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A ideia que veio para ficar... e foi rejeitada
A menos de dois meses do início da Copa do Mundo de 2026, um episódio inusitado expôs a relação perversa entre futebol e geopolítica: um enviado especial do presidente Donald Trump, o ítalo-americano Paolo Zampolli, propôs à Fifa que a Itália substituísse o Irã no torneio, mesmo sem a Azzurra ter se classificado. A justificativa foi solene — os quatro títulos mundiais, o “pedigree” da equipe e o sonho de ver a Itália jogar em solo americano. Nos bastidores, porém, a proposta era vista como um gesto político para reparar relações tensas entre Trump e a premiê italiana Giorgia Meloni, após divergências sobre o papa Leão XIV e o conflito no Oriente Médio.
Contudo, a reação italiana foi tão rápida quanto contundente: “vergonhosa”, “ofensiva” e “inapropriada” foram alguns dos adjetivos usados por autoridades do país para se distanciarem da proposta. O ministro da Economia, Giancarlo Giorgetti, afirmou explicitamente que sentiria “vergonha” caso a Itália ocupasse uma vaga que não conquistou em campo. Já o ministro do Esporte, Andrea Abodi, foi categórico: “A classificação se conquista em campo”. O presidente do Comitê Olímpico Italiano, Luciano Buonfiglio, resumiu o sentimento nacional: “Eu me sentiria ofendido. É preciso merecer para ir à Copa do Mundo”.
A humilhação do tricampeão mundial ausente
A Itália que se recusa a entrar pela porta dos fundos na Copa 2026 é, paradoxalmente, a mesma que não consegue entrar pela porta da frente há 12 anos. A eliminação em março, nos pênaltis para a Bósnia e Herzegovina, confirmou o que muitos já temiam: a Azzurra ficará de fora de sua terceira Copa consecutiva, algo inédito para uma seleção tetracampeã. O país ficou de fora das edições de 2018 (Rússia) e 2022 (Catar), e agora também não estará em 2026, o que significa que, no mínimo, a Itália passará 16 anos sem disputar um Mundial (última participação foi em 2014). A sequência de fracassos nas repescagens consolidou um recorde negativo: a Itália tornou-se a primeira seleção campeã do mundo a falhar a classificação para três Copas consecutivas.
A ausência na Copa 2026 desencadeou uma crise interna profunda no futebol italiano, com pedidos de renúncia do presidente da federação e uma onda de revolta popular estampada nas manchetes dos principais jornais do país, como o Corriere della Sera, que cunhou a expressão “A maldição da Copa do Mundo”.
Mas afinal, por que a Itália diria não a essa ‘ajuda’?
Para além da questão moral — a vaga seria um prêmio de consolação geopolítico —, existem razões práticas que tornam a proposta inviável. O técnico italiano Gianni De Biasi afirmou à Reuters que qualquer substituição deve seguir critérios sportivos lógicos: “...uma eventual ausência do Irã seria, logicamente, preenchida pela equipe logo atrás na classificação do grupo”. O especialista também destacou que a Itália não precisa do apoio de Trump em uma questão como essa: “Acho que podemos nos virar sozinhos”, disse.
Além disso, a proposta ignora completamente o regulamento da Fifa. O Artigo 6 das regras para a Copa 2026 estabelece que, em caso de desistência de uma federação participante, a entidade tem “discricionariedade exclusiva” para decidir sobre a substituição, mas que a reposição deveria vir, preferencialmente, da mesma confederação (no caso, a Ásia), para não desbalancear a competição.
O tabuleiro geopolítico: a guerra que embaralha as cartas
A proposta de Zampolli não surgiu do nada. Desde o início do conflito armado entre Estados Unidos e Irã, a participação da seleção persa na Copa — que será disputada majoritariamente nos EUA — estava sob uma nuvem negra. O ministro dos Esportes do Irã chegou a declarar que o país não participaria do torneio por falta de segurança, citando os ataques aéreos dos EUA e de Israel. Contudo, ao longo das últimas semanas, o governo iraniano recuou parcialmente e reafirmou a intenção de disputar o Mundial. O presidente da Fifa, Gianni Infantino, já garantiu publicamente que a seleção asiática estará presente no torneio, e a federação iraniana declarou que a equipe está “totalmente preparada” para a competição.
O que a Fifa diz, afinal?
A entidade máxima do futebol tem se mantido firme na defesa da participação do Irã. Em declaração anterior, Gianni Infantino foi categórico ao defender a presença da seleção asiática no torneio. Fontes da Fifa ouvidas pela BBC afirmaram que não há planos para fazer a substituição, e que a mudança só seria considerada se o Irã desistisse formalmente da competição. A mensagem é clara: a Fifa não pretende criar um precedente perigoso ao permitir interferência política na definição dos participantes da Copa, mesmo que a proposta tenha partido de um enviado do presidente do país-sede.
Uma ideia que nasceu morta (e enterrada pelos italianos)
No fim das contas, a proposta Trump/Zampolli para colocar a Itália na Copa 2026 não só foi rejeitada pela Fifa, como também foi rechaçada de forma veemente pelos próprios italianos. A atitude da Itália — um país que amargará 16 anos sem disputar uma Copa — demonstra que, por mais que o futebol esteja imerso em interesses políticos, ainda existem limites para a interferência externa. A seleção italiana prefere enfrentar a dura realidade de seu fracasso esportivo a aceitar uma vaga “caridosa” que mancharia sua história e sua honra. O episódio, no entanto, deixa uma reflexão: será que o esporte realmente pode ficar “fora da política”, como prega Infantino, quando os próprios chefes de Estado tentam usar a Copa do Mundo como moeda de troca nas relações internacionais?
Com informações de Financial Times, G1, BBC, CNN Brasil, Reuters, DW Brasil, Folha, UOL, Poder360, Veja, Ge, Brasil247, Diário do Centro do Mundo, Euronews, Publico, A Bola, The National (Emirados Árabes), NBC News, AS, Revista Zelo, Middle East Monitor, OneFootball ■