissoras do país em seu próprio programa, demonstra que o decano não teme o escrutínio público e está disposto a usar qualquer espaço disponível para defender sua versão da história institucional.
Mais do que uma entrevista de fim de noite, o episódio entre Renata Lo Prete e Gilmar Mendes funcionou como um termômetro das relações entre dois poderes constituídos: a imprensa e o Judiciário. Ambos os lados saíram com marcas: a Globo, ao ter sua narrativa questionada internamente, e o ministro, ao ser interrompido em uma acusação grave sem provas. O confronto expôs que, no Brasil de 2026, o debate sobre o papel da mídia e os limites da atuação judicial está longe de uma trégua, e a tão falada "autocrítica" ainda parece ser uma virtude rara no noticiário nacional.
Com informações de Diário do Centro do Mundo, G1, CartaCapital, Estadão, Gazeta do Povo, Brasil Fora da Caverna, O Cafezinho, Expresso 222 ■